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Jornalismo Investigativo

A modificação e a classificação das drogas

O QUE É DROGA?

A palavra “droga”, informalmente, é usada para conceituar algo sem qualidade ou de pouca utilidade. É também um termo genérico utilizado para substâncias, naturais ou não, que provocam mudanças físicas ou psíquicas no organismo. Possuem alta capacidade de causar dependência química e por vezes até psicológica.

Na área de Farmacologia existem as “drogarias”, conhecidas assim por comercializarem medicamentos que previnem ou curam doenças. Há dois significados que diferem os tipos de drogas.

 

DROGAS LÍCITAS E ILÍCITAS

  • DROGAS LÍCITAS

As drogas lícitas são as permitas para consumo e encontradas facilmente no comércio. Como por exemplo: bebidas alcoólicas, tabaco (cigarro) e medicamentos que possuem tarja preta na embalagem.

  • DROGAS ILÍCITAS

Em geral, a expressão “droga” se refere às substâncias ilícitas, isto é, proibidas por lei e/ou ilegais que causam dependência química e afetam diretamente o sistema nervoso central, modificando as sensações e o comportamento de indivíduos. Se usadas em excesso, podem levar à morte por overdose.

Pode-se considerar três classificações de tipos de drogas.

 

CLASSIFICAÇÕES DE DROGAS ILÍCITAS

Chamadas também de entorpecentes e narcóticos, podem ser:

  • NATURAIS

Geradas a partir de plantas. Exemplos: Maconha extraída da planta Cannabis Sativa, Ópio extraída da flor da Papoula.

No cinema, o filme “Meu Nome não é Johnny” ilustra perfeitamente o uso indevido de drogas. O personagem principal, João Guilherme conhecido como “João Estrella”, interpretado pelo ator Selton Mello, experimentou precocemente a maconha e depois passou a consumir cocaína.

Com o passar do tempo, comprava cocaína para uso próprio, porém, começou a vender apenas para “conhecidos” e virou um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro. Além de cocaína, ele também vendia maconha. Essa história é baseada em fatos reais e, hoje, o João Estrella palestra pelo Brasil contando sua história de vida.

  • SEMISSINTÉTICAS

Produzidas de drogas naturais, porém, passam por processos químicos em laboratórios. São elas: cocaína, crack, heroína, entre outras;

  • SINTÉTICAS

Drogas totalmente preparadas em laboratórios, seguindo métodos e técnicas específicas. Exemplos: ecstasy, LSD, anfetaminas, sucesso e etc.

 

DROGAS ILÍCITAS NO BRASIL

As drogas mais popularmente conhecidas e que há muitos anos movimentam o tráfico no Brasil, são: a maconha, a cocaína e o crack. A maconha, assim como o crack, é um dos entorpecentes mais consumidos no país devido ao baixo custo e ao fácil acesso.

Depois de diversos questionamentos sobre o uso medicinal da maconha e em alguns lugares no mundo como no Uruguai e Holanda a droga ser legalizada, no Brasil é proibido fumar. Em 2014, o Ibope fez uma pesquisa e constatou que 79% da população brasileira é contra a legalização da maconha.

O que está em jogo desde 2011 é a constitucionalidade do artigo 28 da Lei Antidrogas (11.343/2006), que trata das penas para quem for pego portando ou consumindo alguma substância ilícita e/ou cultivando maconha para consumo próprio. Desde 2006, a punição para esse tipo de crime se limita a penas alternativas, como a prestação de serviços para a comunidade. Esse é um assunto muito complexo que se tornou alvo de grandes discussões.

O médico André Kohmann, psiquiatra da infância e adolescência da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, fala sobre a maconha: “esta droga revelou-se muito perigosa pelo fato de ser comprovadamente um gatilho para doenças mentais incuráveis, como esquizofrenia ou doença bipolar, caso o usuário tenha genética propícia para tal”.

Já a cocaína, droga que pode ser cheirada ou injetável é derivada da planta chamada Erytroxylon coca. É bastante consumida e também forte atuante no mundo do tráfico.

