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Jornalismo Investigativo

Jornalismo "sangue frio"

cid martinsCid Martins fala sobre a investigação jornalística para alunos do IPA. Foto: Andréa Graiz

por Carlos Macedo, Daiane Bochi e Maria Luiza Nunes

De repente a boca seca, as mãos suam, o coração acelera. A câmera e o gravador estão escondidos, e as perguntas na ponta da língua. No entanto, só depois de cerca de uma hora de bate-papo é que a fonte vai abrir o bico. É preciso muito sangue frio, técnica e planejamento para o jornalista investigativo descobrir a verdade e fazer uma denúncia.

Foi nesse tom que o jornalista Cid Martins, da Rádio Gaúcha, conversou com alunos do 8º semestre do curso de jornalismo do IPA, na manhã da última sexta-feira, 3 de setembro. A conversa foi intermediada pela professora da disciplina de Jornalismo Investigativo, Luciana Kraemer. Os alunos também tuitaram todo o encontro.

De fala rápida e estilo simples, como se estivesse começando na profissão, Cid Martins passou aos futuros jornalistas que é possível mostrar muito mais que os olhos possam ver, principalmente no rádio. Diante das ilegalidades escondidas na sociedade, foi pensando no pai – que ficou cego aos 50 anos – que Cid escolheu o rádio como meio para contar a verdade escondida nos porões das mentiras. "Foi uma forma de sempre me manter em contato com ele", declara. Mas, para poder fazer chegar a informação para o pai e milhares de ouvintes, o jornalista trabalha duro. Para ele, não adianta apenas "largar" a notícia de release.

A fábrica de salsichas

Depois de ter passado pelas redações da Bandeirantes e Jornal do Comércio, Cid Martins – que se formou na UFRGS em 1997 e já acumula nove anos de Rádio Gaúcha - acredita que hoje o jornalismo está muito institucional. "Perdeu aquele lado, vamos dizer, 'romântico'", enfatiza. Então, é no jornalismo investigativo que o jornalista vê uma forma de fazer um trabalho mais diferenciado para a sociedade. "A investigação, aquele cara que busca algo fora do release, fora do que vem por email, fora da fábrica de salsicha – que é pegar a notícia e largar, e largar – esse é o cara que pensa um pouco. Esse é o diferencial do jornalismo", observa.

Quando Cid Martins usa a fábrica de salsichas como exemplo de um jornalismo "enlatado", é um alerta para que, principalmente os jovens jornalistas, não achem que a investigação sirva apenas para casos de polícia ou do setor público. "A investigação pode ser sobre um problema ambiental, um problema da rua, um problema comunitário... Não só um flagrante", complementa. E foi com esta visão diferenciada que ele abriu portas na Rádio Gaúcha e no jornalismo, o que é o sonho de muitos "focas".

Trabalho duro e reconhecimento

"Não foi no primeiro ano, no segundo, não foi no terceiro que eu comecei a ser escolhido para as pautas de maior repercussão", fez questão de salientar aos estudantes de jornalismo e iniciantes sobre seu crescimento na profissão. O alerta tem um motivo, o reconhecimento não vem sem trabalho duro. Conforme Cid Martins, para seguir no jornalismo investigativo, a pessoa tem que gostar muito de investigação e ainda estar disposto a trabalhar fora de horário. "Para começar uma matéria investigativa - e vale para as nossas metas de vida também – não adianta chegar e querer fazer se não é isso que tu queres", aconselha.

Para quem quer entrar no caminho da investigação, Cid explica que, naturalmente, o jornalista terá que provar que pode fazer muito mais que pautas secundárias, ou descobrir muito mais sobre o que uma pauta intermediária possa render. "Comecei a fazer a matéria da rua. Fiz bem feito. Então comecei a fazer um trabalho mais diferenciado. Comecei a procurar a fazer matérias mais elaboradas, e aí os caras já começaram a me dar mais espaço", exemplificou.

Segundo ele, "o jornalismo suga mesmo", mas, consequentemente, começa a vir retorno financeiro e a satisfação moral, ética e emocional.

Cid Martins a sangue frio

Da matéria mais importante à matéria mais simples, sempre há algo diferente e que chame a atenção a ponto de render uma diversificada investigação. A pauta pode surgir durante um bate papo de boteco. Basta prestar a atenção nas pessoas e no que está acontecendo em toda a volta. "Cidade Baixa: um território sem lei", começou assim, com narra Cid Martins:

"Estava eu e o Fábio Almeida (RBS TV) num barzinho, e a gente viu que toda a hora chegava um guri... Chegava na mesa, falava com o cara, saia correndo, largava um pacotinho e o cara dava um dinheiro pra ele". Achando estranha a abordagem os jornalistas foram até o menino. A resposta foi surpreendente:

"Tio, seguinte, dois pila a maconha, cinco pila o craque e se quiser lança perfume tem um cartãozinho aqui de um amigo meu". Depois disso os jornalistas realizaram uma série de matérias que abordaram o tráfico e a violência no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Numa das etapas da investigação Cid Martins e Fábio Almeida tiveram que ter muito sangue frio enquanto investigavam a venda de drogas. Ambos foram assaltados, mas o flagrante foi registrado.

