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Jornalismo Investigativo

Crimes virtuais: vidas reais

foto1O acesso a rede é limitado por questões de segurança

Com a facilidade do acesso às redes sociais, as pessoas passaram a viver cada vez mais conectadas, no entanto o espaço que deveria ser para diversão, se tornou também, um ambiente vantajoso para criminosos e até terroristas

 

A internet, como toda ferramenta, nem sempre é usada para o bem, algumas pessoas se aproveitam do escudo, que é a tela de um computador, para cometer cybercrimes, ou crimes virtuais. A certeza da impunidade é o que motiva e assegura a continuidade destes atos. Milhares de pessoas vêem suas vidas se modificar completamente, após ter sua privacidade invadida.

Os chamados haters, pessoas que cometem ações de ódio na internet ou apenas as compartilhem, agem às sombras do anonimato, se escondendo atrás de perfis fakes – expressão do inglês para contas falsas, para cometer os mais variados crimes. Esses usuários atacam outros internautas fazendo todos os dias novas vítimas. Os ataques são dos mais variados, como de racismo, intolerância religiosa, xenofobia, homofobia, assédios às mulheres e crianças, divulgação de material confidencial, perseguição, entre outros.

 

new-piktochart_172_1ac181bc7b230d63e2fd9cc581d2e8f61d6a5328Crimes virtuais mais cometidos no Brasil

Segundo a procuradora da República, coordenadora do Núcleo de Apoio ao Combate aos Crimes Cibernéticos da PR/RS e membro do GT Nacional de Combate aos Crimes Cibernéticos, Jaqueline Ana Buffon, mais de 90 queixas relacionadas a crimes virtuais são registradas, por dia, no Brasil.

Entre os cybercrimes mais cometidos, de acordo com Jaqueline, estão a publicação e posse de pornografia infantil e de adolescentes, ameaças, cyberbulling (criação e publicação de perfis falsos, veiculação de ofensas em blogs e comunidades
virtuais), crimes de ódio e crimes de discriminação ou preconceito, entre outros. “Em 2016, tivemos também a criminalização do terrorismo no Brasil, o que tem sua face com o mundo virtual”, externou.

“A rapidez e eficiência da investigação depende muito da agilidade em que a vítima do ilícito se reporta às autoridades competentes, já que a disseminação da informação é mais rápida e a agressão (por exemplo, a foto, vídeo, ofensa e outros) pode chegar a milhares de pessoas instantaneamente”, afirma a procuradora.

A coordenadora do Núcleo de Apoio ao Combate aos Crimes Cibernéticos da PR/RS, Jaqueline chama atenção para a importância da agilidade na denúncia, pois o material muitas vezes acaba se perdendo, quando o criminoso resolve apagar ou até mesmo hackear a conta da vítima. “O que pode nos auxiliar é a colaboração das vítimas com a preservação das provas, ou seja, salvar as conversas em WhatsApp,  e-mails,  conversas em grupos de discussão ou de salas de bate-papo (chats) em que ocorreram as ofensas ou danos”, ressaltou.

Conforme a procuradora, Jaqueline, muitos autores desses crimes se protegem nos obstáculos que surgem na investigação e perseguição diante das possibilidades oferecidas pelo anonimato quando são usando servidores localizados no exterior. “Quanto maior e mais rápida a procura pelas autoridades, mais rápido poderá ser o tempo de investigação e resultado, um dos grandes motivos de agilidade, também, é o pronto atendimento dos provedores”.

 

Divulgação de material confidencial

celularcrimesvirtuaisFotos são compartilhadas diariamente por aplicativos de mensagens instantâneas

A pedagoga, Luciana Silveira – nome fictício, 27 anos, trocava fotos íntimas com um ex-parceiro, com quem manteve uma relação por um ano. Tempos depois, ele acabou vazando os chamados nudes. “Nós tínhamos uma relação de parceria e sempre gostávamos de tirar fotos de momentos de intimidade e trocar também, um certo dia meu ex-namorado manda algumas dessas fotos. Questionei sobre onde ele havia achado as imagens e ele me disse que tinha sido em um site pornô”, explicou a jovem.

Mesmo com a troca de materiais sendo consentida, o caso de Luciana é considerado crime, visto que a intimidade de outra pessoa foi exposta e sem autorização, conforme aponta o artigo 154-A, do Código Penal: “Aumenta-se à pena de um a dois terços se houver divulgação, comercialização ou transmissão a terceiro, a qualquer título, dos dados ou informações obtidos”.

Mas Luciana preferiu não denunciar o crime e tomou a ação como uma lição de vida. “Meus familiares e amigos me apoiaram e orientaram a fazer uma ocorrência, mas apenas o intimei, questionando o motivo. Ele alegou que teve o celular roubado e portanto, não era culpa dele”, contou a pedagoga.

Segundo a jovem, o primeiro sentimento que lhe acometeu foi raiva, mas depois acabou repensando seu ato. “No início foi um choque. Mas assumi o meu erro de me expor. O risco que corri foi muito alto. Acredito que fui tranquila demais por não denunciar”, conclui Luciana.