Em junho de 2015 foi divugada uma pesquisa pelo Escritório de Drogas e Crimes da Organização das Nações Unidas informando que o consumo de cocaína no Brasil é quatro vezes superior à média mundial. Além disso, o Brasil superou os Estados Unidos que por anos foi líder desse ranking.

Em 2015, o Levantamento Global de Drogas, uma das mais respeitadas pesquisas online sobre o consumo de substâncias lícitas e ilícitas mundialmente, mostrou que o Brasil tem a cocaína mais forte e barata do mundo. Isso resulta em consumo excessivo e grande movimentação de compra e venda.

Para complementar, o crack é um dos entorpecentes que alavancou a mortalidade de vítimas por consumo e virou um problema social. A droga surgiu na década de 80 e é feita a partir da mistura da pasta-base de coca ou cocaína refinada, com bicarbonato de sódio e água. Essa composição se solidifica em “cristais” e resulta na chamada “pedra” pelos usuários.

O crack pode ser fumado ou aspirado. Por ser uma droga barata,  atrai usuários de baixa renda e faz com que as pessoas consumam em grande quantidade devido ao seu alto poder viciante. O alerta é que pode viciar na primeira vez.

No ano passado, o uso destrutivo do crack ganhou proporção no horário nobre da TV Globo sendo retratado na novela das 23h, “Verdades Secretas”. Larissa, interpretada pela atriz Grazi Massafera, era modelo e se perdeu no mundo do crack. Ficou magra, abatida e sem rumo na vida. Viveu na “cracolândia”, em São Paulo, em situação insalubre. O país pode ver de perto a triste realidade de um usuário de crack.

O psiquiatra André Kohmann, declara: “especificamente sobre drogas, houve uma maior inserção desse assunto na sociedade principalmente por causa da epidemia de crack, que tende a ser a mais barata e com maior potencial aditivo”.

Todas as estatísticas de consumo de drogas são alarmantes quando se tratam do Brasil que, segundo pesquisa, representa 20% do consumo mundial de crack.

É preciso tentar reverter, pois novos entorpecentes surgem a cada dia e são motivo de preocupação e insegurança.

 

DROGAS SINTÉTICAS

Há alguns anos, as drogas sintéticas como: o ecstasy e LSD, ganharam espaço com venda para usuários, geralmente, de alto poder aquisitivo. São focadas no público jovem e circulam habitualmente em boates e festas rave.

As drogas sintéticas normalmente são ingeridas por via oral/sublingual ou por via intravenosa, nasal, vaginal, retal e, também, podem ser fumadas. Devido ao pequeno tamanho do entorpecente, há facilidade de transporte de grandes quantidades e em pequenos volumes.

Em entrevista com o PhD em ciências farmacêuticas, Carlos Alberto Wayhs, ele conta quais são as novas drogas sintéticas que estão sendo produzidas atualmente: “Substâncias psicoativas que mimetizam os efeitos de drogas ilícitas e são produzidas através da introdução de ligeiras modificações na estrutura química de substâncias controladas, produzindo ações no sistema nervoso central, capazes de causar dependência”.

Ao consumir as drogas sintéticas, os principais danos ao organismo são entorpecimento sublingual, alucinações e ansiedade. Futuramente, as sequelas estão relacionadas ao efeitos tóxicos – risco de overdose, relatos de toxicidade aguda e morte. Wayhs, fala quais são os principais relatos de toxicidade: “Taquicardia, hipertensão arterial, confusão, agitação, agressividade, alucinações visuais e auditivas, convulsões [..]”, entre outros.

O avanço do tráfico de drogas sintéticas no Rio Grande do Sul, por exemplo, acontece porque virou um atrativo para os negociantes e um grande empecilho para o trabalho da polícia ou até mesmo de seguranças de casas noturnas.

Perguntamos ao P. R. (nome não identificado) de 24 anos, segurança de quatro casas noturnas de Porto Alegre há 6 anos, como os jovens se portam na noite e sobre o consumo de drogas. Ele afirma que os usuários, menores de idade, consomem entorpecentes dentro dos estabelecimentos que trabalha. P. R., ainda conclui que desde 2013 é notório o aumento de entorpecentes em festas, principalmente da droga “sucesso”.

