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Jornalismo Cultural

O passado reencontrado no Centro da cidade

odeonO Odeon, localizado na Rua General Andrade Neves, 81, ainda mantém viva uma característica da boemia lupiciniana. Arte/Foto: Marcello CamposEm uma mesa regada a chopps e cigarros, duas mulheres discutem um conto de Clarice Lispector. Do balcão, um cliente pergunta a um amigo próximo em que disco está mesmo aquela música do Miles Davis? Na parede, um quadro de Ella Fitzgerald retrata bem o clima diferenciado do ambiente. A 30 passos dali, num banheiro velho e rústico, uma frase dá boas vindas: “Oscar Niemeyer é Deus, Miles é primo!”.

Há 24 anos, o Bar Odeon, localizado em uma viela no Centro de Porto Alegre, é local de encontros e desencontros de intelectuais, boêmios, carentes e anônimos. O local, que abrigava uma grande barbearia dirigida por espanhóis, virou point e ganhou vida.

O advogado, quase aposentado de sua banca e proprietário do bar, Celestino Paz Santana, conhecido simplesmente como Tino, permanece, firme, todas as noites à frente de seu “verdadeiro balcão”. A aquisição do estabelecimento ainda é clara na memória de Tino. “Depois da compra e após as reformas, a primeira ideia era transformar o bar em um local para happy hours. O Odeon servia almoços e, depois, se estendia até umas nove horas da noite”, recorda.

Em 2004, o bar passou por outras reformas. Um pequeno palco foi construído e para não se manter só, um piano foi adquirido. O Odeon, até então frequentado também por músicos de todas as esferas, começava a cantar, e entre diversos rostos perdidos, alguns se destacavam, como relembra o proprietário Tino. “Além de Gonzaguinha, que sempre quando vinha a Porto Alegre tomava, às tardes, um chopp gelado no Odeon, um grande assíduo do bar era o cantor e compositor de samba Zé Kéti. No começo dos anos 90, ele passou uns quatro meses vindo todos os dias no bar. Ficava lá no cantinho, batendo papo e, quando o bar enchia, logo ia embora. Era uma pessoa simples, de bom trato”, lembra.

Hoje, diferentemente de alguns bares de Porto Alegre, o Odeon ainda mantém viva uma característica da “boemia lupiciniana”. Em pleno século 21, o estabelecimento abre somente de terça a sexta, com uma pequena pausa para a limpeza nos finais de semana e nas segundas-feiras.

Os estilos musicais marcam bem os quatro dias de funcionamento do Odeon. Na terça-feira, no embalo de um vento minuano vindo de Buenos Aires, a dupla Dionara Schneider (piano) e Rafael Koller (bandoneon) apresentam clássicos de tango. Na quarta-feira, a dupla Paulo Pinheiro (piano) e Jorginho do Trompete (trompete), embarcam na ponte área Argentina-EUA, transformando o repertorio de Gardel e Piazzola em pequenos esquetes que vão de jazz a Frank Sinatra. A música brasileira, representada por chorinhos e serestas, é marca registrada das noites de quinta-feira. Liderados por conta do flautista Plauto Cruz, o trio conta ainda com os músicos Mario Thaddeu Neto (saxofone) e Dionara Schneider (piano). Na sexta-feira, o avião chamado música volta aos EUA para uma noite única de jazz. No palco, a dupla Cláudio Sander (saxofone) e Luis Mauro Filho (piano) toca clássicos de John Coltrane, Louis Armstrong, Billie Holiday, Ray Charles, entre outros. Atuando como garçom há três anos no bar, Everton Soares, conhecido popularmente como Tom, afirma que espaço musical como o Odeon em Porto Alegre não há. “Além da sua informalidade, o Odeon consegue manter há 24 anos suas características e ainda conta com os melhores músicos de Porto Alegre. Foi o primeiro bar da capital a tocar exclusivamente tango”, enfatiza.

O estabelecimento, voltado principalmente, ao chopp, ainda conta com uísques nacionais e importados, vinhos, cerveja sem álcool, cachaças artesanais, entre outros destilados e aperitivos. No entanto, para alguns frequentadores do bar, o Odeon é local exclusivo para se beber um bom chopp. “Quer tomar pinga, então, vai pro boteco”, alerta o jornalista e cliente Fábio Gomes.

Lugar agradável, bom para um bate papo, mas principalmente, para se apreciar uma boa música, o Odeon transforma, muitas vezes, algumas canções em alegria e tristeza. Enquanto numa mesa alguns clientes sorriem ao som de Tom Jobim, outros choram embalados pela harmonia melancólica de Lupicínio Rodrigues. Porém, esta troca de emoções, aliada a este resgate musical, faz do Odeon um bar único como ressalta o músico Mario Thaddeu Neto. “É um dos poucos lugares que dão espaço à música instrumental em Porto Alegre. É um bar simples, mas que consegue resgatar toda a musicalmente da nossa bossa e do chorinho”, destaca.

Mesmo localizado no discriminado coração da capital, o Odeon e suas portas estilo saloom de faroeste continua firme há 24 anos, e deve permanecer por tantos outros, garantindo a boa música e o bom chopp a seus fiéis frequentadores.

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