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Jornalismo Ambiental

Álcool: a droga lícita

"Não existe evidência científica que comprove que a maconha seja a porta de entrada para o mundo das drogas. Quando se foi investigar mais a fundo, o que se descobriu é que, a única das drogas que poderia levar a esta porta de entrada seria o álcool. Porque todo mundo antes de progredir para drogas mais pesadas começa pelo álcool. Não é o caso da maconha. A grande maioria das pessoas que usa maconha não progride para drogas mais pesadas".

Essa é a declaração de um dos maiores especialistas em dependência química do país, o psiquiatra Dartiu Xavier, coordenador do Programa de Orientação e Assistência à Dependentes Químicos da Universidade Federal de São Paulo.

Para Dartiu, foi um erro de estratégia de pesquisa que levou as pessoas a concluirem erroneamente que a maconha seja a porta de entrada para outras drogas.

Essa forma de pensar já faz parte da cultura brasileira. A população tem uma visão diabolizada sobre as drogas. E somente com as ilícitas diga-se de passagem. A política nacional de drogas não abrange a totalidade das drogas disponíveis no país. Racionalizando o pensamento, drogas como o tabaco e o álcool também deveriam ser tratadas como ilícitas. Mas, ao contrário, são tratadas pelo governo federal como impulsionadoras da economia nacional. O incentivo ao consumo de bebidas alcoólicas está exposto na televisão. Está a disposição às mãos inocentes de nossas crianças, vendidas sem nenhuma regulamentação em qualquer ponto de qualquer cidade.

O primeiro contato com as drogas tem o mesmo panorama em todo o país. A maioria tem um primeiro contato na adoslecência, na escola com os amigos. Tanto com o tabaco e o álcool, quanto a maconha e cocaína. Os jovens estão em primeiríssimo lugar quando se trata do consumo de drogas. Tanto lícitas quanto ilícitas. Entre o álcool e a maconha, a situação segue este quadro.

Mas a grande diferença entre as drogas, são os dados apresentados, e a discussão sobre a legalidade ou ilegalidade de uma ou de outra. Esse conflito se cria no momento em que paramos para pensar. Ora, porque uma droga que vem de uma planta da natureza e não causa mortes é ilícita? Em contraponto, porque uma droga que é fabricada por indústrias e motivo de tantas tragédias no país é lícita? Observando alguns dados científicos é possível esclarecer ou aumentar ainda mais esta dúvida.

Em 2010, um estudo feito pela Universidade Federal de São Paulo, instituição conceituada em pesquisas do tipo, aponta que do total de pesquisados, 62% tiveram o primeiro contato com a maconha antes dos 18 anos. Adolescentes da faixa etária de 14 a 18 anos, cerca de 470 mil, revelaram que fizeram uso de maconha no ano, e 600 mil disseram já ter experimentado a droga alguma vez na vida. Além disso, 17% dos consumidores nessa faixa afirmaram que conseguiram a substância dentro da escola.

Também ficou constatado que cerca de 8 milhões de brasileiros já experimentaram maconha. Atualmente 1,5 milhão de adolescentes e adultos usam maconha diariamente no Brasil. Ainda de acordo com o estudo, mais de 3 milhões de adultos, com idade entre 18 e 59 anos, fumaram maconha em 2009. E cerca 7% dessa parcela da população já experimentaram a droga alguma vez na vida.

Outra pesquisa da mesma universidade, aponta que 78% dos jovens brasileiros bebem regularmente e, deste número, 19% são considerados dependentes do álcool. O índice de mortalidade entre dependentes de álcool no Brasil está próximo do registrado entre usuários de crack. A pesquisa da UNIFESP, de 2007, mostra que, em cinco anos, 17% dos pacientes atendidos em uma unidade de tratamento da zona sul de São Paulo morreram.

Revista Brasileira de Psiquiatria, lançou em 2010 um estudo que mostra números na mesma proporção. Segundo a revista, entre usuários de crack, 30% morreram num período de 12 anos.

