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Jornalismo Ambiental

Ilha das Flores após o fim da sessão: descaso, dúvidas, avanços, meio ambiente e novas histórias

01No curta-metragem moradores apareciam em filas para receber alimentos / Foto: Vinicius Domingues

“Os seres humanos são animais mamíferos, bípedes, que se distinguem dos outros mamíferos, como a baleia, ou bípides, como a galinha, principalmente, por duas características: o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor.” Quando dita, essa frase, logo faz lembrar o curta-metragem documental Ilha das Flores, do diretor Jorge Furtado, produzido em 1989 pela Casa de Cinema de Porto Alegre.

Conforme a sinopse, o curta conta o desfecho de um tomate, que é plantado, colhido, transportado e vendido em um supermercado, mas apodrece e acaba no lixo. Porém, o filme o segue até seu verdadeiro final, entre animais, lixo, mulheres e crianças. E então, fica clara a diferença que existe entre tomates, porcos e seres humanos.

Apesar de levar o nome Ilha das Flores, grande parte das gravações ocorreu na Ilha Grandes dos Marinheiros, região das ilhas da capital gaúcha. Em 2019, o curta de Jorge Furtado ganhou o título de ‘melhor curta-metragem brasileiro de todos os tempos’, segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Abranccine.

Trinta anos se passaram e o Ilha das Flores segue ganhando prêmios e reconhecimento no Brasil e no exterior. Mas o que mudou de lá pra cá no local da principal locação? O Multiverso foi até a Ilha Grande dos Marinheiros, conversou com os moradores, andou pelas ruas da comunidade e traz detalhes da história, após o desligar das luzes da sessão. Mas desta vez, com novos personagens, que se dividem entre moradores, as obras da nova Ponte do Guaíba e o Parque Estadual do Delta do Jacuí (PEDJ).

Porto Alegre está de costas pra nós

É na Capela de Nossa Senhora Aparecida, que todas as quintas-feiras, a líder comunitária Liane Antonia Farias acompanha as negociações entre moradores e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), em virtude das obras da nova Ponte do Guaíba. Quis o destino, que 38 anos depois de chegar à Ilha Grande dos Marinheiros, ela presenciasse de perto a mesma situação vivida na época da construção da Freeway, inaugurada em 1973. O feito viria a tornar-se a primeira auto-estrada brasileira, mas para isso, foi necessária a retirada de famílias. “A gente foi jogado aqui. Eles davam dois destinos: a Restinga ou a Ilha. Como aqui era mais perto do centro, muitas famílias vieram pra cá”, afirma a moradora.

02Segundo Liane, mais de 1000 moradores serão retirados devido as obras da nova ponte / Foto: Vinícius Domingues

Com mais de três décadas na Ilha Grande dos Marinheiros, Liane acompanhou diversas situações da comunidade, localizada dentro do bairro Arquipélago, a menos de oito quilômetros do Centro de Porto Alegre. A moradora não participou das gravações do curta Ilha das Flores, porém, recorda-se. Inclusive, relata que faz aproximadamente quatro anos que assistiu a produção. “Conforme os moradores me falavam, aquilo me dava muita revolta. Daí um dia fui convidada para uma reunião e eles passaram”, explica ao questionar a forma que história foi contada, fato citado por outros ribeirinhos.

Na época, de acordo com a moradora, a Ilha não tinha tantas famílias. Hoje, conforme Patrícia Salcedo, gestora do Centro de Relações Institucionais e Participativas (CRIP), aproximadamente oito mil pessoas residem no local, com base nos dados do Posto de Saúde da área. Para a líder comunitária, apesar da grande repercussão da obra de Jorge Furtado, a Ilha Grande dos Marinheiros sofreu as consequências, devido ao sucesso. “Pra nós não mudou nada! Pra nós foi um curta que nos botou muito para baixo,né. De benefício nada, nada!. Até para arrumar emprego, o pessoal da Ilha Grande tinha que dar endereço de outros familiares que moram em Porto Alegre, porque parecia que quando a gente chegava, a gente era pior que bicho. Até hoje é assim”, lamenta.

Com o passar do tempo, após muita persistência e luta da comunidade, algumas reivindicações foram atendidas. A luz chegou há pelo menos 20 anos. O carro-pipa do Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE) foi substituído pela água em encanada faz aproximadamente 15 anos, segundo Liane. “A gente lutou muito, juntava a comunidade, o clube de mães, fazia as comissões e ia, né. Até a gente conseguir”, relembra. Contudo, muita coisa continua da mesma maneira. A estreita Rua Nossa Senhora Aparecida, a principal da Ilha, permanece de chão batido. A via é mostrada no curta Ilha das Flores no momento em que um caminhão passa transportando resíduos e crianças correm atrás. O esgoto pluvial e cloacal (ou sanitário) ainda não faz parte da realidade dos moradores. Sem opção, a saída é largar diretamente no Guaíba, nos banhados do Parque Estadual do Delta do Jacuí (PEDJ) ou investir em fossas.

