· · ·

Jornalismo Cultural

Taxitramas: diário de um taxista

diario taxista01Taxista no bairro Menino Deus, Mauro Castro conta histórias que fazem as pessoas refletir. Fotos: Alexandre BringhentiMauro Edson Santana Castro nasceu em 12 de abril de 1963. Ele viveu em Viamão até os 14 anos de idade, quando se mudou para Porto Alegre, onde reside até hoje. Mauro Castro (como é mais conhecido) trabalha como taxista no ponto da rua Saldanha Marinho, esquina com a avenida Getúlio Vargas, no bairro Menino Deus. A sua história como escritor começou quando, há mais de seis anos, o editor do jornal Diário Gaúcho, Cyro Martins Filho, pediu para que ele enviasse algumas das “histórias malucas que presenciava no táxi e já estava cansado de escutar”, como o próprio Mauro disse. Com  essas  histórias, Castro  ganhou uma coluna no jornal e a mantém até hoje.

Além de ser um motorista simpático e bem-humorado, o que mais chama a atenção, e o que o torna tão conhecido entre os outros taxistas, é o fato de que Castro costuma escrever as histórias que ele vive ou escuta durante o seu dia de trabalho em um blog (www.taxitramas.com.br). Este  hábito,  além  de  uma  coluna no jornal, também rendeu um livro intitulado “Taxitramas - diário de um taxista”, editado pela Sulina. O livro vendeu bem. As últimas edições, encontradas por acaso na editora, estão com o próprio autor, que o revende com uma dedicatória ao comprador.

Para não esquecer de alguns detalhes das histórias, Castro costuma escrever pelo menos um rascunho enquanto ainda está trabalhando com o táxi. “É onde eu prefiro escrever”, Alexandre Bringhentiafirma. “No começo eu usava panfletos que me entregavam nas sinaleiras para escrever atrás. Depois comprei uma agenda, onde escrevia os rascunhos. Atualmente, tenho um pequeno notebook, que uso também para acessar a internet durante o dia”, conta o taxista. Ele afirma que muitas vezes acaba misturando casos que seus colegas contam e que ele vivencia. “Misturo tudo, detalhes de várias corridas. Enfim, um caos criativo” conta.

Um taxista como ele, com 24 anos de profissão, já viu e ouviu de tudo. São histórias que muitas vezes acabam deixando uma lição de vida. “Algumas histórias são tocantes”, comenta Castro, “Essa semana deixei de cobrar uma corrida que fiz para uma mãe com filho deficiente mental. Ela pegou meu táxi porque tinha faltado gasolina no carro do marido quando estava indo buscá-la na AACD. Ela era muito humilde. Estava com o filho deficiente e um outro pequeno no colo. O carro do marido era um fusca caindo aos pedaços. Ela fazia questão de me pagar, mas acabei não cobrando nada”. Ele também lembrou de uma história que aconteceu há mais tempo. “Já peguei um homem que procurava por uma garota na zona do meretrício. No fim da corrida, descobri que a garota era a sua filha, que ele tentava levar para casa. São histórias que fazem pensar” afirma Castro. Além do que acontece dentro do táxi, também ficam marcados alguns fatos que ocorrem fora dele, como os acidentes de trânsito que muitas vezes acabam com a morte de alguém.

Buscando a compreensão

Para conseguir fazer com que o seu leitor compreenda aquilo o que ele quer contar, Mauro Castro procura escrever as histórias da forma mais simples possível. “Nada de firulas literárias ou palavras difíceis. Por outro lado, não se pode abrir mão de algum lirismo também, sob pena de escorregar para o texto burocrático”, explica o taxista.

Castro afirma que não faz juízo de valor, apenas conta histórias que julga serem boas, não tentando passar alguma experiência específica ao leitor. “Não analiso nada, procuro não dar opinião, deixo isso a cargo do leitor. Mas quem lê histórias de vida acaba, fatalmente, aprendendo com elas”, observa. Ele revela que, por mais que já tenha passado por muitas experiências e aprendido bastante sobre a vida, continua aprendendo a cada dia que passa. “Eu aprendo todos os dias. Quem trabalha com um público tão variado quanto o meu, não tem como não tirar boas lições de vida. O fato de passar a escrever sobre minha profissão também tem me ajudado muito. Quando você escreve sobre o seu dia-a-dia, acaba enxergando muita coisa que não via antes. Ajuda a entender melhor minha função, meu lugar no mundo. Não sei explicar bem isso, mas é por ai”, afirma Castro.

O taxista conta que a história mais emocionante sobre a qual já escreveu aconteceu com um colega seu. “A passageira deixou uma criança recém nascida para ele segurar e nunca mais voltou. Ele entrou com o processo de adoção e criou o menino, que hoje é um advogado formado”, conta o colunista.

Confira uma breve história escrita por Mauro Castro

Pra não sujar a máscara

 

Quem me contou essa foi um colega no ponto de táxi do Hospital Conceição. Estava um dia frio de lascar, os vidros do táxi estavam fechados. A passageira embarcou usando máscara. Lá pelas tantas, a mulher sentiu vontade de espirrar. Não teve dúvida: baixou a máscara, soltou um tremendo espirro e colocou novamente a máscara. Ainda ficou braba quando o colega abriu os vidros do táxi.

Matéria produzida na disciplina de Jornalismo Cultural. Professora responsável: Maria Lúcia Melão

· · ·