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Jornalismo Científico

Evolução genética da raça Crioula

crioulosCom trabalho e apego às tradições, criadores transformaram a atividade necessária e de lazer em um negócio, exibindo exemplares de grande qualidade a cada geração. Foto: Eduardo AmorimTradição, beleza e funcionalidade. Essas são as três características básicas do cavalo Crioulo. A raça equina que teve origem no extremo sul da América alia diversos fatores que a colocaram em destaque no cenário rural desde seu surgimento. Nas últimas três décadas a evolução da raça deu um salto considerável, com a expansão da comercialização desses animais e a afirmação das principais provas da raça. Atualmente, o animal que é símbolo do Rio Grande do Sul e de toda Pampa sul-americana atinge o ápice do reconhecimento em toda história da raça.

Desde 1932, ano da criação da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Crioulo (ABCCC), a genética do animal é aprimorada com afinco, auxiliando na seleção natural ocorrida desde a época da chegada dos primeiros cavalos ao continente – ainda no século XVI. A evolução racial, porém, não passa por laboratórios. Segundo o médico veterinário e técnico da ABCCC em Uruguaiana (RS), Fernando Drummond, cada criador buscou o seu próprio método de produzir um plantel de qualidade: “O cruzamento de animais de alto rendimento morfo-funcional foi o caminho seguido pela maioria dos criadores para obter novos animais de qualidade. Um cavalo, para ser registrado com a marca da ABCCC e ser considerado Crioulo, precisa ter pais já registrados, ou seja, ter procedência racial”, diz o técnico.

A procedência racial mencionada por Drummond foi elaborada de maneira peculiar. O responsável pelo início da criação específica do cavalo Crioulo foi o argentino Emilio Solanet. Na década de 20, Solanet fez uma incessante busca através do seu país à procura de cavalos com as características básicas do Crioulo: rusticidade, funcionalidade, longevidade, habilidade no trato com o gado e inteligência. Encontrou o que procurava em tribos indígenas que viviam na região da Patagônia, próximo à cordilheira dos Andes e de lá trouxe uma manada de elevado padrão racial. Assim, o veterinário, dono da famosa Estância El Cardal, começou a elaborar o standard da raça Crioula.

Quando foi fundada, a ABCCC criou uma comissão técnica de inspeção para avaliar animais com as características indicadas. Os registros eram feitos em um Livro Aberto. Esse livro foi usado até 1955. Após 12 anos só eram registrados animais filhos de outros já registrados no livro inicial, ou que tivessem registros no Uruguai ou Argentina.

Nessa época, o objetivo dos criadores era obter o cavalo ideal para os trabalhos no campo em geral, através da interferência genealógica a fim de aprimorar a raça. Hoje em dia, porém, a criação do Crioulo tornou-se um dos principais negócios do meio rural.

Sucesso no Freio de Ouro

Segundo o proprietário da Cabanha Santa Edwiges, José Antonio Anzanello, a idéia de criar crioulos com finalidade comercial surgiu, no seu caso específico, aos poucos: “Na medida que o interesse de criar o Crioulo foi se espalhando, vislumbramos nele uma oportunidade comercial. Nossa criação, inicialmente, tinha caráter de lazer, como muitas outras pessoas criam. Porém, o interesse foi aumentando e então começamos a qualificar nosso plantel. O fato de transformar isso em um negócio não nos tirou a vibração e a paixão que temos por essa atividade” diz o empresário, que divide com seu pai, Daniel Anzanello, a propriedade da Cabanha. Na hora de registrar os animais, porém, é usado um afixo diferente para distinguir os dois. O pai registra com o sufixo “de Santa Edwiges” – Rodopio de Santa Edwiges, por exemplo. Já o filho utiliza a sigla J.A antes do nome do animal, como a égua J.A. Xalala.

