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Jornalismo Comunitário

Rádios comunitárias ganham espaço

radio ipanema comunitariaFoto de Jair Farias

Os futuros jornalistas da disciplina de Comunicação Comunitária tiveram a oportunidade de partilhar as experiências do apresentador e recém-empossado ao cargo de diretor da Rádio Ipanema Comunitária, jornalista João Batista Santafé Aguiar.

No dia 03/11, João Batista, a convite da professora da disciplina, Lisete Ghiggi, esteve no IPA, onde palestrou para aproximadamente 15 alunos, sobre os aspectos gerais que envolvem a radiodifusão comunitária no Brasil.

Há oito anos no ar, a FM Rádio Ipanema (89.3), com a sua programação na web (www.ipanemacomunitaria.com.br), presta o serviço de comunicação à comunidade do bairro Ipanema, na Zona Sul de Porto Alegre. Há poucas semanas no cargo, o jornalista trabalha para devolver à rádio o prestígio desfrutado em seus áureos tempos e busca reposicioná-la entre as melhores rádios comunitárias da Capital.

 

História

Tudo começou com um movimento de moradores, pessoas de classe média do bairro, que combatiam um projeto, o qual previa a construção de dois edifícios em uma região de mato, ao lado do Clube do Professor Gaúcho, na orla de Ipanema. Ambientalista convicto, João Batista,  mesmo não sendo da comunidade, comprou a briga e passou a lutar junto com o grupo. Preocupados com a possibilidade de ocorrerem profundas mudanças na região e consequentes impactos ambientais, o grupo se reuniu e uniu forças para enfraquecer a proposta. O palestrante relatou que dessa conversa surgiu à ideia de criar uma rádio comunitária para ser uma ferramenta a favor da causa. “No grupo havia jornalistas como o ex-diretor, Doraci Engel. Eu participei da luta, mas não da criação da rádio”, esclareceu. Tempos depois, já contaminado pela oportunidade de unir a sua luta ambiental ao jornalismo, João Batista mudou-se para o bairro. E foi amor à primeira vista. “A rádio me encantou. Tinha uma programação musical muito bem escolhida e programas interessantes. A partir daí, comecei a militar na rádio também, e lancei o programa Cidadania Ambiental, que ficou no ar durante seis anos”, recordou.

Atualmente, a sede da Ipanema Comunitária está localizada na Avenida Juca Batista, 231. Lá está o estúdio com dois computadores, um microfone e uma híbrida. Simples, mas eficiente, e cumpre o seu papel de levar a voz dos locutores à comunidade. No entanto, essas limitações não representam o maior problema. A maior dificuldade enfrentada pela direção de uma rádio comunitária, segundo João Batista, “é fazer com que as pessoas entendam e se deem contam de que há uma normatização a cumprir, e se não cumprir sobra para o responsável”.

 

Programação

A Rádio Comunitária Ipanema, que já chegou a ter dez programas na grade, hoje conta com apenas dois, o OtakuDesu, um dos únicos produzidos no Brasil sobre os animes japoneses, feitos por uma garotada que mora na Cohab, e o Laranja Automática, recém lançado. Para a professora Lisete, ouvinte fiel dos bons tempos da Ipanema, a rádio, que já considerou uma das melhores, hoje precisa sofrer mudanças. Contornar esta situação é um dos compromissos do novo diretor, que promete devolver à grade antigos programas como o ‘Cidadania Ambiental’. 

 

Legislação e fiscalização

Dada a sua complexidade, a Legislação da Radiodifusão Comunitária Nacional, discutida em diversas ocasiões em sala de aula, retornou ao debate e ganhou o reforço das vivências do jornalista para um melhor entendimento da sua aplicabilidade.

João Batista enfatizou que a Rádio Ipanema Comunitária cumpre todas as exigências da lei, inclusive a que determina que a maior parte dos programas seja desenvolvida por moradores. Neste contexto, manter-se dentro da legalidade significa limitações. “A radiodifusão comunitária restringe a possibilidade de produção de programas. O programa tem que ser voltado para a comunidade local ou interessar a comunidade local. Não temos condições de fazer publicidade comercial; não pode ocorrer venda de produtos, apenas apoio cultural”, observou.

Tecnicamente, a lei determina para as rádios comunitárias que o alcance máximo esteja fixado em 1 km de raio, a partir do transmissor. Com esta limitação,  a rádio não é captada em todo o bairro Ipanema e sequer chega à região da Pedra Redonda. O alcance, segundo Batista, pode variar conforme o tempo, podendo chegar eventualmente a locais mais distantes, mas com o sinal bem mais fraco.

As rádios comunitárias, a exemplo da Ipanema, buscam eliminar a questão da distância e mantêm paralelamente uma rádio web, a qual se exime da ingerência da Lei de Radiodifusão. “O que as rádios estão fazendo hoje é fortalecer a web em detrimento da rádio no dial. Nós ainda temos uma intervenção muito pequena com as redes sociais”, completou.

Ao ressaltar o caráter complexo da Lei, a professora Lisete citou o exemplo de uma rádio comunitária que criou uma programação específica para área da cultural. Contestada pela sociedade, a programação teve que ser retirada do ar, porque contemplava um único segmento, ferindo dispositivo da lei. De acordo com Batista, esse é “um medo de quem gere uma outorga de radiodifusão comunitária, que é abrir demais para certos segmentos, em detrimento de outros”.

Outro aspecto que preocupa qualquer detentor de outorga de rádio comunitária é a fiscalização do Ministério das Comunicações, que funciona muito bem, na opinião do jornalista. A outorga da Ipanema vence em 2017, então, qualquer ocorrência negativa no decorrer do processo de renovação pode ser prejudicial. Recentemente a Ipanema investiu em um programa de gravação de áudio, que possibilita armazenar a programação da rádio na íntegra. A medida preventiva respalda a rádio e garante que eventuais solicitações de arquivos, por parte do Ministério das Comunicações, possam ser prontamente atendidas.

Entre os desafios da sua gestão, o novo diretor da Rádio Comunitária Ipanema  incluiu a renovação da outorga e o melhoramento da interface entre a web e a rádio. Ele ainda dividiu com os alunos a sua intenção de divulgar para o público a contabilidade da rádio, como forma de tornar o processo mais transparente. Unânimes, os alunos apoiaram a iniciativa e se manifestaram convicção de que a medida trará ainda mais credibilidade para a rádio perante a comunidade.

Ecoando as palavras entusiastas da professora Lisete, o convidado da noite encerrou a sua explanação difundindo a ideia de que  a “Comunicação Comunitária também é jornalismo, e o jornalismo comunitário é um grande mercado para o jornalista, no presente e no futuro”.

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