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Jornalismo Investigativo

Futebol: paixão, cerveja e violência

foto1Cerveja liberada em evento teste para a Copa do Mundo na cidade São Paulo. Foto: Arena Itaquera

Nascer no Brasil é crescer e aprender a amar e vivenciar o futebol desde criança. Pena que isso deixou de ser um programa em família. Atualmente, é difícil encontrá-las dentro dos estádios. Os motivos são diversos: valor elevado dos ingressos, falta de segurança e o consumo excessivo de drogas fora e dentro das arenas.

Aquele domingo de sol com a família reunida durante o almoço, e que logo em seguida se destina para um estádio de futebol, não existe mais. Essa cena, hoje em dia, se tornou meramente ilustrativa no futebol brasileiro. Cada vez mais as famílias optam pela segurança do lar para acompanhar as partidas de futebol. Por outro lado, quem lucra são as empresas detentoras dos direitos televisivos. O número de assinantes dos canais pagos aumenta a cada ano. Hoje o valor arrecadado com a venda dos direitos de transmissão e dos jogos exclusivos fica em torno (sem patrocínios) de R$ 350 milhões. O Campeonato Brasileiro é transmitido e licenciado pela Globosat para mais de 30 países ao redor do mundo. Estes valores são repassados e divididos entre os clubes, que além desta receita, sobrevivem com o faturamento do quadro social, dos patrocínios, com a venda de atletas, e claro, a venda de ingressos e a presença dos torcedores nas dependências do clube, consumindo artigos do time do coração.

Mas o que mais prejudica o futebol brasileiro atualmente não é a receita e a concentração dos lucros e sim a falta de gestão e controle de quem comanda a¨redonda¨. Não por parte dos clubes, pois os times não possuem poderes suficientes para tomar decisões externas, sobre competições, profissionalizações de arbitragem e as leis que envolvem o futebol dentro e fora de campo. Recentemente o país foi sede da Copa do Mundo. O Brasil não conquistou o hexa, mas ganhou muito com a Copa.

Um dos principais aprendizados é a certeza de que a cerveja nos estádios não gera violência. Segundo pesquisa do IBOPE, o brasileiro possui algumaspaixões enraizadas (futebol, carnaval, domingo, cerveja, churrasco e cerveja e futebol juntos). Pela pesquisa, uma em cada quatro cervejas consumidas no Brasil possui alguma relação com o futebol: torcedores assistindo aos jogos, ou então, após a pelada entre amigos. Isso mostra a importância na relação entre a indústria de cervejas e do esporte mais amado pelos brasileiros. A pesquisa ainda mostra que 64% dos torcedores assistem aos jogos tomando cerveja e fica fácil fazer a relação que a bebida e o futebol estão interligados e não basta proibir o seu consumo dentro dos estádios. No Brasil não existe nenhuma lei federal que proíba o consumo de bebidas alcoólicas dentro dos estádios, quem regulamenta essa proibição é o Estatuto do Torcedor, com validade nacional enraizado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que diz: como condição de acesso e permanência nos estádios ¨não portar objetos, bebidas, ou substâncias proibidas ou suscetíveis de gerar ou possibilitar a prática de atos de violência¨.

Aqui no Rio Grande do Sul, a Lei Estadual nº 12.916 de autoria do Deputado Miki Breier (PSB), que vale desde 1ª de Abril de 2008, ¨proíbe a comercialização e o consumo de bebidas alcoólicas nos estádios de futebol e nos ginásios de esportes.¨.

 

foto2No Rio Grande do Sul, a lei que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas em eventos esportivos. Fonte: Diário Oficial do Estado

No Rio de Janeiro, em Minas Gerais e na Bahia é permitido o consumo de cervejas dentro dos estádios. Vale ressaltar que, na Bahia, a Arena Fonte Nova foi adquirida e recebeu os namingrights da marca de cerveja Itaipava, e, agora se chama Itaipava Arena Fonte Nova. Este é um caso que fica claro entender como o interesse e o poder podem alterar e ditar as leis.

 

foto3No site da Itaipava Arena Fonte Nova imagens onde o consumo e comércio de bebidas são permitidos. Imagem: Divulgação Itaipava Arena Fonte Nova

 

A bebida, os estádios e a violência

Para quem apoia a proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios, a maior defesa é em relação à segurança dos torcedores. Para Miki Breirer autor da lei no Estado do Rio Grande do Sul, sem o consumo de álcool, menor será o número de incidentes e brigas, ele argumenta que a proibição de bebidas alcóolicas nas partidas de futebol, trouxe mais paz aos estádios. ¨Todos queremos viver em liberdade. Porém, a vida em sociedade exige medidas que coíbam exageros e agressões aos outros. A medida é para prevenir a violência e levar paz aos estádios¨. Dados da Brigada Militar confirmam que, até certo ponto, a medida deu certo. Desde a implantação da lei a redução de violência nos estádios chegou a 70%.

