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Jornalismo Ambiental

Alimentos orgânicos: o universo que antecede o prato principal

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Para que sejam comercializados, esses produtos precisam ter a certificação de órgãos credenciados, exceto aqueles produzidos por famílias participantes de organizações de controle social e que realizem venda direta aos consumidores.

Os produtores familiares, geralmente, estão ligados a associações, cooperativas e grupos de movimentos sociais, que representam cerca de 90% do total de agricultores, os 10% ficam com empresas ligadas a iniciativa privadas. Os agricultores familiares são responsáveis por cerca de 70% da produção orgânica brasileira e respondem por parte da renda gerada com esses produtos. O Brasil é um dos países com maior potencial para a produção de orgânicos pela sua variedade de solo, clima e biodiversidade e os estados do Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul se destacam nesse tipo de produção.

Alguns alimentos mais produzidos no país são: Cana, açúcar, soja, cacau, arroz, café; gengibre, guaraná; frutas como manga, morango, uva, pêssego, banana, tomate, entre outros. Contudo, mesmo sabendo dos benefícios, essa cultura de consumo orgânico está evoluindo de forma lenta, pois na maioria das vezes, as pessoas só passam a consumir produtos orgânicos após complicações na saúde. É o caso de Claricia Domingues, 22 anos, “Comecei a comer no meu processo de reeducação alimentar, pois minha dieta necessitava de mais produtos naturais, isto é, legumes e frutas. Logo, como muito: cenouras, alface, pepino, brócolis, gengibre e tomate.”

Claricia diz buscar os produtos orgânicos na maioria das vezes em feiras, procura saber também se é de agricultura familiar, mas atenta que, mesmo com uma lei que determina que os produtos orgânicos contenham selo de identificação, são difíceis de serem encontrados no mercado em geral. Sobre o sabor dos produtos, afirma que é mais notado em sucos a diferenças dos orgânicos “Alguns produtos são difíceis de notar a diferença pelo sabor, mas quando triturados para um suco ou algo do tipo é que conseguimos notar as peculiaridades que os produtos orgânicos possuem. Já nas carnes é nítida a diferença, parece que não tem tanta rigidez, ela conserva por mais tempo, menos gordura. Enfim, é bastante visível a diferença de um animal que foi alimentado com ração e deixado o seu desenvolvimento natural até poder abater, ao contrário quando é forçado a chegar nesse processo em um lapso temporal muito curto”, relata.

Após algum tempo de reeducação alimentar, Claricia também se diz mais leve e menos inchada. Ela acredita que também é necessária uma maior valorização da agricultura familiar, pois são os grandes produtores de alimentação orgânica, não se esquecendo da importância de uma reeducação alimentar, vendo que não é normal consumirmos produtos modificados e que interferem em nossa saúde diretamente sendo vendido em grande volume.

 

A agricultura biodinâmica

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A Agricultura Biodinâmica é uma modalidade de agricultura orgânica, iniciada pelo filósofo e educador Rudolf Steiner, em 1924 na Alemanha. Por acreditar que o homem e a natureza devem viver em harmonia, criou diversos conceitos que misturam ciência e espiritualidade. Assim, a biodinâmica é uma filosofia de trabalho e de vida. A ideia é a integração da propriedade com todos os elementos ambientais necessários, com a intenção de prevenir a deterioração da natureza.

Esse é o conceito de organismo agrícola, onde o organismo é composto por solo, água, clima, planta, paisagem, ser humano e o cosmos, outro componente da agricultura biodinâmica. Baseada também no calendário astronômico (além das fases da lua, usa outros astros, como os signos para reger os elementos da terra), a biodinâmica não utiliza adubos químicos, pois visa à renovação natural do solo.

 Através dessas práticas, devolve-se ao meio ambiente a força que foi perdida a partir do avanço da monocultura e da criação em larga escala de animais fora de seu habitat natural. A alimentação desses animais, é outro aspecto que se diferencia da agricultura convencional. As rações são produzidas na propriedade e a quantidade desses animais, deve estar em direta relação com a capacidade natural da área.

A diferença entre a agricultura biodinâmica e a agricultura apenas orgânica, é que, além de todas as práticas observadas na agricultura orgânica, ela visa também, a individualidade agrícola, procurando a associação e harmonia entre as várias atividades de uma propriedade. Para estimular as relações e forças terrestres e cósmicas que agem nas plantas, a Biodinâmica usa preparados homeopáticos feitos de minerais, esterco bovino e plantas medicinais, propiciando assim, a vitalidade dos alimentos.

O produtor Marivaldo Riva, 48 anos, explica como funciona o cuidado com o solo na agricultura biodinâmica: “O solo é um grande estômago. No momento em que nós tratarmos bem o solo, gerando uma planta bem alimentada, estaremos bem alimentados. Também utilizamos a sílica, a mesma que está presente nos chips, pois ela é uma rocha que agrega conhecimento. Nós moemos essa sílica bem fininha e enterramos num chifre de vaca. O chifre de vaca é um sinalizador que faz conexão com o universo, com o cosmo".

Para os agricultores biodinâmicos, o reino vegetal é um reflexo do que se passa no Cosmo: “Estamos trabalhando com isso há três anos e nos abriu um universo totalmente diferente. A gente trabalha com as energias do universo. Todo o ser humano pode transmitir energia. Por isso que as mães, quando os filhos se machucam, os consolam passando a mão no local machucado. Neste caso, ela está passando energia. É este mesmo cuidado que temos com as plantas”.

