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Jornalismo Investigativo

Meninos condenados e o jornalismo investigativo

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A reportagem 'Meninos Condenados' investiga o destino de 162 jovens que em primeiro de janeiro de 2002 estavam internados na ex-Febem (Fundação Estadual do Bem-estar do Menor), hoje FASE (Fundação Estadual de Atendimento Socioeducativo), em Porto Alegre. A reportagem foi apresentada no jornal gaúcho Zero Hora, entre os dias 21 a 24 de janeiro de 2012 e causou grande repercussão na época. Fruto da parceria dos repórteres Adriana Irion e José Luís Costa, o trabalho traz revelações surpreendentes sobre os efeitos da medida de internação na vida dos jovens infratores. Dos 162 internos naquele ano, 135 voltaram a ser presos sob suspeitas de terem cometido crimes. 114 deles foram condenados a penas que, no total, ultrapassam 1,5 mil anos de prisão. 55 estavam presos na data em que foi publicada a série. Não menos triste é a estatística de mortalidade: 48 foram mortos, sendo 36 assassinados. Outro dado aterrador revelado pela reportagem: apenas dois jovens não tiveram seu nome registrado novamente em ocorrências policiais ou processos criminais após serem libertados.

A entrevista a seguir dá voz a personagens que estão por trás desta investigação e que nem sempre se interessam em sair dos bastidores, tampouco querem ser manchete ou atrair holofotes para seus rostos e nomes. No entanto, são profissionais que produzem matérias e reportagens únicas, oferecendo temas que merecem toda a atenção.

FotoAdriEsso

Adriana Irion protagoniza um destes personagens, que trazem à tona situações fatos que poderiam pairar na obscuridade. Em uma entrevista exclusiva ao Universo IPA, a repórter com 22 anos de profissão e inúmeros prêmios, dentre eles o Prêmio Esso Regional Sul 2012, Prêmio do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Prêmio Latinoamericano de Jornalismo Investigativo – Instituto Prensa y Sociedad 2012, entre outros, fala sobre a produção e os caminhos trilhados na investigação da reportagem 'Meninos Condenados' e também sobre jornalismo investigativo.

Universo IPA (UI): Como foi a ideia para produzir 'Meninos Condenados'?
Adriana Irion (AI): A ideia era verificar o que ocorrera com os ex-internos depois deles deixarem a fundação e tornarem-se adultos. Nossa suspeita era que devido ao alto índice de envolvimento de jovens em crimes, a maioria tivesse voltado a cometer crimes. Mas a pauta não nasceu nesse formato: a ideia original previa analisar a vida dos condenados do Presídio Central e ver quem havia passado pela Febem/Fase. Mas seria um levantamento gigantesco, devido ao tamanho da população encarcerda. Depois, pensei em analisar toda a população de egressos da Fase de um determinado ano, mas também era um número alto. A solução foi focar em uma unidade específica, a CSE.

UI: Como foi a tua estratégia investigativa para construir a reportagem?
AI: Foi complicado, exaustivo, que nos (o trabalho foi em parceria com o colega José Luís Costa) exigiu dezenas de conferências e checagens. A partir de dados existentes em documentos oficiais (da Fundação de Atendimento Socioeducativo, da Polícia Civil e da Justiça), fomos para a rua, partimos para o trabalho que foi o mais difícil, mas também o mais enriquecedor da apuração: o de localizar os meninos vivos ou familiares dos mortos. Cada passo era uma pequena investigação: localizar um endereço, conferir uma data de nascimento, recontar histórias de vida e de morte. Para teres uma ideia, teve um dos meninos que durante anos de apuração nunca encontramos nenhuma pista, nada. Chegamos a achar que tinha morrido e sido enterrado como indigente. Só nas últimas semanas de trabalho descobrimos que uma letra do nome estava trocada. A partir disso, localizei a família (ele já estava morto). A história dele era, na minha opinião, uma das melhores e até ganhou um bom destaque devido às boas fotos que consegui dele na infância. Foram escolhidos alguns poucos para terem suas histórias contadas com mais espaço.