Por outro lado, muitos dirigentes apontam a medida como um tiro no pé e no caixa dos clubes. O atual presidente do Grêmio, Romilldo Bolzan Jr em entrevista ao site Uol se posicionou a favor do debate da liberação da bebida dentro do estádio. ¨Hoje não se bebe no estádio, mas se bebe fora. Isso simbolizaria contratos melhores com as empresas e fornecedores de bebidas, e isso pode agregar uma boa receita aos clubes e pode ser revista.¨, opinou. Dirigente do Veranópolis Esporte Clube, Gilberto Generosi afirma a ideia de Romildo. ¨proibir a venda das bebidas nos estádios promove mais bebedeiras, pois o indivíduo sabendo que não terá durante o jogo, acaba por embebedar-se antes de ingressar no estádio. Além disso, a receita com as vendas é muito importante para a saúde financeira dos clubes¨.

Dados do Ministério Público de São Paulo, onde a proibição de bebidas alcoólicas nos estádios começou a vigorar no ano de 1996, mostram que, no quesito detenções por violência fora e dentro dos estádios foi reduzido drasticamente a partir do momento em que a Lei foi instaurada. Em 1995, quando ainda era permitido o consumo de bebidas nos eventos esportivos, o número de presos por brigas e tumultos era de seis pessoas por partida. Um ano após, depois da proibição, o número caiu pela metade, três torcedor por jogo. O último dado disponibilizado pelo MP-SP é de 2005, e mostra que o número de detidos por partida chegou a marca de um torcedor por evento. Abaixo os números.

 

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A culpa não é da bebida. O Brasil entre os anos de 1999 e 2008, foi o campeão mundial pela morte decorrente de confrontos entre torcedores. Neste período foram 42 mortos, média de quatro torcedores por ano. O Brasil ficou à frente de países como Itália e Argentina, onde a máfia e os barra-bravas são os grandes chefes de torcidas. Nesses países, a grande sacada para transformar o futebol novamente em um ambiente familiar, não foi a proibição de bebida alcoólica, e sim a reeducação do público que frequenta os estádios, diálogo constante com os integrantes de torcidas organizadas, repressão e inteligência na prevenção de acidentes por parte dos policiais. Os dados nos anos seguintes são mais alarmantes ainda, em 2012, atingimos a média de 23 mortes decorrentes de conflitos, brigas entre torcedores e/ou policiamento.

Resta concluir que não é a presença ou não da bebida nos estádios que diminuem ou não a violência dentro do campo de jogo. A violência está enraizada naqueles que frequentam esses lugares. O ódio e a gana em vencer beira a brutalidade, a cegueira e a falta de consciência humana. Para os clubes o consumo de bebidas dentro dos estádios é uma fonte de lucratividade maior, a briga deles é a rentabilidade. Para os demais frequentadores do jogo de bola, a bebida pode influenciar de maneira positiva ou negativa, até porque a bebida está inserida neste contexto. Antes das partidas, os torcedores não ficam sem beber, e até mesmo com a proibição, hoje, é fácil acessar e consumir dentro dos estádios, cometendo um crime, assim como o porte de drogas. É necessário que os torcedores, dirigentes e o poder público trabalhem diretamente com a reeducação, o equilíbrio e a valorização que envolve o contexto social de uma partida de futebol, se não a goleada será sempre da violência e do descaso, independente da cervejinha ou não.

 

Autoridades discutem o assunto

Para debater o assunto, buscamos a opinião de algumas autoridades. A favor da proibição do consumo e comércio de bebidas alcoólicas, e certo de que a medida é efetiva para coibir a violência, o promotor do Ministério Público Estadual, Marcio Emílio Lemes Bressani explica o posicionamento da Promotoria do Torcedor. Contra a proibição, o deputado estadual Juliano Roso (PC do B) defende que os clubes do interior gaúcho deixam de auferir um valor que poderia ajudar a melhorar os times. Escute aqui:

 

Entrevistas com promotor do MP e deputado Juliano Roso

 

Confira alguns números sobre violência nos estádios

grafico bebida

 

Enquetes realizadas na rede social, Facebook

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