Além disso, Liane ressalta que falta muita coisa para dar mais dignidade à comunidade, que tem o menor Índice de Desenvolvimento Humano da capital, juntamente com a vizinha Ilha do Pavão. “Ainda falta muita coisa! A primeira é regularização fundiária que nunca teve. O Plano Diretor estamos montando agora, porque há uma necessidade, pois nós aqui da ilha nos sentimos excluídos. A gente vai fazer algum pedido de melhoria para a ilha, eles faz uma jogada assim ó: isso não é com nós, é do Estado. Ai tu vai lá no Estado, o Estado diz: não é comigo é com o Município. Daí tu vai lá e dizem que é Federal. Então, a gente não sabe a quem pertence”, pontua.

03Com muita fé, os moradores aguardam dias melhores / Foto: Vinícius Domingues

Para a moradora, o descaso do Poder Público, que os trata como invasores, se resume em uma frase: “A gente das ilhas estamos de frente para Porto Alegre, mas Porto Alegre está de costas pra nós”, finaliza.

A mesma Ilha, mas realidades opostas

“Em primeiro lugar, o pessoal aqui da ilha não comia a comida dos porcos. No Ilha das Flores ficou subentendido que o pessoal comia e isso não é verdade”.A declaração é do morador Gineo Santos, ao explicar que a comunidade recebia doações de uma rede de supermercados. Ele acompanhou as gravações do curta e permanece residindo na Ilha Grande dos Marinheiros, e faz questão de mostrar o contraste encontrado ao longo dos 13 quilômetros de extensão territorial.

Gineo mora ao lado da Capela Nossa Senhora Aparecida, às margens do rio, bem no traçado da nova Ponte do Guaíba. São mais de 40 anos vividos no local, no qual criou fortes vínculos, fazendo parte da organização de momentos relevantes para a Ilha. Um deles foi à fundação do primeiro Galpão de Reciclagem do Estado. “Eu sou um dos fundadores! Estamos desde 1983 com esse projeto, que é o primeiro do Rio Grande do Sul em relação à organização, registro e de ter o apoio do lixo seletivo”, explica.

04A reciclagem é a principal forma de geração de renda dos moradores / Foto: Vinícius Domingues

Hoje, o galpão que ficava localizado em frente à capela não está mais em pé. A estrutura foi derrubada, pois está no caminho das obras da ponte. Conforme Gineo, o prédio será construído em uma nova área da Ilha Grande dos Marinheiros, seguindo o acordo firmado com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (DNIT). Mesmo sem o local, a reciclagem ainda representa a principal fonte de renda dos moradores. Ao caminhar pela Ilha é fácil cruzar por residências repletas de materiais recicláveis e o vai e vem de caminhões responsáveis pelo transporte dos resíduos. Mas essa é realidade de umas das metades da ilha, neste caso a norte.

05No terreno do antigo galpão sobraram apenas entulhos e lembranças / Foto: Vinícius Domingues

Durante os diálogos com os moradores, é comum escutar: “o lado norte e lado sul”. E não se trata dos pontos cardeais. É sobre o contraste social. “Não existe, porque como é área de preservação ambiental, não é de interesse que a gente fique aqui. A verdade é que os burgueses fazem o que querem e nós não podemos nada, por causa que a gente é como invasores. Eu ainda fiz usucapião”, explica Gineo ao responder se há previsão para a chegada do saneamento básico. “Os burgueses” são os moradores do lado sul.

06Lado sul da ilha recebeu pavimentação bancada pelos moradores / Foto: Vinícius Domingues 07O lado norte permanece com ruas de chão batido, exatamente como na época da gravação do curta / Foto: Vinícius Domingues

Quem anda pelo lado sul, encontra outra realidade. A rua estreita de terra dá lugar ao calçamento de paralelepípedos. Ao invés de casas simples e pátios cheios de lixo reciclável, o outro lado da Ilha Grande dos Marinheiros é formado por enormes mansões, protegidas por sistemas de videomonitoramento e muros altos. O tráfego de caminhões é substituído por carros de luxo. De acordo com a gestora do CRIP, Patrícia Salcedo, a obra de pavimentação foi custeada pelos proprietários das mansões. Por se tratar de uma Área de Preservação Ambiental (APA), do Parque Estadual Delta do Jacuí, questionamos a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Porto Alegre sobre a legalidade da obra, porém, até o fechamento da matéria a mesma não se manifestou.