UI: Qual a repercussão que essa reportagem causou na sociedade?
AI: A publicação da série teve grande repercussão entre promotores e juízes da área da Infância e Juventude, entre servidores da Fase e até mesmo entre internos e ex-internos. O jornal recebeu dezenas de emails sobre as reportagens. Nos desdobramentos da matéria veio à tona nova denúncia, de que os internos da unidade recebiam excesso de medicação. O Conselho Regional de Medicina abriu investigação sobre o atendimento médico na unidade. O Sindicato Médico do Rio Grande do Sul pediu a interdição médica da Fase. A 3ª Vara da Infância e da Juventude abriu processo para responsabilizar a presidente da fundação por eventuais irregularidades e excessos. A ministra da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, anunciou, a partir da série de reportagens, o lançamento de um plano nacional para direcionar a ação dos governos estaduais na busca da ressocialização.

UI: Qual a importância do tema ser investigado?
IA: A necessidade da investigação se explica pelo fato de que nunca no Estado havia sido feito um levantamento desse tipo, que revelasse o número de ex-internos que voltam a cometer delitos depois de adultos. O dado sobre esse tipo de reincidência sempre foi alardeado por autoridades e reproduzido pela imprensa com base em suposições. A própria Fundação Estadual de Atendimento Socioeducativo (Fase) tomou o levantamento como referência, comprometendo-se a verificar, dali em diante, a reincidência de egressos da fundação. A importância de dados deste tipo está no fato de que ao olhar para eles autoridades, dos mais diversos órgãos, podem pensar, planejar e executar medidas visando a ter um resultado melhor na ressocialização de infratores.

UI: Foi uma reportagem longa, explique a divisão entre apurar os dados até a publicação da matéria.
AI: A pauta foi proposta em 2003, começou a ser apurada em 2005. O trabalho de campo, de execução de entrevistas e fotos ocorreu em períodos intercalados nos anos de 2009, 2010 e 2011, para publicação em 2012.

UI: Em uma longa reportagem muitos dados são gerados. Como foi a apuração?
AI: No começo uma lista simples com o nomes, data de nascimento e filiação dos 162 jovens no Instituto Juvenil Masculino (IJM) da Febem em 1º de janeiro de 2002. Porém muitas informações estavam incompletas. O primeiro desafio foi localizar os endereços, registrados em maioria apenas com dados como "beco 1, quadra A, da vila tal". Logo percebemos que não seria o melhor caminho para localizar os meninos ou suas famílias. Partimos então para o primeiro grande levantamento oficial com os 162 nomes, junto ao Poder Judiciário para verificar quantos respondiam a processos criminais ou estavam presos. Dentro dos processos tivemos acesso a novos endereços dos ex-internos, desta vez, mais atuais. Mergulhamos em regiões tomadas pela violência e pela miséria para encontrar famílias que tinham o crime presente não só no passado, mas também no presente. Tivemos contato com mães amedrontadas, que seguem mudando de endereço para proteger filhos mais novos, com mães sob ameaça, enfim, nossa busca era permanentemente por pessoas que não queriam ser encontradas.
Para termos esses perfis, a fim de irmos construindo as histórias e podermos adotar os cuidados de segurança necessários, nós tomamos como base dados dos sistemas de segurança da Polícia Civil e Superintendência dos Serviços Penitenciários. Com isso, podíamos verificar quem estava respondendo a inquéritos ou foragido. Algumas das 48 mortes registradas até o momento da publicação ocorreram durante a apuração da matéria, assim como muitas prisões e solturas. Alguns personagens da matéria foram entrevistados dentro de presídios.

UI: Em relação às fontes, tiveste dificuldade em extrair informações importantes?
AI: Foi bem difícil. O tema "menores" ainda é cercado de tabus, de cuidados. A primeira resposta que vem quando tu pedes algo é que se trata de "sigilo", pois o menor tem que ser preservado, protegido. Neste caso, aliás, tivemos uma discussão permanente com o setor jurídico até o último dia antes da publicação sobre se podíamos ou não usar os nomes dos guris. Como todos já eram maiores de idade na data da publicação, minha defesa sempre foi a de que podíamos usar. Também foi levantada a dúvida sobre se podíamos contar o que a pessoa havia cometido de delito quando era menor. Enfim, foram debates interessantes durante a apuração e preparação para publicação. Então, voltando a tua pergunta, sempre havia algum tipo de dificuldade com a Fase para a busca de dados, aprofundamento, e informações específicas sobre os guris que tínhamos dificuldades de encontrar.

