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Jornalismo Científico

Quando a boa intenção gerou o caos

aurea senadoSessão no Senado para votação da Lei Áurea. Foto: Antônio Luiz FerreiraMuito dos problemas do Brasil têm origem no mesmo lugar: a Lei Áurea, sancionada pela Princesa Isabel em 1888. Apesar de ter sido uma regra elaborada com boas intenções, a desigualdade social é a principal consequência dela. Na época, quase um milhão de escravos foram libertados, ou seja, as grandes cidades foram tomadas por pessoas que não tinham para onde ir, morar ou comer.

A falta de mecanismos que previssem os resultados da abolição ocasionou, além da exclusão social, a falta de mão-de-obra para os grandes fazendeiros. Se os recém-libertados não tinham destino, a solução foi ir para as periferias das cidades, como os morros, por exemplo. A ocupação irregular gerou problemas como falta de infraestrutura e educação, disseminação de doenças e aumento da violência. Este último fator, impulsionado pelo simples fato de ninguém abdicar de um item essencial na vida qualquer animal: a comida.

A fome é um problema consequente à pobreza. Os antigos escravos, por estarem sem emprego e em áreas sem acesso à serviços básicos, não conseguiam comida. Não havia estrutura para que o alimento chegasse até eles e muito menos que eles tivessem a informação para chegar até ela. Para que o governo brasileiro consiga acabar com a fome no país, é necessária uma medida que não aconteceu na sanção da Lei Áurea: planejamento. É um investimento que talvez apenas os nossos netos vejam. Na década passada, o programa Bolsa-Família foi um dos grandes fatores que fez milhões de brasileiros "subirem" até a classe média. Porém, o esforço não pode parar por aí. O Bolsa-Família ajuda, ameniza, "quebra-galho", mas não resolve. Paralelo a este recurso deve-se investir em serviços como a educação. Com acesso ao ensino, mais pessoas serão mais capacitadas para que mais empregos sejam gerados. Se o mercado de trabalho dá chances, os cidadãos terão emprego e os salários poderão ser usados na compra da comida que supra as necessidade da família. Com o dinheiro em movimentação, a economia do Brasil cresce e outros investimento podem ser executados, ou seja, cada engrenagem estimula a outra. É evidente que tal processo não é nem um pouco simples.

Fosse assim, não teríamos fome no Brasil e em nenhum lugar do mundo. Entretanto, tamanho dinheiro para esses investimentos não parece ser difícil de ser adquirido pelo governo, já que casos de corrupção não faltam em câmaras de todo o território nacional. Só assim é possível enxergar o quão grande é a desigualdade social e especialmente da fome no Brasil. Não basta o problema perdurar desde o século XIX, o capital que resta para solucionar estas questões ainda é usado ilicitamente.

O país, infelizmente, não tem condições de se preocupar apenas com a fome. Há outros serviços como segurança, saúde e infraestrutura que também necessitam de melhorias urgentes. Resolver tudo de uma só vez é impossível. E quando algum capital é aplicado nestes setores, rapidamente o mesmo problema reaparece, pois não há tempo suficiente para que o assunto seja tratado da forma que merece. Tudo porque outras obras esperam por ajuda. Virou uma bola de neve. Agora, chorar pelo que foi acordado há mais de um século, não adianta mais. O importante é trabalhar: com honestidade por parte dos políticos e com paciência dos cidadãos. É uma situação que não se resolve da noite para o dia.

Matéria realizada na disciplina de Jornalismo Científico.Professora responsável: Michele Limeira

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