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Jornalismo Investigativo

Finanças no futebol: O impacto da administração dos recursos econômicos nos resultados de campo

endivGrêmio e Internacional viveram em 2012 um ano extraordinário no campo das finanças. Com renovações de contrato com patrocinadores e, especialmente, com a TV Globo, os atuais dirigentes conseguiram saldar dívidas históricas. Os clubes, aliás, podem terminar o ano com dinheiro em caixa. Mas os movimentos de oposição não estão tão otimistas com os números quanto os mandatários dos clubes.

Com um investimento forte no quadro social e no licenciamento de marcas, o Internacional é o clube gaúcho com a melhor situação financeira. Segundo levantamento da BDO Brazil, o Inter possui a terceira maior receita do país, arrecadando no ano passado 198 milhões de reais, ficando atrás apenas de São Paulo e Corinthians. Já o Grêmio figurava em sétimo no ranking com faturamento anual de 134 milhões. No entanto, com as renovações de contratos realizadas em 2012 e a intensa campanha de marketing com a migração para a nova casa, o Grêmio já arrecadou mais de 200 milhões de reais. Por falar em 2012, até o final deste ano o Corinthians se tornará o primeiro clube brasileiro a ultrapassar a marca dos R$ 300 milhões de arrecadação.

Com este cenário favorável, o Grêmio finalizou neste ano o pagamento de uma dívida que praticamente inviabilizou as atividades do clube. Em 2005, o clube passava dificuldades no futebol com a queda para a Série B e nas finanças. Atolado em dívidas, a alternativa para não fechar as portas foi criar o “condomínio de credores” e unir os cobradores, oferecendo a eles uma garantia de pagamento mensal além de percentuais de vendas de atletas. Após sete anos, o Grêmio finalizou o pagamento das suas principais dívidas com 50 credores que se tornaram membros do condomínio.

"Não tínhamos alternativa para pagar as dívidas. Era uma penhora em cima da outra, um tiroteio de cobradores. O Grêmio nunca sabia quanto dinheiro tinha, quando assumi o clube em 2005. Precisávamos resolver isso. Tentamos de todas as formas e chegamos, depois de meses de conversa, ao condomínio. Tudo estava comprometido. Era aquilo ou o fim do clube. O Grêmio estava quebrado, falido, só não poderia decretar falência", disse o presidente Paulo Odone.

O pagamento das dívidas foi comemorado e explorado durante o período eleitoral gremista. Concorrendo a reeleição, Odone fez questão de ressaltar a recuperação financeira do clube. Por outro lado, a oposição do clube contestava os dados alegando que o passivo do clube aumentou nos últimos anos. O argumento da oposição era de que a atual administração só “esqueceu” os 150 milhões de reais que o clube possui em débitos com o Governo Federal. Mesmo com as críticas, o presidente gremista comemora a situação financeira do clube. “O Grêmio teve um ano maravilhoso. Eu nunca recebi o clube tão bem de um presidente quanto vou entregar ao presidente Koff. Com dinheiro em caixa para investir, com um estádio novo e sem o condomínio de credores para pagar”, disse.

No Inter, as finanças também são contestadas pelos movimentos de oposição. Especializado na área administrativa, o conselheiro Sandro Farias critica os números positivos divulgados pela atual gestão. "Os clubes são uma máquina de produzir déficit. Tem uma estrutura deficitária que provoca gastos. Todo final de mês falta recurso em caixa. Isso se torna uma bola de neve. Hoje é suprido com venda de atletas”, disse.

Sandro, que foi candidato à presidência do Inter no último pleito, contesta os números divulgados e a euforia da situação. “O clube até pode fechar o ano com dinheiro em caixa, mas que já estarão comprometidos com as despesas de início de ano. Não é dinheiro sobrando. Cada centavo que está investido já tem destino no início de 2013”, disse.

Segundo o presidente do clube, Giovanni Luigi, mesmo com um ano aquém do esperado no futebol, Internacional terá lucro no final do ano. “Hoje o Inter tem uma estabilidade financeira. Todos os impostos, salários e encargos estão em dia. O clube neste quesito está muito bem”, revelou Luigi. “Isso que eu não vendi o Damião, Moledo e outros jogadores que houve interesse. E contratamos outros atletas de qualidade. Mesmo assim o Inter está muito bem”, disse.

A afirmação do presidente colorado é respaldada pelo levantamento do Itaú BBA que avaliou as finanças dos dezesseis maiores clubes do futebol nacional. Conforme o estudo, os clubes devem cerca de 754 milhões de reais a instituições financeiras. Desses times, só o Internacional não está endividado. Pelo contrário, tem 31 milhões de reais em caixa.

 

A fiscalização

Devido às exigências da Lei Pelé, a fiscalização tem sido intensificada nos clubes. Conforme o presidente do conselho deliberativo do Grêmio, Raul Régis de Freitas Lima, o processo se dá de maneira transparente dentro dos clubes. “Nós temos diversas reuniões ordinárias para tratar das finanças dos clubes. A cada trimestre, o resultado do clube é submetido a avaliação do conselho fiscal e, posteriormente, ao conselho deliberativo. Tudo precisa ser aprovado e é auditado pelos conselheiros e por empresas externas”, disse.

