· · ·

Jornalismo Ambiental

Energia solar: um potencial brasileiro pouco explorado

ES 01

Inesgotável. Esta é a palavra que define a energia solar, uma fonte insólita se comparada com todas as outras fontes de energia. É umas das formas de produção de energia com menor impacto ambiental, pois, não polui durante sua utilização e os detritos gerados durante a fabricação dos equipamentos necessários para seu uso são recicláveis ou ecologicamente descartáveis. Ela também não influencia no efeito estufa e não tem a necessidade de utilização de turbinas ou geradores como ocorre, por exemplo, com as usinas termelétricas e hidrelétricas.

Entre outras vantagens, existem fatores como: a rápida instalação, a não necessidade de investimento em linhas de transmissão e distribuição de energia e consequentemente a redução de perdas nessas transmissões, já que a eletricidade é consumida onde é produzida.

A energia solar basicamente consiste em dois tipos de energia: a térmica que consiste na transformação da energia do sol em calor, através de coletores solares, para a utilização no aquecimento de água. E, a geração solar fotovoltaica, que é a conversão direta, através de módulos solares, em eletricidade.

Segundo o Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas na América latina (IDEAL) o Brasil possui um enorme potencial para gerar eletricidade a partir do sol. Para se ter ideia, a Alemanha, uma das líderes mundiais em energia fotovoltaica, na sua região mais ensolarada uma capacidade 40% menor do que na região menos ensolarada do Brasil.

Além de todo o potencial de radiação solar, o Brasil ainda possui uma das maiores reservas de silício do mundo, principal matéria-prima para produção das placas fotovoltaicas. Com tantas qualidades e toda essa potencialidade brasileira imaginar-se-ia ter o país uma robusta produção desse tipo de energia, certo? Errado. Na prática a história é bem diferente.

Embora privilegiado, o país não possui um parque tecnológico e industrial para refinar o silício e nem para produzir as placas. Para isso, seria preciso investir em pesquisas para purificação do silício até o chamado grau solar, que é superior ao do silício empregado na siderurgia, principal uso do silício brasileiro. Hoje o Brasil exporta o silício bruto e, posteriormente, importa as placas.

A energia solar como fonte de geração elétrica ainda engatinha, enquanto opção energética, no Brasil. Conforme dados da Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL – apenas 0,01% da matriz energética brasileira é composta por energia solar fotovoltaica, geradas por 45 usinas em operação. As maiores geradoras de energia elétrica no país são as hidrelétricas que produzem, em 1266 usinas, 61,5 % da energia consumida pelos brasileiros. Na sequência vem a energia de origem fóssil como gás natural com 8,11%, petróleo 6,25% e o carvão mineral 2,32%, entre outros, ao todo, as fontes fósseis geram 16,8% da energia consumida. Em terceiro vem a energia que utiliza a biomassa (etanol, carvão vegetal, bagaço de cana de açúcar, biogás, etc) como matéria prima, com 8,7% .

 

A matriz energética brasileira em números

ES 02 fonte ANEELFonte: ANEEL

ES 03 Fonte ANEELFonte: ANEEL

ES 04 Fonte ANEELFonte: ANEEL

 

Há esperanças

Apesar do cenário pouco alentador o engenheiro Mauro Passos se mostra otimista em relação ao futuro da energia fotovoltaica no país. “A maior dificuldade sempre foi o preço e que por sinal vem caindo. Acho que as dificuldades estão sendo superadas, avançamos bastante”, destaca o presidente e um dos fundadores do IDEAL . Ele ainda lembra que há muito pouco investimento público em projetos dessa área e que a maioria dos investimentos vem de setores privados.

A explicação para o baixo investimento em energia fotovoltaica advém do alto custo para sua implantação. Segundo o relatório anual do Instituto Ideal - O mercado brasileiro de geração distribuída fotovoltaica: Edição 2016 - o valor médio cobrado por instaladores no Brasil foi de R$ 8,58 por Watt pico (Wp) instalado, o que equivaleria ao um investimento de R$ 17.160, em média, para atender à demanda energética de uma casa de dois quilowatt pico (2kWp), por exemplo.