A equipe de pesquisa da UNIFESP, procurou depois de cinco anos, 232 pessoas que haviam sido atendidas num centro de saúde do Jardim Ângela, zona sul, em 2002. Entre os pesquisados, 41 haviam morrido. Destes, 34% por causas violentas, como acidentes de carro ou homicídios. Outros 66% foram vítimas de doenças relacionadas ao alcoolismo. Os dependentes de álcool, nos casos mais graves, perdem o vínculo com a família, com o trabalho e adotam atitudes que os expõem a riscos, como sexo sem preservativo ou brigas.

Um estudo sobre mortes por drogas legais ou ilegais, registradas no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, mostra que o álcool é o campeão na mortandade. O uso de drogas matou 40.692 pessoas no País entre 2006 e 2010, uma média de 8 mil óbitos por ano.

Um levantamento feito na base de dados do Datasus, informa que a bebida tirou a vida de 34.573 pessoas, ou seja 84,9% dos casos. Logo atrás aparece o tabaco, com 4.625 mortos (11,3%). A cocaína matou pelo menos 354 pessoas no período. Já em relação a maconha, não foram constatados nenhum caso de morte devido ao uso excessivo ou dependência.

Outra pesquisa desenvolvida pelo Observatório do Crack, da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), aponta que, na comparação por gênero, há mais registros de morte de homens por álcool e fumo. Em cinco anos, 31.118 homens perderam a vida por causa da bebida. Outros 3.250 morreram em casos associados diretamente ao cigarro.

Entre os estados brasileiros, os mineiros lideram as mortes por álcool, com 0,82 mortes para cada 100 mil habitantes. Em segundo lugar está os cearenses, com 0,77 morte/100 mil pessoas. Logo depois aparecem os sergipanos, com 0,73/100 mil. Em São Paulo o registro é de 0,53 mortes para cada 100 mil habitantes. O estado que menos apresenta perda de vidas por álcool é o Amapá: quatro em 2006, dez em 2009 e cinco em 2010.

O Rio Grande do Sul é o campeão de mortes quando a causa do óbito é relacionado ao tabaco. A taxa de óbitos pelo tabaco chega a 0,36 para cada 100 mil. A seguir aparecem Piauí e Rio Grande do Norte, ambos com 0,33/100 mil.

A Confederação Nacional dos Municípios ainda mostra dados demonstrando que, álcool e fumo juntos, mataram 39.198 pessoas em cinco anos. Isso representa 96,2% do total.

Para o médico Élio Mauer, ex-professor de Psiquiatria da PUC-PR e diretor técnico da UNIICA (Unidade de Apoio à vida e Intermediária de crise), o álcool se constitui na mais perigosa das drogas porque, além de ser legalizada, pode dar origem a uma série de outros problemas. “Além das mortes por acidentes de trânsito, temos as doenças decorrentes do uso contínuo , como as hepáticas, que podem matar”, diz. A depressão muitas vezes também está associada ao consumo de bebidas alcoólicas.

Para trazer um panorama internacional, uma pesquisa americana sobre morte causadas por drogas, divulgada em 2011, pelo National Institute on Drug Abuse, Bureau of Mortality Statistics, mostra os seguintes dados:

DROGA

Nº MORTES

Cigarro (nicotina)

400.000

Álcool (bebidas alcóolicas)

100.000

Drogas lícitas (remédios,etc.)

20.000

Drogas ilícitas (maconha, cocaína, lsd, etc.)

15.000

O que se pode concluir é que o álcool é uma arma de extermínio em massa. As mortes aumentam em proporações gigantescas. E pelo que se vê, ainda não há ações representativas de parlamentares para evitar esta tragédia. Já está na hora dos governantes do país reverem as políticas ante drogas e tomarem uma atitude para sanar o problema no país.

Não estou aqui defendendo uma droga mais do outra, e sim, traçando uma comparação entre uma droga ilícita que até hoje não matou niguém e não destrói famílias, com uma droga disponível em grande quantidade que desafia a sociedade jogando cada vez mais pessoas nas calçadas.

Matéria produzida na disciplina de Jornalismo Especializado I, com ênfase em Jornalismo Ambiental, Rural e Científico.
Professora responsável: Lisete Ghiggi

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