Eu amo essa Ilha

Quando o curta-metragem Ilha Flores estava sendo gravado, Nazaret da Silveira Nunes já habitava a região das Ilhas há três décadas. Ao todo, são 60 anos de convívio, 35 somente na Ilha Grande dos Marinheiros. Morando às margens do rio, em uma residência de palafita, ela relembra a época das gravações. Além disso, dá detalhes do passado, conta o presente e projeta o futuro.

Assim como os demais moradores, Nazaret afirma que a Ilha era composta por uma população carente na época da produção de Jorge Furtado e não aprova a forma de narrativa da história. “Eu fui contra aquilo ali, a verdade tem que ser dita. Eles meteram porco no meio, como se as pessoas tavam comendo lixo e não era verdade. Eu achei aquilo humilhante! Foi uma humilhação para a comunidade”, pontua Dona Nazaret, como é conhecida entre os moradores.

Questionada sobre os avanços no local, mesmo com a chegada do básico do básico, a moradora reconhece dias melhores. “Em 1977, a Ilha Grande dos Marinheiros passou a ser parque e não podia ter famílias, aqueles que estavam tinha que sair. Mas como naquela época eram 350 moradores, nós lutamos pra ficar. Essas pessoas vieram pra cá quando fizeram a Freewey. Eles atiraram as pessoas com as casas quebradas, com lona. Foi horrível! Eu fazia sopa pra eles comer. Hoje a ilha tá rica!”, compara.

Mesmo após tantos anos de luta, Nazaret que é considerada uma líder comunitária, demonstra preocupação com o futuro, principalmente, em torno das obras da nova Ponte do Guaíba. “Esses engenheiros que fizeram a metragem da ponte, não conhecem a ilha. Eles estudam no papel e nós estudemo na comunidade. Se essa ponte continuar naquela altura ali, nós temo que se preparar para a enchente. Chamar a Defesa Civil, mas se continuar nessa metragem a Defesa Civil não passa”, teme Nazarete ao citar a obra.

08Trecho da nova ponte do Guaíba que apresentou problemas / Foto: Vinícius Domingues

Além de ficar apreensiva com o período de cheias, a moradora fica assustada com a possibilidade da comunidade acabar ilhada, devido a altura da ponte, que irá passar sobre a Rua Nossa Senhora Aparecida. “Nos temo o ônibus da escola, o ônibus do Marista e o ônibus que leva os trabalhadores lá pra cima. Se continuar nessa altura, não vai passar, entendeste?”, avalia ela.

Questionado sobre os receios da moradora, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) respondeu o seguinte: “o projeto contempla a manutenção do tráfego local, sem qualquer prejuízo ao ir e vir atual”.Mesmo diante as dificuldades, batalhas diárias por melhorias e dúvidas sobre o futuro da Ilha Grande dos Marinheiros, Dona Nazarete não esconde o carinho pelo local que lhe acolheu. “Eu amo essa ilha! Sou apaixonada”, finaliza.

O Parque Estadual Delta do Jacuí

Criado em 1976, o Parque Estadual Delta do Jacuí (PEDJ) é uma unidade de conservação de proteção ambiental, com áreas dos municípios de Porto Alegre, Canoas, Nova Santa Rita, Triunfo, Charqueadas e Eldorado do Sul. Desde 2005, através da Lei Nº 12.371, aprovada na Assembléia Legislativa e sancionada pelo governo do Estado, foi criada a Área de Proteção Ambiental (APA), com 22.826, 39 hectares, englobando o PEDJ. Na época, os limites do parque foram alterados para 14.242,05 hectares.

09Foto: Vinícius Domingues

Na APA é permitida a habitação, mas com alguns condicionantes. Já os mais de 14 mil hectares restantes são considerados Área de Preservação Permanente (APP), que não pode ter a intervenção humana. O bairro Arquipélago é formado por 22 ilhas, mas somente cinco constam na Prefeitura da Capital para fins de prestação de serviços básicos, como recolhimento do lixo, iluminação pública e manutenção das vias, por exemplo. Uma delas é a Ilha Grande dos Marinheiros.

Na época das gravações do curta Ilha das Flores, toda extensão territorial da Ilha Grande dos Marinheiros era considerada parque. A gestora do Centro de Relações Institucionais e Participativas (CRIP), Patrícia Salcedo, que reside na Ilha da Pintada explica que a criação da APA está diretamente ligada à reivindicação dos moradores: “São áreas de fins sustentáveis que podem ter algum tipo de ocupação, mas com alguns condicionantes. Foi uma briga da comunidade, daqueles que já moravam e se sentiam pertencentes como comunidades tradicionais. Para que eles continuassem nas ilhas, foi criada a lei da APA”, ressalta Salcedo que tem fortes vínculos com a região, pois é filha, neta e bisneta de pescadores.