Ouça o relato:

Tão perigosa quanto, também foi a série de matérias "Nazistas sulinos", quando Cid teve que se infiltrar em grupos nazistas. Em certo momento um nazista que conversava com o jornalista teria dito: "Eu não quero ficar aqui porque esse negro fede". Mais uma vez a identidade é posta 'a prova e Cid teve que manter o sangue frio para não correr o risco de perder a pauta. "Você pode ficar tão irritado e pode ser desmascarado nisso", avalia. O jornalista se calou naquele instante, mas as matérias cumpriram seu papel em informar e denunciar.

Informar por todos os meios

Um dos principais pontos também destacados durante a conversa com os alunos de jornalismo foi sobre o impacto que uma reportagem investigativa pode e deve ter. Para tanto, o jornalista analisa que a grande questão hoje é saber veicular o tema em todas as mídias: online, rádio, jornal e tv. "Tu já vai preparado para fazer a matéria sair em todos os meios", explica. Por isso, geralmente são feitas parcerias entre os diversos veículos, no caso de Cid Martins, do Grupo RBS. O jornalista enfatiza que quando inicia uma investigação, ele já pensa como poderão ser as possíveis imagens, ou os recursos sonoros para que a matéria tenha impacto. A sociedade agradece e os criminosos ficam de sangue quente.

Cuidado com as fontes

Veja o que disse Cid Martins sobre a relação escorregadia com as fontes:

- Tem gente que tem carteirinha de fonte e de denunciante, porque eles adoram saber depois: 'Saiu... que bom! Me manda a matéria!'

- Uma vez eu fui fazer um advogado e o cara era tão esperto que tinha a carteira cassada e continuava com a profissão. E o cara se mandou! Porque chegou ao final e ele olhava para mim, me encarava – e eu encarava ele também – mas no final ele chegou e apertou minha mão e a minha mão suava, aí o cara pegou e sumiu...Eu estava suado, tenso, porque eu sabia que o cara tinha uns capangas em volta.

- Eu tenho um dia da semana para tomar café e fazer ligação.

- Não adianta me procurar para fazer matéria por benefício próprio, e já perdi fontes por isso.

 

As técnicas de investigação de Cid Martins

por Tatiana Nassr, Camila Batista, Alexandre Brighenti e Andréa Barilli

O jornalista trouxe exemplos de reportagens investigativas para a turma, mostrou trabalhos e grandes reportagens realizados por ele na Rádio Gaúcha. Para ilustrar a importância da pesquisa, rodou uma reportagem sobre um grupo de nazistas que atuava no Rio Grande do Sul. Para a matéria, foi necessário aprofundar-se muito sobre o assunto antes de infiltrar-se nesse meio. De acordo com Cid Martins, o personagem que o repórter vai assumir precisa ter uma história, um passado e um futuro.

Entre comentários sobre técnicas de infiltração, ética, segurança e repercussão de reportagens, a técnica do banco de dados recebeu destaque. Através desta ferramenta, é possível conferir informações, ou seja, comparar dados antigos com os novos. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) complementa: a técnica facilita a recuperação rápida de dados como estatísticas e datas, além de ser independente de conexões à internet. No livro "Jornalismo Investigativo", a autora Cleofe Monteiro também exalta a utilidade do banco de dados: "Criando seu próprio banco de dados, o repórter tem uma margem de segurança muito grande para e todos os envolvidos na matéria, do editor à direção do jornal". Cid Martins ainda ressaltou a importância de ter o banco de dados sempre à mão, do início ao fim de uma reportagem. Dessa forma, pode ajudar na criação do personagem em caso de infiltração e ser utilizado para comparar as informações obtidas durante o processo de investigação.

Assim como o banco de dados e as estatísticas, o texto também é fundamental para mostrar à população o resultado de uma investigação jornalística. É importante elaborar um bom texto, pois é através dele que o jornalista mostrará ao público todo o trabalho de pesquisa e investigação por trás da matéria. "O texto precisa ser bom, chamar atenção, ser atrativo", afirma o repórter, sempre com o objetivo de esclarecer ao máximos os fatos.

No final da palestra, Cid Martins disponibilizou aos alunos um material sobre técnicas de investigação e destacou a importância de uma matéria bem elaborada. Uma reportagem bem escrita e com informações concretas sobrepõe-se ao furo jornalístico. Para encerrar, o jornalista deixou uma dica importante. "Para manter uma boa relação com as fontes, basta continuar produzindo boas matérias e sendo ético", ressalta.