O “sucesso”  é comercializado em cápsula através dos pequenos recipientes dos medicamentos Epocler e Sorinan. Após o usuário adquirir as embalagens com a droga, despeja a substância em uma lata de refrigerante e inala o ar. Pode custar de R$ 20 a R$ 150.

Outra droga alucinógena que está sendo bastante consumida é a “NBOMe”. Os efeitos são bastante parecidos com o LSD e age praticamente nas mesmas áreas do cérebro. É um “papel” derivado da substância feniletilamina que se coloca embaixo da língua e provoca dormência nos lábios, língua, dentes causando formigamento. Muito prejudicial à saúde. Whays esclarece qual o caminho dessa droga no corpo humano.

Os números de tráfico de drogas sintéticas só aumentam e a realidade ainda é preocupante de vidas que se perdem tão cedo. A conscientização é o primeiro passo.

 

USAR ENTORPECENTE É UMA DROGA

A genética não determina se algum paciente será dependente ou não, mas influencia. Tornar-se ou não está mais na interação gene-ambiente.

Segundo Kohmann, a maioria dos estudos concorda com a teoria da “Comorbidade Psiquiátrica”, isto é, grande parte dos usuários apresenta critérios diagnósticos para outros transtornos psiquiátricos comórbidos que podem, de alguma maneira, “facilitar” a busca de determinados tipos de drogas.

Sobre o consumo de cocaína, por exemplo, há alta prevalência de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade na infância não tratado. Ou então, em paciente com fobia social e outros transtornos ansiosos, uso abusivo de álcool.

O consumo de drogas é abusivo quando o usuário começa a ter sintomas de abstinência e passa a usar a droga não pelo “barato”, mas para diminuir esse desconforto. Os maiores riscos, mesmo para quem usa entorpecentes tidos como mais leves, consistem em diminuição de cognição, demência secundária a uso de drogas e psicose crônica.

Quando perguntando ao médico André Kohmann, também, mestrando em psiquiatria pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre, qual o paciente mais difícil de tratar ele não exita: “certamente é aquele com transtornos psiquiátricos comórbidos (frequentemente há mais de um no mesmo paciente), aqueles com famílias de comportamento caótico/desorganizado/com alta taxa de emoções expressas sem funcionamento conciliador, os que tem transtorno de personalidade”.

E, fica o grande alerta do profissional: “a fissura por qualquer droga pode aparecer sem aviso prévio mesmo após anos de abstinência”. Por isso, a importância de prevenir e jamais experimentar qualquer tipo de entorpecente. É um caminho perigoso que pode destruir vidas.

 

ONDE PROCURAR AJUDA PARA O TRATAMENTO DE RECUPERAÇÃO DE DEPENDENTES QUÍMICOS:

Caso você seja dependente ou conheça algum usuário, procure o tratamento:

  • Unidade Álvaro Alvim, localizada no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, especializada em drogadição; Rua Professor Álvaro Alvim, 400 – Rio Branco, Porto Alegre, (51) 3359-6410
  • Hospital Conceição, uma internação psiquiátrica especializada em meninas usuárias de crack. (51) 3357.2206

Observação: O tratamento de ambos é multiprofissional – uso de medicação para esbater sintomas de abstinência, internação psiquiátrica quando necessária + tratamento da psicopatologia de base, terapia cognitiva (para treinar ficar longe da droga), psicoterapia em grupo e terapia de família.

 

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Cenas do filme “Meu Nome Não É Johnny”

 

Grazi Massafera na novela “Verdades Secretas” como a viciada em crack Larissa:

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Grazi Massafera drogada

Grazi Massafera e namorado

Grazi Massafera 01

Grazi Massafera

 

ENTREVISTA COM O PSIQUIATRA DA INFÂNCIA E DA ADOLESCÊNCIA DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE PORTO ALEGRE E MESTRANDO EM PSIQUIATRIA PELO HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE, ANDRÉ MOURA KOHMANN:

1) AUMENTOU A PROCURA POR MÉDICOS/ESPECIALISTAS DE UM TEMPO PARA CÁ?