Além disso, a gestora que atua no trabalho comunitário questiona a condução do processo com a comunidade, quando se determinou a criação do PEDJ: “Meu vô vai fazer 98 anos e ele sempre morou nas ilhas. Cria-se o parque, com pessoas dentro, mas não se pensou em qual impacto isso daria. Se pensou na questão do meio ambiente? Ótimo, perfeito, a gente precisa. Temos que pensar nisso. Mas não se pensou na época o que se iria fazer com as pessoas”, pontua.

O pulmão da Região Metropolitana e o descaso

Há 48 anos na Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN), Francisco Milanez, então presidente da entidade, fala sobre a realidade dos moradores da Ilha Grande dos Marinheiros e explica a importância do Parque Estadual Delta do Jacuí para vida dos milhões de habitantes da Região Metropolitana.

De acordo com o ambientalista, biólogo, arquiteto e doutorando em Educação e Ambiente, o local é o maior parque deltaico que há conhecimento dentro de uma capital. “Ninguém tem uma área dessas com milhares de hectares dentro do centro da cidade. É um recurso de qualidade de vida para Porto Alegre, Eldorado e Guaíba. Os ecossistemas já estão suficientemente destruídos na Região Metropolitana, então ali, poderia preservar, para nosso proveito e de gerações futuras”, explica.

010Final de tarde no Parque Estadual Delta do Jacuí / Foto: Vinícius Domingues

Milanez alerta que a destruição dessas áreas está diretamente ligada às ocupações, aponta as falhas do Poder Público e afirma que as comunidades mais carentes são vitimas. “As populações tradicionais que ali vivem como pescadores, estão há centenas de anos sem prejudicar nada. Foram eles que de certa forma mantiveram aquele parque. Então, fora as populações tradicionais, existem os empobrecidos que são jogados pra lá e os ricos que optam por morar lá por interesse. Mas se quer tem inteligência e cultura para respeitar e entender o lugar que estão morando”, critica.

Para o ambientalista, no período da chegada das famílias na região, incluindo a Ilha Grande dos Marinheiros, pelo fato das obras da Freewey, os moradores foram exilados no local, sendo que pouco importava como iriam dar continuidade às suas vidas. “O Estado não falhou. Ele fez exatamente o que queria. Era um anti-estado! É uma pena que continuam ignorantes, porque na época, a maioria das pessoas ignoravam questões ambientais, eles eram ignorantes normais. Agora são ignorantes estúpidos, pois estão contra a humanidade, na medida que o planeta inteiro preserva áreas ao redor dos grandes centros”, salienta o presidente da AGAPAN ao questionar a forma que o Estado leva a questão ambiental, inclusive citando o projeto de mineração que está tramitando.

011Região da Ilha em que as pessoas foram colocadas na década de 70 / Foto: Vinícius Domingues

Além de ser um paraíso da biodiversidade e ser contemplado com espécies endêmicas (exclusivas de determinado local), segundo explica Milanez, o Parque Estadual Delta do Jacuí beneficia milhares de gaúchos, com o elemento básico para nossa sobrevivência. “As verdadeiras áreas de produção de oxigênio são as áreas úmidas, não são as florestas. As florestas de clímax como a Amazônia, são baixamente produtoras de oxigênio. Elas são importantíssimas, indispensáveis para o equilíbrio planetário. As áreas úmidas que estão sendo drenadas e destruídas no mundo inteiro, tanto quando as florestas, são o centro principal de produção de oxigênio”, explica.

De forma direta, o presidente da AGAPAN resume o papel do Parque Estadual Delta do Jacuí: “Ele é um pulmão gigante!”. O adjetivo é dado levando em consideração todos os fatores que cercam as grandes metrópoles, com a poluição do ar e da água. “Tem importância inclusive em arrefecimento térmico e filtro de água dos próprios rios que o formam o Guaíba. É quase impossível dizer todos os serviços ambientais que o Parque Delta do Jacuí presta a Porto Alegre”, afirma.

012Parque Estadual Delta do Jacuí e fundamental para Porto Alegre / Foto: Vinícius Domingues

Ainda segundo Milanez, enquanto não acontecer o despertar da mudança, o Parque Estadual Delta do Jacuí e os moradores da Ilha Grande dos Marinheiros seguirão sendo vítimas do descaso das autoridades políticas, mantendo o curta-metragem Ilha das Flores atual em diversos aspectos e vivo no imaginário coletivo.

 

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