 

Bate Papo com o repórter investigativo, Cid Martins

por Helô Pacheco, Kamila Johann e Stéphanie Perrone

Universo IPA - Quando e como surgiu teu interesse pelo Jornalismo?
Cid Martins - Foi quando eu estava fazendo um cursinho pré-vestibular e vendo o que eu poderia fazer. Minha dúvida era entre História e Jornalismo, mas como eu e meu pai sempre brincávamos de documentar e narrar jogos de futebol com o uso de gravador, acabei optando pelo Jornalismo.

Universo IPA - O que você costumava ler antes de entrar na faculdade? Bate Papo com o repórter investigativo, Cid Martins
Cid Martins - Totalmente oposto do que faço agora. Por pegar ondas, eu lia muitas revistas de surf. Além, é claro, de livros de História, que eu sempre gostei.

Universo IPA - Quando e como surgiu o convite ou a vontade de seguir na área do Jornalismo Investigativo?
Cid Martins - A vontade foi surgindo aos poucos. Tinha vontade de especular e através de contatos com fontes via a necessidade de investigar. Sair da pauta comum.

Universo IPA - Qual foi o maior desafio que você enfrentou como repórter investigativo?
Cid Martins - Foram dois. Um deles foi a reportagem sobre os neonazistas, onde tive que raspar o cabelo, me envolver no grupo e pesquisar bastante sobre o tema. O outro desafio foi na época em que eu trabalhei na Band, quando recebi uma ligação de um ex preso político que não tinha recebido a anistia. Foi uma reportagem bastante trabalhosa, onde encontramos mais de 300 ex presos políticos do baixo escalão que não eram anistiados no Rio Grande do Sul.

Universo IPA - Você alguma vez sentiu medo durante uma reportagem?
Cid Martins - Sim. Em algumas ocasiões. A primeira foi na reportagem dos neonazistas quando me infiltrei no grupo. Outra vez aconteceu quando eu e meu colega fomos assaltados na Cidade Baixa durante uma reportagem. E, na época da Band, numa matéria sobre funerárias, um grupo foi até meu trabalho para me ameaçar, chegando até a agredir o segurança do local.

Universo IPA - Até onde você vai em busca da verdade?
Cid Martins - Até onde eu sei que o jornalismo tem que atuar. Sempre resguardando a minha segurança e garantindo a ética na profissão.

Universo IPA - Ao chegar em casa, depois do expediente, você consegue se desligar do trabalho?
Cid Martins - Hoje consigo, mas eu tive que trabalhar e me esforçar para isso. Como tenho dois filhos, um de quatro e outro de nove, a gente costuma jogar bola, pegar ondas juntos, eu vou nas reuniões de pais também. São programas familiares que me fazem esquecer um pouco do trabalho.

Universo IPA - O Jornalismo é uma paixão para você?
Cid Martins - O jornalismo é uma paixão quando consegue investigar, ir mais a fundo. A investigação assegura o romantismo no Jornalismo.

Universo IPA - Quais dicas você deixa para os estudantes que pretendem trabalhar com o Jornalismo Investigativo?
Cid Martins - Especialização. Façam cursos, treinamentos. Informem-se com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). Leiam as reportagens do Humberto Trezzi nos jornais e vejam as reportagens do Giovani Grizotti na televisão. Espelhem-se nestes profissionais. E, se querem garantir um emprego, nada melhor do que ter um bancos de dados, lista de fontes para contato e matérias para garantir e se manter no emprego desejado.

 

Currículo

por Alex Sandro Gonçalves e Rodrigo Xavier

O jornalista Cid Martins ingressou na Fabico/UFRGS em 1988, concluindo o curso de jornalismo em 1996. Em 1995, conseguiu entrar no mercado de trabalho através da Revista Gool, curiosamente porque faltava a matéria da capa no final do mesmo ano. A reportagem era com o jogador do Grêmio, o então capitão Adílson Batista, campeão da Libertadores da América. Após driblar a segurança e insistir muito, Cid conseguiu a entrevista com o jogador após um treino e conseguiu também o emprego na revista.

No ano seguinte, foi contratado pela Rádio Band e em seguida juntamente com a rádio trabalhou no Jornal do Comércio, nas editorias de esporte e geral. Em 1998 trabalhou também na TV Band fazendo notas de rodapé. Trocou todos eles para entrar na Rádio Gaúcha em 2001, após três anos virou repórter especial onde atua até hoje, colaborando para Zero Hora, na versão impressa e online. Até agora em sua carreira Cid Martins recebeu 67 prêmios, como o Embratel, Direitos Humanos RS, ARI, Vladimir Herzog, CNT, Ethos, MP, Setcergs, ABCR, Asdep, entre outros.

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