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Jornalismo Científico

Os perigos do senso-comum

20090706 especializ pandolfiDrogas: Atitudes novas e temerárias vem sendo foco de muitas discussões na sociedade moderna. Foto: ArquivoAlvo de discussões acaloradas por parte de usuários, simpatizantes e pessoas contrárias à legalização da droga, o uso da maconha é um tema recorrente nos debates políticos e vem à tona sempre que são discutidas as possíveis soluções para a violência urbana. A droga chegou a ser uma verdadeira linha de crédito para quadrilhas que começaram a se formar a partir da segunda metade do século 20, mas hoje a relação entre o tráfico de drogas e a violência urbana já não é tão visível como foi há poucas décadas.

Um argumento recorrente que, a princípio, pesaria em favor da legalização da maconha, é o de que o tráfico de drogas financiaria a compra de armas pelos traficantes. Em uma primeira análise, a afirmação faz sentido. Mas um olhar mais amplo pode mostrar que a estrutura das organizações criminosas tornou-se tão complexa que, hoje, o dinheiro do tráfico representa apenas parte de sua renda. Sequestros, tráfico de armas e extorsão completam o arsenal de possibilidades.

Outra justificativa usada pelos apologistas é que a maconha foi bastante usada por algumas tribos indígenas. A droga, contudo, é bem mais antiga que isso. O primeiro registro escrito data de 2.723 a.C, em uma menção na Farmacopéia Chinesa. Novas descobertas também evidenciam a existência de maconha em uma cerâmica encontrada no norte da China Central, com origem supostamente em 4.000 a.C. Apesar de relevantes, esses argumentos levam inevitavelmente a uma pergunta: quem instituiu que o fato de a substância ter sido usada em tempos remotos justifica seu uso hoje?

Discussões semelhantes vêm à tona sempre que o problema passa a atingir também pessoas de maior poder aquisitivo. Acontece o mesmo com as cotas nas universidades públicas e com os crimes de colarinho branco. Não poderia deixar de acontecer com as drogas. Quando jovens das classes A e B são penalizados pelo uso da maconha, os pais – promotores, médicos, engenheiros, advogados - reclamam à justiça o direito à livre escolha de seus filhos. Só então começam a ser discutidas questões que até então eram “varridas” para debaixo do tapete.

É evidente que algumas atitudes não podem deixar de ser combatidas por haver quem as defenda. Do contrário, poderiam ser liberados também a prostituição, os bingos, o jogo do bicho e outras práticas que puristas combatem com tanta veemência. Criminalizar somente quem comercializa é um atentado à constituição. Todo usuário sabe que pode ser criminalmente processado pelo uso da droga. Ao usar a maconha, então, ele se expõe ao risco de ser preso como qualquer pessoa que roube, dirija bêbada ou mate. Dar poder de fogo a pequenos traficantes pela compra de drogas é colaborar com a criminalidade que assola a sociedade brasileira. E nada justifica que isso possa ser usado como desculpa para financiar a matança que presenciamos todos os dias.

* Matéria produzida na disciplina de Jornalismo Científico, professora responsável: Michele Limeira

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