Anzanello explica como fez para iniciar uma criação que atendesse às demandas comerciais. “Buscamos o selo racial nas manadas da Argentina, além de características como rusticidade e resistência. Para completar, do Chile importamos a reconhecida funcionalidade dos animais daquele país” conta o criador. Depois de formado o plantel inicial, com os chamados “pais” da Cabanha, a família iniciou o trabalho de procriação entre esses animais de grande qualidade. Os resultados foram e continuam sendo expressivos. A Cabanha Santa Edwiges é a maior campeã da prova mais tradicional do mundo crioulista, o Freio de Ouro: oito títulos. “Conseguimos esse reconhecimento com muito trabalho, dedicação e a ajuda fundamental daqueles que trabalham conosco diariamente”, lembra Anzanello, que ainda conta com dois Freios de prata - 2° lugar - e dois de bronze -3º colocação -, entre machos e fêmeas.

Além dos Freios, a Cabanha coleciona outros títulos em mostras funcionais e morfológicas, o que comprova que o trabalho de evolução feito na fazenda, que fica em São Lourenço do Sul, é bem feito. “Não realizamos pesquisa científica formal neste segmento. Fazemos experiências práticas, e o modo como realizamos as reproduções na Cabanha se assemelha à maneira que os animais se reproduziam quando eram selvagens. Nós largamos um garanhão e um grupo de fêmeas em um potreiro, e eles acasalam livremente. Caso haja algum problema, o veterinário responsável pela reprodução entra em ação” relata Anzanello, explicando que não há formula certa para gerar um ótimo cavalo. “Nós corremos riscos. Mesmo se cruzarmos um pai campeão com uma mãe campeã, não há garantia de sair um potro sensacional, apesar das chances serem grandes. Porém, uma certeza que tenho é a seguinte: nunca um acasalamento entre cavalo e égua comprovadamente ruins gerou um produto de boa qualidade” garante.

Retorno financeiro

Com tanto êxito em provas e exposições, o sucesso comercial seria inevitável. Anzanello diz que a parte financeira em si é muito complicada de se quantificar, mas afirma que de fato gira muito dinheiro em torno do Crioulo. “O cavalo Crioulo é um dos poucos produtos primários da pecuária em que se consegue agregar valor. É uma alternativa para não se produzir apenas commodities” reconhece o pecuarista. Anzanello prefere não entrar nos detalhes financeiros, mas explica que a Cabanha realiza um remate por ano, oferecendo cerca de 45 animais em cada leilão. “Vendemos 80% dos nossos animais em leilão, e o mercado baliza o preço de cada um dos produtos. É realmente muito difícil estipular um preço por um cavalo”, diz o dono da Cabanha.

Mas se não é fácil estipular um preço pelo animal, também não é difícil saber que ele será alto. No remate em comemoração aos 30 anos da Santa Edwiges, em maio de 2006, a Cabanha arrecadou mais de R$ 2 milhões em lances. Foram 44 animais vendidos por R$ 2.197.200,00, uma média geral de R$ 49.936,36 por cada animal.

De acordo com o técnico da ABCCC, Fernando Drummond, o Rio Grande do Sul é o principal território de criação da raça, superando Argentina, Uruguai e Chile. “O nosso estado foi o único a se preocupar em produzir o cavalo completo. O Chile só selecionou a parte funcional, a Argentina e Uruguai somente a parte morfológica. Tanto isso é verdade, que hoje somos exportadores de reprodutores para todos os países do Conesul” avalia o técnico. “Nossos eventos são os mais prestigiados. As provas estão cada vez mais concorridas, e os remates reúnem compradores de diversos lugares”, completa Drummond.

Os leilões alcançam marcas realmente elevadas. Outro grande criatório de cavalos crioulos, a Cabanha Paineiras atingiu, no remate de seu aniversário de 50 anos, a incrível marca de R$ 3.018,500 entre animais e coberturas, em outubro de 2007. A maior compra daquela noite foi a égua BT Doriana, arrematada por R$ 675 mil.

Esta Cabanha costuma organizar três eventos para comercialização de seus animais por ano. A atual proprietária do criatório, Mariana Franco Tellechea, explica como faz a divisão das datas. “Temos a Prova BT Paineiras, no primeiro fim de semana de abril, quando fazemos um remate; depois organizamos o 'BT: A marca da função', na sexta-feira do Freio de Ouro, na Expointer; e mais um em datas e locais diferentes intercalados a cada ano: ou realizamos na sede da estância, em Uruguaiana, ou é feito em outro local . Isso ocorre porque nosso volume de produção e venda é muito grande”, explica a criadora.