No entanto, o sócio não encontra a mesma facilidade para receber as informações. Até 2010, o Internacional era considerado uma referência com relação à divulgação das suas finanças. No entanto, o clube optou por modificar a sua estratégia de divulgação e passou a fornecer dados anuais em seu site, quando antes essa publicação ocorria há cada três meses. A mudança no critério foi criticada pelo conselheiro Luiz Antônio Lopes durante a campanha eleitoral para a escolha do presidente do Inter para o próximo biênio, na qual ele era um dos candidatos de oposição. “É muito importante a organização das informações para que o torcedor tenha facilidade na compreensão da gestão do clube. Devemos retomar uma melhor frequência de publicações dos dados de gestão e finanças, qualificar o conteúdo com melhores informações, além de reorganizar o site do clube para melhores pesquisas de conteúdo.”, afirmou Lopes.

 

Finanças x Futebol

Estabilizados financeiramente, Grêmio e Internacional investem pesado no futebol. Segundo levantamento da BDO Brazil, o Grêmio é o segundo clube que mais investe no seu departamento de futebol: 7 milhões de reais por mês. Já o Internacional investe 6 milhões mensais e tem a quarta maior folha salarial do país.
Atual campeão brasileiro, o Fluminense é o clube que mais investe neste quesito. Com o auxílio da Unimed, parceira do clube desde 1999, o clube carioca investe 8 milhões de reais por mês. Para o presidente do Fluminense, Peter Siemsen, o segredo não é o alto investimento. “Esse investimento no grupo e a montagem de uma comissão técnica com a qualidade que temos são responsáveis pelos resultados que o time vem alcançando no ano, mas o que faz mais a diferença é o planejamento sério, dentro da realidade de cada equipe”, disse.

Já o presidente do Grêmio, Paulo Odone, considera normal o alto investimento no departamento de futebol dos clubes. “O principal fim de um clube é o futebol. É normal que as principais receitas e os principais gastos sejam no futebol. O sócio paga a sua mensalidade pensando nisso: em ver grandes jogadores com a camisa do clube e em conquistar títulos”, disse.

 

Denúncias que pararam no meio do caminho

No início deste ano, o ex-vice-presidente de futebol do Inter, Roberto Siegmann, tumultuou os bastidores do clube com uma enquete no seu twitter. Meses depois de deixar a diretoria colorada, demitido por Luigi, Siegmann publicou o seguinte questionamento: 'Enquete: é justo com os sócios alguém ser vice de futebol de um clube e, sem ser permitido, retirar R$ 30 mil por mês com notas frias?'.

O caso foi encaminhado ao conselho de ética do clube que ficou responsável pela investigação. A época, o presidente Giovanni Luigi e integrantes da situação afirmavam que seria realizada uma investigação “sem panos quentes”. No entanto, o assunto perdeu força pela ausência de provas documentais. Em outubro, durante uma reunião do Conselho Deliberativo, o conselheiro Tiago Issa questionou ao presidente do Conselho, Luiz Carlos Bortolini, sobre o andamento das investigações e a necessidade de o assunto ser retomado, mas o caso segue arquivado pela ausência de provas.

 

Criatividade para buscar novas receitas

Grêmio e Inter estão na terceira faixa de clubes no pagamento da Rede Globo pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. Com isso, recebem cerca de 57 milhões de reais por ano da emissora. Valores muito abaixo do que recebem Flamengo e Corinthians que possuem rendimentos de aproximadamente 120 milhões anuais. Para pelo menos empatar o jogo das finanças, a dupla Gre-Nal precisa contar com a criatividade.

O quadro social é o principal diferencial dos clubes gaúchos. Em 2011, o Internacional recebeu 40 milhões de reais dos seus mais de 100 mil sócios. Já o Grêmio, que possui 54 mil sócios em dia, recebeu em 2011 mais de 28 milhões de reais, valor superior ao que, no ano passado, o Tricolor recebeu pelos direitos de televisão.
Dentro deste quadro de inventar novas receitas, o próximo ano será de desafios para Grêmio e Internacional. O Tricolor terá de dividir os resultados do seu novo Estádio com a OAS, o que pode gerar uma redução nas receitas no próximo ano. Por conta disso, até as contratações estão sendo tratadas de maneira comedida pela nova gestão.

“Não sabemos a real situação do clube. Muito menos como ficará o orçamento para 2013 com essa divisão de receitas da Arena com a Arena Porto Alegrense (empresa criada pela OAS para gerir o estádio). Por isso, muita cautela pra evitar dificuldades ali na frente”, disse Odorico Roman, integrante do novo conselho de administração do Grêmio.

Já o Inter terá um desafio ainda maior. Se no Beira-Rio não há espaço para todos os sócios (são mais de 100 mil), imagine em um estádio do Interior? Com o avanço das obras para a Copa do Mundo de 2014, o clube foi obrigado a deixar de atuar temporariamente no seu estádio e terá que atuar em Caxias do Sul durante o primeiro semestre de 2013.

“Por um lado é um problema, pois temos que manter próximos do clube os sócios da grande Porto Alegre, mas é uma excelente oportunidade para buscarmos novas receitas na Serra”, disse Norberto Guimarães, diretor da central de atendimento ao sócio do Internacional. Buscando essa aproximação do sócio da Capital, o clube estuda uma parceira com uma empresa de ônibus para subsidiar o valor do transporte dos torcedores até o estádio Centenário, em Caxias do Sul.

Matéria produzida na disciplina de Jornalismo Investigativo. Professora responsável: Luciana Kraemer

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