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Jornalismo Político

Repórter Luciano Nagel fala sobre a cobertura no Haiti

luciano naigelLuciano Nagel, do Grupo Record, fala com a turma do 1º semestre de 2011 sobre a cobertura jornalística que realizou no Haiti em 2010. Foto de Janaina EickhoffEm sua quarta visita ao IPA, Luciano Nagel, o veterano jornalista da Rádio Guaíba, do Grupo Record, falou para a turma de Jornalismo do 1º semestre de 2011, sobre cobertura jornalística que realizou no Haiti, em novembro de 2010.

Em um bate-papo descontraído, o repórter conversou com os estudantes e contou diversas histórias vividas durante a sua estada no país, em especial na capital, Porto Príncipe.

A realidade dos haitianos, pós-terremoto, que resultou na morte de mais de 250 mil pessoas e foi agravada com um intenso surto de cólera que já matou quase 4 mil pessoas desde outubro do ano passado, foi apresentada pelo jornalista, através de fotos, vídeos, sonoras e relatos, e chocou a todos.

"Eu não conhecia o que realmente era pobreza e miséria, até ter ido ao Haiti", afirmou Luciano. O repórter foi ao país caribenho, o mais pobre da América Central, a convite do Exército Brasileiro, e lá circulou acompanhado de militares que integram a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), com o propósito de auxiliar na reconstrução do país.

Sem saneamento básico, com altos índices de analfabetismo e estupros, a situação no Haiti, após o terremoto de 7,3 graus na escala Richter, é tão precária que a população carente, para tentar "enganar a fome", se alimenta de bolachas feitas de terra, água, sal e manteiga, uma receita conhecida como "tés".

Nagel também trouxe vídeos sobre o mercado de abate e venda de porcos e cabras, atividades que ocorrem em pleno centro da cidade de Porto Príncipe. Sem nenhuma higiene e a céu aberto, o comércio inclui a comercialização de todas as partes dos animais abatidos, em meio ao lixo e ao esgoto.

A busca por alimentos doados também foi alvo de registro do repórter no bairro Cité Soleil, um dos mais pobres da capital haitiana. Luciano, além de efetuar a cobertura jornalística sobre a situação do país, também acompanhou o primeiro turno das eleições e falou sobre a forma pouco organizada do pleito que elegeu seu presidente, em segundo turno, no mês de abril deste ano, o cantor Michel Martelly

Após sobrevoar as regiões mais afetadas pelo terremoto, Nagel fotografou a destruição e, também, os grandes acampamentos erguidos pelas Forças de Paz, os quais ocupam extensas áreas repletas de barracas para abrigar um milhão e meio de pessoas.

Mas, para o repórter, o mais chocante nessa cobertura no Haiti foi ver a população mais afetada, em especial as crianças, com fome e sede, sem ter o que fazer para ajudá-las. Ele explicou que entre as normas de convívio dos repórteres no local está a proibição de ofertar alimentos e água recebidos para o consumo próprio, a fim de evitar tumultos e ameaças, reações comuns quando a fome e a sede se fazem presentes.

Depois de conviver uma semana no local, o jornalista se arrisca a prever que o país deve levar pelo menos 50 anos para iniciar o seu processo de desenvolvimento, uma vez que a população, habituada a viver de doações, terá de produzir o suficiente para o seu próprio sustento. Entretanto, segundo ele, já há significativos resultados. E um deles é o início da formação de mão de obra básica para a reconstrução do país, em decorrência do aprendizado de diferentes ofícios promovido pelos militares e outros voluntários das Forças de Paz.

Não foram apenas relatos trágicos que permearam o bate-papo. Além de mostrar imagens do povo haitiano em meio à tragédia, o jornalista reafirmou o espírito alegre do povo, mesmo ao conviver com a destruição, miséria e doença.

Nagel também falou do seu aprendizado antes de chegar ao Haiti. Ele relatou ter frequentado o 'Curso Preparatório para Jornalistas em Áreas de Conflito', promovido pelo Exército Brasileiro, no Rio de Janeiro. Segundo ele, trata-se de um curso que mescla teoria e prática para ensinar o jornalista a trabalhar em situações de risco.

Ao longo do bate-papo, Luciano fez questão de ressaltar a importância da agilidade e criatividade do repórter. "Nessa cobertura no Haiti, eu não tinha ninguém pra ficar dizendo o que fazer. Eu tinha que ver o que ficava melhor como pauta e ir atrás da notícia", disse o repórter.

Quando questionado sobre a profissão de jornalista, o repórter afirmou: "Eu faço o que gosto. Adoro viajar e conhecer novas pessoas". E ressaltou: "Tenho paixão pelo que faço e tento ajudar as pessoas dessa maneira".

Para finalizar, Nagel convidou os estudantes de Jornalismo do IPA para visitarem a Rádio Guaíba, e disse estar disponível para receber e mostrar o seu funcionamento, incluindo a correria do dia-a-dia que permeia o ambiente.

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