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Jornalismo Ambiental

Agregados alternativos podem minimizar impacto nas obras da Copa

obras copa umTrecho da Av. Protásio Alves continua interditado devido as obras que estão paralisadas. Foto: Marcelo Noms

A Região Metropolitana de Porto Alegre sofre com o abastecimento do mercado de areia, após a decisão judicial que proíbe a sua extração. Com a decisão, que visa proteger o Rio Jacuí, fonte local já exaurida, os preços da areia dispararam nas últimas semanas e estão atrasando o cronograma das obras da cidade. Para ganhar fôlego e mais prazo para a execução das obras voltadas para a Copa, o prefeito José Fortunati transferiu as obras que estavam vinculadas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para o PAC da Mobilidade Urbana.

Mas o que pode ser feito para diminuir o impacto econômico e ambiental da falta de areia na construção? Uma alternativa que pode minimizar este impacto seria o uso de agregados alternativos nas obras de infraestrutura e construção civil.

 

O que são os agregados

A areia e a brita são os agregados que fomentam basicamente a construção civil, e são empregados para a criação de lajes, concreto, asfalto... Para se ter uma noção de quão importante eles são para o desenvolvimento de um país, o Brasil consome cerca de 2,3 toneladas por ano de agregados, e o setor produtor é o único segmento da indústria mineral que está presente em todos os estados brasileiros, além de comportar o maior número de empresas e trabalhadores no setor de mineração.

Atualmente, existem diversas pesquisas acadêmicas que buscam criar alternativas para evitar, diminuir, ou também reaproveitar o uso de areia e brita nas construções, tornando assim as obras mais sustentáveis e diminuindo o impacto que a extração desses materiais causam no meio ambiente. É o que relata o professor Bernardo Tutikian, que coordena o curso de Engenharia Civil da Unisinos. "Há uma série de estudos, tanto em trabalhos de graduação, como de especialização em construção civil e patologia das obras civis, quanto do curso de mestrado em engenharia civil. Os estudos são mais focados na areia de resíduos de construção e demolição (RCD), por ainda ter grande potencial de crescimento, mostrando a viabilidade técnica e econômica deste uso", afirma Tutikian.

Como resultado destes estudos, um dos fatores que contribuem para a substituição da areia de extração pela areia artificial é o surgimento de tecnologia capaz de transpor as principais dificuldades no desenvolvimento e utilização da areia artificial. É o caso do estádio Olímpico, que tem implosão planejada para outubro, onde todo o material não pulverizado pela implosão será reciclado e reaproveitado em obras realizadas pela OAS Empreendimentos. Segundo a Engenheira de Segurança do Trabalho da OAS Empreendimentos, Laura Martins, um dos fatores que levam a empresa a reaproveitar o material é o baixo custo, além de ser uma atitude

ecologicamente responsável. “Isso diminui os custos e a compra de agregados extraídos, além de reutilizar o concreto antigo, resultante da demolição”, afirma a engenheira.

 

Burocracia

Mas o que impede o uso dessas tecnologias em obras tão importantes para a infraestrutura das cidades? Segundo estudo apresentado no 50º Congresso Brasileiro do Concreto, realizado em 2008, a utilização dos agregados alternativos é efetivamente viável, porém é barrada puramente por questões burocráticas. São necessárias mudanças nas normas técnicas brasileiras para regulamentar o uso de novos materiais e tecnologias, através da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Além dessa regulamentação, o estudo sugere que sejam imprescindíveis à fiscalização, o controle tecnológico e de qualidade desses materiais, desde sua seleção até a execução das obras. "O governo deveria estimular as empresas e até obrigar que um determinado percentual de agregados usados na construção seja deste tipo", complementa Tutikian.

Mas a burocracia, um problema nacional, nos faz manter a questão, até então sem resposta: até quando as soluções cientificamente comprovadas e eficazes, como o uso dos agregados alternativos, serão impedidas de ir à prática graças aos burocratas e normas técnicas?

Matéria produzida na disciplina de Jornalismo Especializado I, com ênfase em Jornalismo Ambiental, Rural e Científico.

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