Também é parte da filosofia biodinâmica, que o agricultor se torne um pesquisador e esteja sempre pronto a transmitir o conhecimento e a experiência para as próximas gerações. Essa forma abrangente de consumo e cuidado com a natureza atrai pessoas que, mesmo vivendo nas cidades, longe dessas propriedades, tornam-se apoiadoras e fregueses, colaborando para a formação de mercados regionais.

A produção que sai da propriedade da família de Marivaldo, na cidade de Eldorado do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, alcança diversas pessoas através das feiras orgânicas das quais participa. Ele se diz satisfeito e consciente de que a aderência das pessoas aos alimentos orgânicos aumentará aos poucos, chegando em algum momento a ser incorporada na cultura das grandes cidades.

Em mais de 50 países a Agricultura Biodinâmica é praticada na intenção de cultivar o meio ambiente e promover a alimentação saudável. No Brasil, a Associação Brasileira de Agricultura Biodinâmica é responsável por difundir esse tipo de prática, desenvolvendo alguns trabalhos e processos para auxiliar os agricultores iniciantes e os que já estão no mercado.

Entre as atividades estão cursos, normas, consultoria e produção de preparados biodinâmicos, que são feitos em grande escala para atender uma demanda crescente de produtores interessados. Site da associação: http://biodinamica.org.br/

O selo Demeter identifica, mundialmente, os produtos biodinâmicos. Os produtos Demeter fazem parte de uma rede ecológica internacional ligada ao Demeter International, sediado na Alemanha.

 

A aquaponia

Uma solução mais leve para o bolso sem prejudicar o meio ambiente: esta é a aquaponia, uma alternativa de produção que tem revolucionado espaços rurais no país. A aquaponia é responsável por unificar a aquacultura – produção de organismos aquáticos – e a hidroponia – sistema que produz hortaliças sem o auxílio do solo. Trata-se de um modelo que começou a ser implantado nas regiões da Austrália, Ásia Oriental, Comunidade Europeia e México, onde alimentos orgânicos são produzidos tanto em escala industrial, quanto doméstica.

A aquaponia é um sistema fechado de recirculação da água, capaz de reproduzir processos naturais com precisão. Para que tudo funcione, no entanto, é preciso que três elementos básicos estejam em sintonia: hortaliças, peixes e microrganismos. A estrutura é composta, basicamente, por dois tanques. No compartimento interno são mantidos os organismos aquáticos, enquanto no externo são cultivadas as hortaliças. O excremento dos peixes é considerado uma fonte rica em nutrientes, que alimenta as plantas durante a absorção e filtragem biológica da água. Posteriormente, as hortaliças reabastecem o tanque dos peixes, concluindo, assim, o ciclo da aquaponia. Confira:

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Conheça as diferentes técnicas previstas na prática da aquaponia:

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Além de integrar duas técnicas de plantio, a alternativa é uma fonte de economia para o agricultor. É o que afirma Fagner Tafarel Campos de Sá, engenheiro ambiental e um dos diretores da AQP Brasil, empresa especializada na prática da aquaponia: “A literatura fala em até 90% de economia de água, quando comparada a agricultura convencional. Na aquaponia esse recurso é reaproveitado, não há descarte. É possível utilizar a mesma água durante todo o processo. Também não há geração de afluentes, esgoto ou qualquer tipo de detrito” conclui. 

Investimentos no presente, vantagens que mudam o futuro. De acordo com Fagner Tafarel Campos de Sá, o custo de implantação da prática varia de acordo com o perfil de cada produtor: “Dependendo das condições deste profissional, o custo de implantação pode ser ainda mais acessível. Uma vez com a estrutura pronta, basta dar continuidade a produção. Não é preciso preparar o solo, reaplicar a adubação, investir em fertilizantes e outros insumos. É algo contínuo, com base nos mesmos equipamentos” explica o engenheiro ambiental.

A adesão e somada à necessidade de desenvolver a aquaponia segue em linha crescente. Nivaldo Tavares Júnior, estudante de Educação do Campo: Ciências da Natureza pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS é um dos difusores da atividade no ambiente familiar: “Eu tenho um pequeno espaço em uma estufa caseira e movimento apenas 5.000 litros de água em meu sistema, porém consigo uma produção de 200 quilos de tilápias em oito meses. É o suficiente para abastecer a minha família que é composta por 4 pessoas durante um ano inteiro” comenta.

 

Sobre o futuro da aquaponia e o consumo de alimentos orgânicos no Brasil, Fagner Tafarel Campos de Sá destaca o custo-benefício e a lei de oferta e procura como fatores determinantes para o mercado nacional: “A aquaponia pode contribuir muito com a produção de orgânicos no país, principalmente por promover à alta-produtividade em pequenos espaços rurais” ressalta o diretor comercial da AQP Brasil.

Das mãos dos pequenos produtores à mesa do consumidor brasileiro. É através de soluções inovadoras que a alimentação orgânica sai do imaginário e se transforma, gradativamente, em realidade. Uma refeição completa capaz de alimentar não somente a economia, mas também a saúde e o bem-estar de toda a sociedade.

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