UI: Explique o processo de montagem da reportagem – da diagramação a apresentação.
AI: Discutimos bastante sobre como apresentar o material, como dividir os meninos, em que grupos. Como seriam vários dias de publicação, era preciso ter uma lógica, uma divisão. Acabamos optando pelo formato que saiu, dividindo em mortos, presos, os poucos meninos que se recuperaram. No final, eu estava tão envolvida, que já conhecia os guris e as histórias pelo nome. Eu trabalhei na edição, escolhi e sugeri fotos.

UI: Fale sobre o processo de investigar dentro do jornalismo.
AI: Investigar é o que fazemos (ou deveríamos fazer) o tempo todo. Sempre tive uma preocupação muito grande com precisão. E precisão se consegue com exaustiva checagem, com investigação, com apuração. Temos que desconfiar da informação básica que a fonte deu ou que está nos registros oficiais. Fulano disse que beltrano fez tal coisa. Está lá, registrado no papel, é oficial. Mas será que fulano disse mesmo? Em que condições disse? E beltrano, o que tem a dizer? E o tal coisa, como foi que ocorreu? Aconteceu mesmo? Enfim, um registro policial pode ser uma nota ou render duas páginas de matéria, mas o importante mesmo é que em um ou outro caso, as informações sejam precisas, tenham sido conferidas. Pode haver muitas armadilhas _ erros e inverdades _ por trás de um registro oficial.

UI: Como tu percebes a diferença entre o checar e o investigar?
AI: É a mesma coisa, mas talvez com pesos diferentes. Checar parece mais simples, mais rápido. Checar a grafia do nome, a idade da pessoa, o cargo... Investigar tem outro status. É mergulhar, exaurir o assunto, buscar o que não está óbvio, o que está por trás. Ou, a partir da informação óbvia e pronta, conseguir avançar e apresentar novidades. Foi com o objetivo de aprofundar investigações e disseminar essa cultura de investigar por todas as áreas do jornal _ a investigação sempre foi mais comum, mais natural em editorias como Geral e Polícia _ que Zero Hora criou, em 2012, o Grupo de Repórteres Investigativos, que é composto por pessoas de todas as editorias.

UI: Breve comentário sobre o cenário atual do jornalismo investigativo.
AI: Me parece que ainda há muita confusão quanto a isso. Vejo matérias sendo chamadas como investigação própria quando, na verdade, a matéria é a revelação de uma investigação feita pela polícia ou pelo Ministério Público. Isso é jornalismo de fonte, é receber uma história exclusiva pronta. Tem grandes méritos, mas não é investigação. Por outro lado, o uso da Lei de Acesso à Informação, criada em 2012, tem embasado uma série de boas matérias investigativas, que revelam dados inéditos sobre governos, sobre gastos, sobre o poder público em geral. Essa tem sido uma boa ferramenta para investigações. Acho que vale pontuar que quando falamos em matéria investigativa não precisa ser aquelas que dependem de meses de investigação e trabalho. Não, investigação pode ser feita no dia a dia, em matérias especiais, apuradas em menos tempo.

UI: Como é o relacionamento com as fontes? Contato próximo? Identificação?
AI: Fonte é a matéria-prima do jornalismo. Impossível ser repórter sem fontes. E há casos e casos de como se relacionar com elas: há a fonte que não aceita falar por telefone, que nunca quer o nome revelado, que gosta de aparecer, que gosta de mandar documentos anonimamente, que fala, mas quer olhar a matéria antes da publicação, enfim, perfis e interesses variados. Procuro lidar com cada caso a partir da característica de cada pessoa. Importante saber preservar a fonte (mesmo a que se identifica) sempre, acima de qualquer coisa. Uma fonte traída ou exposta indevidamente pode comprometer o trabalho do repórter em determinadas áreas e em coberturas específicas.

UI: Sobre a próxima atualização da reportagem 'Meninos Condenados', pode nos adiantar alguma coisa? Qual a intenção com essa nova atualização? Tem uma previsão de data da publicação?
AI: A ideia é verificar como ficaram as promessas feitas à época da publicação. Além disso, conferir a situação de egressos dos últimos anos. Ainda não estamos com a pauta bem fechada, nem temos previsão de publicação.

Matéria produzida para a disciplina de Jornalismo Investigativo. Professora responsável: Luciana Kraemer.

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