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Jornalismo Comunitário

Saiba o que você precisa para ser um doador de medula óssea

medula grafico 1Veja no gráfico, o número de doadores e receptores no Brasil. Foto: Divulgação/Redome

Não existe fila de espera para receber transplante. Encontrar um doador de medula óssea compatível fora da família é muito raro. É por essas razões que a busca por um doador começa dentro da família. No entanto, as chances de encontrar um doador ideal entre irmãos (de mesmo pai e mãe) são de 25%. No Brasil, a chance é de um em cada grupo de cem mil doadores. O transplante de medula é a melhor forma de cura para as chamadas "doenças do sangue". Só no ano passado, 1.256 brasileiros receberam transplantes de medula óssea e mais de 1.324 pacientes estão em busca de um doador não-aparentado (que não é da família) compatível.

A medula óssea é uma estrutura que fica na parte interna dos ossos do corpo, e é encarregada de produzir as células que compõe o sangue, entre elas os glóbulos brancos, vermelhos e as plaquetas, todas muito importantes para a defesa do organismo, transporte de oxigênio, hormônios e nutrientes. "Se há algum problema na fabricação dessas células na medula, o corpo sofre consequências e a pessoa pode desenvolver leucemia, linfomas, anemias graves ou outras doenças do sangue, como explica o diretor e medico do Centro de Medula Óssea do Inca, Luis Fernando Bouzas.

Para a hematologista, Yana Novis, o transplante de medula mais comum está associado à leucemia, um tipo de câncer que afeta a produção dos glóbulos brancos – células responsáveis pela defesa do organismo. A hematologista chama atenção para os sinais da leucemia. "Entre os sinais de alerta, estão o cansaço, sangramento sem origem clara, manchas na pele sem motivo aparente, suor em excesso durante a noite e inchaço dos gânglios linfáticos. No caso de qualquer um desses sintomas, procure um médico para investigar".

O transplante em 2012 salvou a vida de Mariane. Antes, andar de bicicleta era impossível para a garotinha. Ela não tinha forças e não podia correr o risco de se machucar. A menina tinha 6 anos quando os médicos descobriram que ela sofria de aplasia medular, uma doença que paralisa o funcionamento da medula óssea. "A vida mudou 100%, porque hoje ela leva uma vida normal como qualquer criança, conta a mãe, Adriana Nogueira Silva Santos.

medula marianeFamília da Mariane aliviada com a doação que a menina recebeu. Foto: Álvaro Oliveira

Nem o irmão, e nenhum dos 30 familiares eram compatíveis para a doação. Foi um desconhecido que devolveu a alegria para Mariane. Agora, a família dela sonha em agradecer o doador. "Esse é o desejo do nosso coração, de conhecê-lo, dar um abraço e dizer obrigado, seja bem vinda a nossa família", completa o pai, Jorge Pavão dos Santos.

Entretanto, o compromisso do anonimato é uma condição básica para que alguém se torne um doador. Quem quer se cadastrar no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome) deve procurar o hemocentro mais próximo, preencher um formulário com dados pessoais e colher uma pequena amostra de sangue. Para fazer o cadastro é necessário um documento de identificação com foto, ter entre 18 anos 55, apresentar bom estado de saúde e depois, precisa manter o cadastro atualizado para ser encontrado se houver necessidade. Os dados são inseridos em um cadastro geral e sempre que surgir um novo paciente, a compatibilidade será verificada. Uma vez confirmada, o doador será consultado para agendar a doação.

Um telegrama, que chegou às mãos de Priscilla Piazza, sinalizou a sua possibilidade de salvar uma vida. A medula óssea da jovem de 21 anos é compatível com a de um paciente e ela foi convocada para fazer a doação. "Primeiro achei quer era atualização de cadastro, pois a gente nunca acha que vai poder ajudar alguém. Mas quando eu fiquei sabendo que eu era compatível, eu fiquei muito feliz, por poder salvar alguém", diz a universitária.

medula telegramaTelegrama que a Priscilla recebeu do Redome com a convocação para doação. Foto: Álvaro Oliveira

Priscilla, que já fez a doação, se cadastrou no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (REDOME), há quatro anos, em uma campanha na universidade. O receptor já passou pelo transplante, mas ainda segue no anonimato para a doadora, que em breve deve conhecê-la.

medula piazzaMáquina que faz a coleta das células. Foto: Álvaro Oliveira

Para quem teve um caso de leucemia na família, a doação ganhou um sentido ainda mais especial. "Minha avó faleceu em 1997 de leucemia, e acredito que é mais uma motivação para poder ajudar alguém, pois eu sei o quanto é difícil passar por isso", diz Priscilla.

medula maquinaFoto: Álvaro Oliveira

O médico Luis Fernando Bouzas, explica que existem três tipos obtenção de células-tronco: a tradicional, em que é retirado o sangue da medula diretamente da bacia, com uma agulha e também sob anestesia. Nesse caso, é retirado de 10% a 15% das células e, depois de 15 ou 20 dias, elas já se regeneram e não prejudicam a qualidade de vida do doador. "O paciente recebe uma rack anestesia, como se fosse um procedimento cirúrgico e então é feito uma punção com agulha no osso da bacia, para coletar as células tronco, por aspiração com uma seringa". Há ainda a possibilidade do doador, receber uma medicação injetável durante 4 ou 5 dias para estimular as células a saírem da medula, irem para o sangue e serem coletadas através de um acesso colocado na veia. E a terceira opção, é através do sangue do cordão umbilical, após o nascimento do bebê, rico em células-tronco. Esse material pode ser coletado e congelado. Antes, jogado no lixo, foi utilizado para transplante pela primeira vez em 1988 e passou, desde então, a salvar vidas.

Foi o que aconteceu com o consultor em gestão agropecuária, Luciano Mota Braga, que atendeu ao chamado. Ele se cadastrou em 2010, foi convocado no começo do ano e há três meses esteve em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, para fazer a doação. Todas as despesas foram pagas pelo Ministério da Saúde. No caso dele, não foi preciso fazer o procedimento cirúrgico, apenas a coleta de sangue.

"Muito semelhante à doação de sangue, se coleta o sangue de um braço, que retorna após passar por uma máquina centrífuga, que separa as células tronco e o sangue volta para o outro braço, único desconforto é que o tempo do procedimento é longo, são de cinco e seis horas deitado em uma cama sem poder me movimentar".

medula celulasAs células que vai para o receptor. Foto: Álvaro Oliveira

Hoje, Luciano se sente realizado por ter ajudado a salvar uma vida. "Nunca tive dúvida, desde o princípio: eu me cadastrei no banco pensando em ser encontrado, para que eu pudesse doar.

Matéria produzida na disciplina de Jornalismo Comunitário. Professora responsável: Lisete Ghiggi

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