O investimento é alto, e o retorno demorado, cerca de 8 à 9 anos, segundo o técnico em eficiência energética Matheus Ribeiro. Ele acredita que ainda falta nos brasileiros uma certa consciência sobre investimentos à longo prazo. Mas, que no entanto, é interessante o investimento pelo que gera de retorno. “Eu tenho amigos que pagavam R$ 500 reais de conta de luz, hoje pagam R$50”, cita Ribeiro. Os investimentos em subsídios também é algo que afasta possíveis usuários, segundo o técnico. “Hoje a linha de financiamentos ainda é muito precária, há pouco parcelamento e juros muito altos”, diz.

 

Guatambu: a estância do vinho e do sol

Embora o custo seja alto e o retorno nem tão imediato, há quem decida apostar. E apostar alto. Cerca de R$ 1,5 milhão de reais foi o valor investido por Valter José Pötter, sócio-proprietário da vinícola Guatambu, localizada em Dom Pedrito/RS, fronteira com o Uruguai, a primeira vinícola da América Latina movida 100% a energia solar.

Ao todo são 600 painéis instalados na propriedade e que também servem de cobertura para o estacionamento da vinícola. “Na região da Campanha, temos em média 3.200 horas de sol durante o ano, uma energia que chega de forma gratuita, limpa, silenciosa e inesgotável”, destaca Pötter que se mostra muito satisfeito com os resultados.

O contentamento de Pötter pode ser traduzido em números, a conta de luz da vinícola que variava entre R$ 12 mil e R$ 15 mil reais por mês foi reduzida a cerca de R$ 1,2 mil.

Além da economia no consumo de energia elétrica, o sistema também registra a redução na emissão de CO2 e tem uma previsão de retorno para o investimento em torno de oito anos.

Na estância tudo foi pensado de forma sustentável, o local também conta com uma estação de tratamento de água, reservatórios para captar a água da chuva e o aproveitamento do bagaço da uva para alimentar os animais.

ES 05 Foto Luiz Glasenapp JuniorVista áerea da Estância Guatambu. Foto: Luiz Glasenapp Junior

 

A força das residências

ES 06 Foto Caroline RietEquipamentos instalados na residência do médico Luiz Tarragô. Foto: Caroline Riet

 

Mas não apenas a indústria utiliza desse tipo de energia. Aliás, é nas residências que o uso dessa energia é mais comum. Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), até agosto de 2016 foram realizadas 4.955 conexões de energia fotovoltaica. Entre os locais com autogeração de energia, cerca de 78% foram contratadas por residências.

Em 2015 o médico Luis Fernando Tarragô resolveu implantar o projeto de microgeração de energia na própria residência. Com investimento de R$ 20 mil reais para instalação de placas solares, passou a ter uma economia de 70% nos gastos com energia. Três anos antes, quando resolveu reformar a casa, ele decidiu por planejar a economia de luz e água, com isso foi atrás de informações sobre energia fotovoltaica e armazenamento de água da chuva. “Sempre pensamos em transmitir para os nossos filhos a ideia de conscientização ecológica e optamos por tornar a informação prática”, comenta Tarragô. O médico ainda destaca a necessidade do uso consciente: “a luz tem um custo, uma demanda. Tem gente que não tem por falta de oportunidade de ter e aqueles que tem, devem preservar e usar com racionalidade”, diz. Tarragô lembra que água e luz são os maiores gastos de uma casa. “Pensamos em unir as duas coisas, reduzir os custos e transmitir para nossos filhos a ideia de economia de produtos que são caros”, diz.

 

Com a palavra o instalador

Segundo o gerente de operações da Young Energy Sistemas Fotovoltaica, Rafael Palma, a maior dificuldade hoje do mercado é a falta de conhecimento da população sobre energias renováveis e seus benefícios. Também acredita que a ausência de linhas de créditos com taxas de juros subsidiadas pelo governo sejam um empecilho para que ocorra uma disseminação desta tecnologia.

Atualmente a Young executa, por semestre, em torno de 26 projetos, sendo destes, 80% residenciais, na maioria deles em casas em construção. “Temos capacidade produtiva de entregar muito mais projetos e temos ótimas perspectivas de mercado relacionados as energias renováveis”, destaca Palma. E, ainda, lembra que outro fator determinante é o cenário político e econômico que não está favorável para novos investimentos.

 

Simulação

Aos interessados em investir nesse tipo de energia o site: www.americadosol.org/simulador/ permite ao usuário realizar uma simulação, com base em seu consumo, permitindo assim que ele possa ter uma noção básica da potência necessária para atender a demanda energética de sua residência ou empresa.

· · ·