 

PRECONCEITO E DIFAMAÇÃO

foto2Facebook é uma das redes sociais que mais recebe reclamações

A estudante Carla Ew Ferreira, 18 anos, fez uma postagem no Facebook relatando sobre como é ser considerada fora dos padrões impostos pela sociedade, em relação ao peso, e sobre como as pessoas fazem comentários maldosos a seu respeito sempre a questionando o motivo pelo qual ela não emagrece. A postagem teve tamanha repercussão, que ela foi convidada a participar do Programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo, e hoje auxilia meninas do Brasil inteiro, que a procuram espontaneamente, com problemas de autoestima.

Segundo Carla, o seu humor é algo que é preservado, mesmo em situações constrangedoras. “Eu sempre fui muito extrovertida, desapegada e um pouco grossa, então quando eu passei por situações preconceituosas eu ria junto, e com isso as brincadeiras diminuíram”, afirmou ela.

Na sua postagem ela fala sobre o deboche de colegas ou desconhecidos, “teus ‘amigos’ te zoam nas tuas costas, fazem montagem com fotos tuas para debochar de ti nas redes sociais, sem contar os ‘homens’ que te chamam por meio de mensagens para rir de ti ‘e aí x bacon’”, contou a estudante.

 

123555Carla em foto publicada no Facebook

Carla recordou que nunca chegou a denunciar quem fez comentários sarcásticos a seu respeito. “Só pensei em denunciar um ‘amigo’ que fez montagens com fotos minhas e depois compartilhou pelo WhasApp. Mas acabei desistindo porque eu queria que aquela situação acabasse logo e não me arrependo”, ela ainda completa, “não tiro a razão de quem denunciou, porque cada um tem a sua forma de superar uma situação dessas. Futuramente eu não duvido que eu denuncie, mas naquela época eu ainda não tinha tanta noção do quão babaca essas pessoas são”, concluiu ela.

 

Perseguição

Mas nem todos levam uma situação como essa tão bem, a jornalista, Caroline Fernandes, 31 anos, residente de São Paulo, viu sua vida ser destruída por um perfil fake, que mandava convite no Skype e posteriormente, chegou a causar seu divórcio: “As mensagens falavam sobre meu marido, traições que ele teria cometido durante viagens de trabalho no exterior, mas ao confrontá-lo, ele sempre negou”.

Caroline recordou, que durante aquele ano continuou recebendo notificações, recados e pedidos de amizade de diversos perfis, alguns não chegavam a falar, outros a xingavam em inglês, faziam ameaças e chacotas. “No fim de 2013, recebi fotos do meu marido com outra mulher em viagem na Suíça, eu estava grávida do meu segundo filho, mas pedi o divórcio”, relembrou a jornalista.

 

mensagem-de-estrangeirosCaroline recebe cerca de 20 solicitações de amizade por dia

Após o pedido de divórcio o então, ex companheiro, voltou para o país natal, na Europa e os atentados cessaram. “Quando meu filho tinha apenas 2 meses de idade, recebi novas mensagens e pedidos de amizade no Facebook. Bloqueei todos. Até que pediram para me adicionar com um perfil usando o meu nome. Essa pessoa passou a adicionar meus amigos, ex colegas de trabalho (jornalistas), pessoas da minha igreja. Adicionava e postava conteúdos impróprios e ofensivos”, disse a jornalista.

Segundo Caroline, a página falsa, que continha seu nome, publicava conteúdo racista e xenofóbico, falando mal de latinos. A mesma página de acordo com ela, divulgou informações pessoais dela. Conforme a jornalista, esse foi o ultimato que lhe faltava para que a denúncia fosse feita. Contudo, a falta de divulgação das leis que protegem as vítimas de crimes cibernéticos, dificultou a vida de Caroline. “Quando fui, acompanhada do meu pai, fazer o boletim de ocorrência, disseram que não seria possível, pois aquela não era uma delegacia especializada. Lá eles também não me informaram que deveria ir ao cartório para registrar a perseguição online, coisa que só vim a saber 3 anos depois”, salienta.

A justiça não ajudou no caso de Caroline, que estava desesperada, isso a motivou a procurar o grupo ANONYMOUS. “Fiz um apelo para que me ajudassem a revelar a identidade do stalker. Um hacker entrou em contato comigo me avisando de que se tratava de uma mulher, polonesa, pertencente a um grupo anticristão, satanista assumida e neonazista. Me passou diversos IP’s usados por ela”, relatou a vítima.

Mas o pior ainda não havia chego, após receber uma foto do ex-marido com a namorada, no momento, buscou saber quem era a pessoa, e por meio do Google descobriu. Por fim, havia encontrado a perseguidora. Mas o mais impressionante foi a descoberta que veio depois: o ex-marido havia planejado toda tormenta por querer que ela pedisse o divórcio. Quando o marido terminou o relacionamento com a nova esposa as coisas pioraram. “A partir daí sim, minha vida se tornou um inferno. De 2014 para cá eu bloqueio cerca de 20 perfis falsos por dia. Recebo diversas mensagens de perfis do mundo inteiro”.