O Rei da Raça

A Cabanha Paineiras, que é caracterizada pelo afixo BT – sigla do sobrenome Bastos Tellechea - é um símbolo na história da criação do cavalo Crioulo no Rio Grande do Sul. Tanto pela importância que seu antigo dono, Flavio Bastos Tellechea, teve para a raça – zootecnista, o pai de Mariana contribuiu muito com estudos para aperfeiçoamento da raça, e hoje tem seu nome gravado no troféu do Freio de Ouro – quanto pelo fato de ter adquirido um animal em especial: La Invernada Hornero.

Resumir a importância da Paineiras ao fato de ter contado com esse animal em seu plantel é um erro. Até porque, os méritos pela ótima aquisição devem ser dados a quem tomou a iniciativa de efetuar a compra. Porém, a importância que Hornero teve na criação dos crioulos é surpreendente. O cavalo foi comprado em uma exposição no ano de 1976 pela Paineiras em parceria com outro criador na época, Dirceu Pons. Mariana define a importância do animal: “Hornero foi um raçador, um cavalo raro, de produção impecável – tanto em morfologia quanto em funcionalidade. Bastaria dizer que 77% dos vencedores do Freio de Ouro são descendentes dele. Ele foi, sem dúvida, o principal reprodutor do nosso plantel. Deixou filhos maravilhosos que fazem a diferença na nossa manada”, diz a criadora.

Mulheres no comando

Outro fator destacado por Mariana Tellechea é a técnica de fertilização feita na Paineiras. “Trabalhamos com o sistema de montas dirigidas. Isto consiste em controlar o desenvolvimento folicular, através de ultrassonografia , e cobri-las no momento mais próximo possível da ovulação. As transferências de embriões também são feitas pelo nosso veterinário na Paineiras, e arquivamos nossos dados no computador” explica a veterinária, afirmando que não encomenda nenhum tipo de pesquisas.

Mariana Tellechea herdou a Cabanha após a morte do seu pai, em 1990. Desde então, comanda o negócio, juntamente com sua irmã, Maria Glória Tellechea Cairoli, e sua mãe, Lila Tellechea. “Eu sou veterinária , mas trabalho como administradora do condomínio, faço a parte de seleção genética, acompanho o manejo com os encarregados, o departamento financeiro e pessoal . A minha mãe faz a manutenção da casa e ajuda bastante no dia a dia, a Goia faz os eventos, organização, catálogos. É uma vida muito agitada”, exclama Mariana, que ainda se desdobra para comparecer em provas, feiras e eventos, para os quais é frequentemente solicitada.

Reconhecimento

O cavalo Crioulo é um símbolo do garrão do continente. Ajudou a desbravar essa parte da América do Sul, sempre auxiliando no trabalho do homem campeiro. Hoje, representa a união dos povos que veem nele, antes de uma ferramenta de negócio, uma grande paixão. “Eu sempre digo uma frase que, apesar de parecer clichê, é a mais pura verdade: criar crioulos é apaixonante”, declara Jose Antonio Anzanello. O técnico da ABCCC Fernando Drummond, revela que essa paixão é essencial para a evolução da raça. “Graças ao empenhos dos criadores e da ABCCC em conservar e melhorar a raça, atingimos um nível de evolução muito grande. Ainda há muito a avançar, mas não será na mesma rapidez dos últimos 30 anos” avalia veterinário. E a evolução com certeza não irá parar. De acordo com Mariana Tellechea, a busca por esse objetivo será incessante. “Amamos o cavalo crioulo! Foi uma honra poder dar continuidade ao trabalho de meu pai. Continuamos buscando incessantemente produzir animais melhoradores, tanto em morfologia, quanto em função. Temos que tentar aprender sempre para poder evoluir”. Com tanta dedicação, resta apenas uma certeza: o cavalo Crioulo será preservado e cada vez mais prestigiado.

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