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Jornalismo Ambiental

Problemas em fábrica de celulose provocam conflito entre ambientalistas e moradores de Guaíba

cmpc1Foto de Juliana Villeroy

Instalada em Guaíba desde 1972, no bairro Alegria, a fábrica de celulose CMPC- Celulose Riograndense é motivo de constantes debates sobre seus impactos ambientais. Por outro lado, também é o principal gerador de ICMS no Estado, além de empregar mais de 4 mil trabalhadores locais.

cmpc2Borregaard em 1976 Foto: Arquivo Museu Municipal. Foto: ArquivoA CMPC gera discussões acirradas a respeito das emissões poluentes, da intervenção na logística da cidade e no bem-estar dos moradores. Só no ano de 2015 a fábrica desembolsou mais de  R$400 mil em multas emitidas pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) por conta de irregularidades ambientais. No início de 2016, funcionários da empresa foram encaminhados ao pronto atendimento devido a um vazamento de gás tóxico. Em conversa com um funcionário, que prefere não se identificar, ele conta que não foi a primeira vez que isso aconteceu. “Já tivemos outros episódios, muitos passam mal no dia a dia do trabalho mesmo. Sentem falta de ar, dificuldade pra respirar, sem contar que provoca rinite e bronquite em muitos”, explica.

De acordo com registros da Secretaria de Saúde de Guaíba, nos últimos 10 anos aumentou em 57% o número de pacientes atendidos com algum problema respiratório, como bronquite, rinite e asma. O médico Guilherme Garcia, especialista em Pneumologia, acredita que as emissões de gases pela fábrica tem provocado esse aumento nas doenças do trato respiratório. “É óbvio que uma empresa desse porte causa malefícios à nossa saúde. Como que alguém que vive respirando restos de cinzas e gases constantemente não desenvolveria algum tipo de dificuldade? É o preço da evolução”, explica.

 

Descaso com a população

cmpc3Foto de Juliana Villeroy

 

Os moradores da Alegria, preocupados com questões de saúde, tentam manter contato direto com a CMPC e a Prefeitura. A falta de comunicação entre os envolvidos provoca sentimento de incerteza. Carlos Santana, morador

do bairro onde a empresa está localizada, conta que não confia nas notas emitidas pela assessoria da Celulose. “Muitas vezes tivemos episódios de estrondos, incêndios e vazamentos e nas comunicações da fábrica diziam que eram procedimentos de rotina ou acontecimentos normais. Um incêndio ou vazamento numa empresa tão grande e próxima de residências não pode ser tido como normal e corriqueiro”, afirma Carlos.

Ao todo, 10 bairros são atingidos diretamente pelos problemas causados pela empresa. As residências mais próximas da fábrica ficam a 12 metros. No ano de sua instalação em Guaíba, a então Borregaard era a única construção no local, não havendo casas nas proximidades. Logo em seguida, os próprios funcionários contratados para trabalhar no local começaram a se estabelecer nos arredores. Com o tempo, as residências foram aumentando, o comércio também sem estabeleceu no local e os bairros foram crescendo. Atualmente, quase 30 mil pessoas moram nas proximidades.

Desde 2012 a CMPC está em processo de expansão e tem provocado diversas discussões na cidade. A empresa fechou uma via pública e comprou uma área residencial, totalizando atualmente 214 mil hectares de terras. O trânsito sofreu diversas modificações após a expansão, algumas vias foram fechadas e outras foram criadas já com asfaltamento e sinalizações melhoradas.

Segundo informações da Brigada Militar, aumentou em 44% o número de acidentes de trânsito no entorno da empresa. “Eu acredito que a população deveria ter sido consultada ou, pelo menos, feito parte de todo esse planejamento. Para quem entra e sai dos bairros da Zona Sul tem apenas aquela entrada e qualquer acidente ou imprevisto impossibilita quase 30 mil pessoas de saírem ou chegarem em casa”, destaca o sargento da Brigada Militar, José Quadros.