De maneira geral, fala-se mais sobre tratamentos psiquiátricos há alguns anos. Especificamente sobre drogas, houve uma maior inserção desse assunto na sociedade principalmente por causa da epidemia de crack, que tende a ser a mais barata e com maior potencial aditivo (i.e., viciante) maior que as outras.

2) QUAL O MAIOR DANO PSIQUIÁTRICO/PSICOLÓGICO A DROGA PODE CAUSAR (PODE ESCOLHER E SE REFERIR A UMA SÓ DROGA)?

Os maiores riscos, mesmo para quem usa drogas tidas como mais leves (como canabis) consistem em diminuição de cognição, demência secundária a uso de drogas (inclusive com alteração visível do encéfalo nos exames de neuroimagem), psicose crônica (i.e., alucinações auditivas ou visuais, e/ou delírios de perseguição etc). O próprio fato de a substância causar adição já é bastante deletério por si só, pois a fissura por qualquer droga pode aparecer sem aviso prévio mesmo após anos de abstinência. Ainda sobre a canabis – esta revelou-se muito perigosa pelo fato de ser comprovadamente um gatilho para doenças mentais incuráveis, como esquizofrenia ou doença bipolar, caso o usuário tenha genética propícia para tal.

3) QUAL O TEMPO MÉDIO DE USO DE DROGAS PARA ALGUÉM SE TORNAR DEPENDENTE?

Depende da droga. Crack, por exemplo, pode viciar na primeira vez.

O uso começa a se transformar de abusivo para dependente quando o usuário começa a ter sintomas de abstinência, e passa a usar a droga não pelo “barato”, mas mais para diminuir esse sintoma desconfortável.

4) QUAIS OS PRINCIPAIS MOTIVOS QUE FAZEM JOVENS USAR DROGAS?

A maioria dos estudos concorda com a teoria da COMORBIDADE PSIQUIÁTRICA: a maioria dos usuários apresenta critérios diagnósticos para outros transtornos psiquiátricos comórbidos que podem, de alguma maneira “facilitar” a busca de determinados tipos de drogas.

Por exemplo: existe, entre usuários de cocaína, prevalência alta de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade na infância não tratado. Ou então, em paciente com fobia social e outros transtornos ansiosos, uso abusivo de álcool.

Ou por outra: intervenção precoce de TDAH com ritalina e atendimento pedagógico protege os pacientes de se tornarem abusadores ou dependentes de cocaína e outras drogas em geral.

5) QUAL O PERFIL DO PACIENTE MAIS DIFÍCIL DE TRATAR?

Certamente é aquele com transtornos psiquiátrico comórbidos (frequentemente há mais de um no mesmo paciente), aqueles com famílias de comportamento caótico/desorganizado/com alta taxa de emoções expressas sem funcionamento conciliador, os que tem transtorno de personalidade comórbido (estes são doenças mais ligadas ao caráter, como o psicopata, o narcisista, o borderline…).

Não podemos esquecer os que se encontram em estágio pré-contemplativo quanto ao próprio uso –  ainda não veem o uso como problemático para si ou para terceiros com quem convive.

6) A GENÉTICA DETERMINA SE ALGUM PACIENTE VAI SE TORNAR DEPENDENTE OU NÃO?

Não determina, mas influencia. Tornar-se ou não está mais na interação gene-ambiente.

7)  COMO FUNCIONA O TRATAMENTO DE RECUPERAÇÃO DE DROGAS. (QUEREMOS FAZER UM SERVIÇO)! HÁ ALGUM CASO QUE SE RECORDE E QUEIRA CITAR?

Existe a Unidade Álvaro Alvim/HCPA, especializada em drogadição, e uma internação psiquiátrica especializada em meninas usuárias de crack no Hospital Conceição.

O tratamento é multiprofissional – uso de medicação para esbater sintomas de abstinência, internação psiquiátrica quando necessária + tratamento da psicopatologia de base, terapia cognitiva (para treinar ficar longe da droga), psicoterapia em grupo, terapia de família…

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