Não são apenas os danos morais que afetam Caroline, o psicológico da jornalista também ficou abalado. “Foi muito traumatizante e estressante. Tive síndrome do pânico, crises de ansiedade, depressão. Fiquei três vezes internada na UTI de lá para cá”, relembra.

Depois de três anos, há um processo em andamento contra o ex-marido e a mulher, onde tudo que é publicado pelos dois contra ela, é registrado e arquivado para o processo, por danos morais e perseguição de imagem que vem sendo movido pela jornalista.

Caroline conta que voltou a trabalhar neste ano, mas ainda é difícil enfrentar a comunidade, as pessoas que viram a página e perfis falsos, que sabem que além de ter sido traída, foi exposta e humilhada de diversas formas. “Estou tentando retomar a minha vida e esquecer essa história. Mas é muito difícil”, afirmou. No perfil verdadeiro da falsária, ela ainda publica provocações e xingamentos e nos falsos também. “Tenho medo de deletar meu facebook e ela criar outro com meu nome de novo. Fico presa a rede social”, desabafou.

 

Assédio sexual

Estudante de jornalismo, Alice Vasconcelos, 27 anos, foi vítima de assédio sexual e perseguição de um professor, a jovem relata que tinha aulas individualmente com operador de áudio duas vezes por semana, e numa aula esqueceu uma caderneta com anotações pessoais, na ocasião ele mandou uma mensagem para a aluna no Facebook, dizendo que ela havia esquecido e aproveitou para fazer o primeiro comentário a respeito do que estava escrito, Alice pediu para guardar a caderneta, pois pegaria no dia seguinte.

Durante a aula o operador de áudio fazia comentários de duplo sentido para a aluna, mas tudo seguia normalmente. “Quando cheguei em casa eu fui ver a minha caderneta e tinha uma anotação sobre escrever uma história para maiores de 18 anos, que eu planejava fazer. Ele anotou na mesma página, para que depois de terminado o curso, mandasse para ele revisar, e deixou o e-mail dele”, Alice acrescentou, “a partir daí ele começou a mandar mensagens no Facebook perguntando se eu tinha algum desses contos para maiores para mandar pra ele”.

O assédio teve continuidade, quando o operador começou a fazer comentários sobre o corpo da aluna, tendo como base as anotações da caderneta dela, passando a se insinuar cada vez mais, chegando a convidá-la para sair e comemorar quando o curso terminasse. “Uma noite ele mandou mensagem no Facebook querendo me chamar para jantar porque a mulher dele ia dormir fora”, comentou Alice.

A estudante como outras vítimas preferiu não se expor e acabar se prejudicando, por isso não se queixou na direção do curso. “Eu não quis denunciar porque precisava dele para finalizar alguns trabalhos, que outro operador não faria tão bem, eu tinha essa meta de aprender tudo o que eu pudesse e fazer tudo da melhor forma possível” afirmou Alice.

 

Crimes virtuais e a lei

Considerando os números crescentes de casos de crimes cibernéticos, em março de 2015 a ex-presidente Dilma Roussef incluiu no código de processo civil o uso das atas notariais, que garante que provas de crimes virtuais não sejam extraviadas. Com base neste código, a partir do momento em que a vítima registra o abuso sofrido, há a garantia de que mesmo que as mensagens virtuais sejam apagadas, após a denúncia, o registro vai servir de prova perante a Justiça em um eventual processo

Em maio de 2012, a atriz Carolina Dieckmann teve fotos íntimas divulgadas na internet e em referência ao assédio sofrido pela atriz, em 2013, foi criada a lei que leva o nome dela.  A normativa prevê pena de seis meses a dois anos de reclusão se a invasão resultar na obtenção de comunicações eletrônicas privadas, segredos comerciais ou industriais, informações sigilosas.

Com essa finalidade, foi criado na Procuradoria da República do Rio Grande do Sul, um Núcleo de Apoio aos Crimes Cibernéticos, que auxilia os procuradores da República na identificação e punição dos criminosos. O Estado fez parte do Projeto Ministério Público pela Educação Digital, em parceria com a ONG SaferNet Brasil, na qual promovem oficinas sobre o uso da internet de forma segura.

“Esse projeto trata da conscientização das crianças e adolescentes quanto aos riscos da internet, dentre os quais, o cyberbullyng, a divulgação de imagens de pornografia infantil e de adolescentes, cooptação on-line”, frisou a procuradora Jaqueline Ana Buffon.

 

Para denunciar

Para denunciar crimes virtuais, alguns estados disponibilizam de uma delegacia, telefone e e-mails próprios para isso. Em Porto Alegre, para denunciar, basta dirigir-se a Delegacia de Repressão aos Crimes Informáticos (DRCI/DEIC), localizada na Avenida Cristiano Fischer, 1440, Bairro Jardim do Salso em Porto Alegre. O espaço é dividido com a sede do DEIC. O telefone de contato é (51) 3288-9815 e o e-mail é drci@pc.rs.gov.br.

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