 

Impactos ambientais

Desde os primórdios da fábrica, ambientalistas discutiam seus impactos. Como forma de amenizar os danos, a CMPC vem investindo ao longo dos anos em processos mais limpos e não agressivos ao meio ambiente. Conforme registrado pela Fepam, a emissão de gases poluentes vem diminuindo. Em entrevista com Vanessa Rodrigues, da Fepam, ela ressalta que o órgão mantém forte fiscalização no local. “Sempre que constatamos alguma irregularidade, nós emitimos a nota e a empresa paga uma multa correspondente, contando como agravante cada vez que se repete”, conta Rodrigues.

 

cmpc4Incêndio atinge CMPC. Foto de Juliana Villeroy

Em fevereiro deste ano, muitos guaibenses ficaram assustados com os barulhos emitidos pela fábrica. Mais tarde, outro susto: um incêndio atingiu as dependências da empresa. Como resposta a assessoria de imprensa da CMPC divulgou que se tratava de situações isoladas, que foram rapidamente controladas. Vizinho da fábrica e presidente da Associação de Moradores da Alegria, Túlio Carvalho conta que, mesmo através de uma associação, nunca conseguiu um retorno concreto da empresa. “Sempre que tentamos o debate ou tentamos apenas entender, eles não nos respondem, respondem muito tempo depois ou amenizam com frases prontas e respostas vazias”, ressalta o presidente.

Funcionário da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Heverton Lacerda tem sido ativo na luta contra a fábrica de celulose. O órgão tem atuado no município de Guaíba com o apoio da Associação de Moradores da Alegria, na tentativa de promover melhorias quanto aos impactos ambientais causados pela empresa. “Mantemos essa parceria com o Túlio e o pessoal da Associação, porque queremos que algo seja feito de fato e ninguém melhor que a população mais atingida pra nos ajudar”, conta Heverton.

Outro ponto semelhante entre Agapan e Associação, é o fato de que tanto um quanto o outro não confia na relação entre a CMPC e a Fepam. “Acredito que há muito mais ali do que imaginamos. Tudo que envolve dinheiro é perigoso, meio ambiente não deveria ser uma questão financeira. Acho que a Fepam faz vista grossa pra muitas coisas erradas ali”, finaliza Lacerda. Túlio divide a mesma opinião. “Não tem como a Fepam não ter conhecimento dos erros graves dessa empresa. Eles fecham os olhos porque lhes convém, certamente”, afirma o presidente da Associação.

 

O que diz a empresa

De acordo com nota enviada pela assessoria de imprensa da CMPC, “a fábrica tem investido em melhorias para causar menos impacto negativo no meio ambiente e está em constante adequação para melhor conviver com os moradores dos bairros próximos”.

 

O que diz a Prefeitura

Já a Prefeitura de Guaíba destaca que além da geração de ICMS, a empresa também trouxe melhorias para a estrutura da cidade. O secretário de Planejamento Urbano, Jefferson Santos, conta que a Celulose Riograndense investe, em contrapartida social, frequentemente em obras importantes para o município. “Temos o maior exemplo que é o envolvimento da empresa na construção do nosso Hospital, em que investiram mais de 1 milhão de reais para que a obra fosse concluída e agora investiu mais 500 mil para adequações”, ressalta.

 

cmpc5Ruas asfaltadas pela CMPC. Foto de Juliana Villeroy

Além disso, a empresa promoveu melhorias como asfaltamento, paisagismo e reformas nas escolas municipais, assim como a realização de projetos sociais como a fábrica de gaiteiros. Em números, quase 40 ruas foram asfaltadas, 27 escolas receberam algum tipo de reforma ou equipamentos como computadores e ar condicionado, 130 crianças são atendidas pelo projeto dos gaiteiros e mais de 15 canteiros e rótulas foram revitalizadas com paisagismo.

Para os próximos anos, a fábrica pretende investir na melhoria dos bairros que a rodeiam, além de realizar a revitalização dos balneários da Alegria e da Florida, antes utilizados por banhistas.

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