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Jornalismo Investigativo

Suicídio: por dia, três gaúchos mortos

old-man-in-sorrow-on-the-threshold-of-eternity“The Old Man in Sorro” – última tela de Van Gogh pintada antes de seu suicídio

Sadi sempre foi um homem quieto. Empresário, dono de uma metalúrgica em Bento Gonçalves, era um profissional dedicado. “A empresa era a vida dele”, conta a filha Melissa Olivotto, de 26 anos, que deixou o emprego para cuidar do pai quando ele foi internado para um tratamento psiquiátrico. Sadi era depressivo e apresentava surtos de bipolaridade. Durante as crises emocionais, o empresário fez algumas extravagâncias financeiras  e acabou falindo a empresa. Quando percebeu os danos causados foi tomado de vez pela depressão, não tinha vontade de sair da cama, de tomar banho ou comer.

As diversas combinações de medicação já não faziam efeito, Sadi falava em dar fim ao sofrimento, acreditava ser um peso para a família. Melissa lembra os alertas da equipe médica que tratava o seu pai, dizendo para ter atenção ao seu comportamento. “Os médicos nos orientavam para que tentássemos tirar ele de casa para passear, fazer alguma atividade leve e evitar falar justamente dessa perda (financeira). Ele (Sadi) falava muito em querer morrer, mas nunca falou em querer se matar”, conta a jovem que, nessa fase, temia pela vida do pai. Em uma quarta-feira, em dezembro de 2013, Sadi, aos 56 anos, saiu caminhando da empresa e não retornou para casa. Foi encontrado morto, no domingo seguinte, à beira da estrada RSC-470, por um motorista que havia parado no acostamento.

Assim como Sadi Olivotto, mais de 800 mil pessoas se suicidam por ano no mundo. Calcula-se que a cada 3 segundos uma pessoa tenta tirar a própria vida, sendo que a cada 40 segundos há um suicídio consumado. No Brasil a média é de uma morte a cada 45 minutos. O Rio Grande do Sul lidera o ranking nacional de suicídios.

 

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Um mal invisível, uma doença silenciosa, um tema que não é debatido. Este é o suicídio. Tratado por muitos como fraqueza, covardia e até loucura, muitas vezes é a alternativa para quem sofre calado. Os transtornos psicológicos apresentam sintomas delicados, difíceis de tratar e compreender.

É preciso identificar os sinais dados por uma pessoa com algum tipo de transtorno. Em 95% dos casos envolvendo suicídios (tentativas e efetivos) existe ligação com distúrbios psicológicos. Depressão, esquizofrenia e bipolaridade são as principais causas, porém, muitas vezes são tratadas com preconceito. Conversar e principalmente ouvir quem está passando por algum problema é essencial. O psiquiatra Bruno Guidolin, destaca alguns tipos de comportamento que merecem atenção, “Normalmente são falas do tipo ‘eu não quero mais estar nesse mundo’ ou ‘sou um peso para minha família’, além de mudanças no comportamento em razão de perda de emprego ou término de relacionamento”. 

“Cão que ladra, não morde”, diz o ditado. No entanto, quando trata-se de suicídio, o dito popular se desfaz. Cão que ladra, morde sim! Segundo Guidolin, quem sofre, não quer apenas chamar atenção, na realidade, quem fala quer ajuda, está pedindo por socorro. E o mais indicado é deixá-lo falar, às vezes o simples ouvir, pode evitar uma morte.

 

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CVV

É através da audição e da fala que o Centro de Valorização da Vida – CVV, presta ajuda a quem precisa apenas conversar, e muitas vezes, salvam vidas. Fundado em São Paulo em 1962, o centro é uma associação civil sem fins lucrativos, filantrópica, reconhecida como de Utilidade Pública Federal em 1973.

Toda a equipe do CVV é formada por voluntários, aproximadamente 2 mil em todo o Brasil, que dedicam algumas horas da semana para conversar através de atendimento telefônico ou pelo chat. Segundo a coordenadora do CVV e voluntária em Porto Alegre, Liziane Eberle, o voluntário precisa estar com o psicológico bem preparado: “Existem várias situações que podem chocar, nos colocamos ao lado da pessoa pra sentir e entender o que ela está passando”, diz.

O centro também trabalha com grupos de apoio para sobreviventes e familiares de vítimas: “É um grupo de autoajuda, não tem nenhum psicólogo. Conversam entre eles, relatam essa dor que incomoda. A gente acredita na tendência construtiva da pessoa, enquanto ela falar tudo o que sente, quantas vezes precisar, ela começa a organizar as ideias e achar uma solução, uma saída”, relata Eberle.

Segundo Eberle, o CVV junto com outros órgãos do estado se reúnem mensalmente em busca de construir uma política pública de prevenção ao suicídio: “Queremos montar uma rede onde as pessoas cheguem e sejam notificadas, que eu perceba o caso, possa encaminhar, chamar a família e que haja um acompanhamento”, afirma.

No Brasil, o CVV deu início a campanha de prevenção ao suicídio em 2014, com o Setembro Amarelo, junto ao Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Durante todo o mês de setembro é divulgada a campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, para alertar a população a respeito da realidade do tema no Brasil e no mundo.  O movimento recebe uma atenção especial no dia 10 do mesmo mês, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Para Liziane Eberle, o tema suicídio ainda é um tabu: “As pessoas não querem falar, preferem dizer que morreu de ataque cardíaco. O Setembro Amarelo é um filhotinho. As pessoas não querem falar, mas nós falamos”, ressalta.

 

Perfil e tratamento

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O suporte de quem escuta e aconselha é fundamental, entretanto, a ajuda profissional é muito importante. Na maioria dos casos o uso de medicações é necessário, além de acompanhamento psiquiátrico. Um diagnóstico bem apurado, com várias sessões de terapia e conversas com a família, são algumas das ferramentas utilizadas pela psiquiatria, na busca de avaliar qual risco o paciente pode oferecer à própria vida. Quando isso não é suficiente, é preciso pensar em internação. Guidolin afirma que pacientes com maior propensão ao suicídio precisam de tratamento mais efetivo:  “Onde fiquem mais protegidos pelo ambiente”, conclui. É preciso maior atenção com quem já tentou o suicídio, pois o índice é maior em casos de reincidência. Dados apontam que pessoas entre 15 e 29 anos são as que mais tentam, tendo a cada 20 tentativas 1 suicídio. Porém, os mais velhos têm maior efetividade, ocorrendo uma morte a cada duas tentativas.

A relação com as drogas também traz prejuízos para quem sofre de algum transtorno psiquiátrico. Jovens com depressão costumam aliar o uso de medicações com álcool ou drogas ilícitas, podendo passar por surtos psicóticos, que aumentam o risco de morte. Também existem tratamentos que ocasionam efeitos colaterais, como as medicações para acne ou corticóide. Estudos feitos no Reino Unido comprovaram que o uso de Roacutam – famoso no tratamento de acne – pode causar depressão. “Os profissionais que indicam esses tratamentos aos seus pacientes precisam alertar sobre os efeitos, recomendando a procura por ajuda psiquiátrica em caso de mudanças de comportamento”, destaca Guidolin.

Os agrotóxicos são outro exemplo de substâncias ligadas à depressão. Na região central do Rio Grande do Sul, diversas famílias vivem da plantação de fumo, que necessita de defensivos para um bom cultivo. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em pesquisa realizada na região fumageira, relatou a chance de aumento dos casos de depressão onde eram usados agrotóxicos organofosforados. Segundo o estudo, 20% dos 100 agricultores entrevistados sofriam de depressão.

Os maiores índices de suicídio na região estão nas áreas rurais, de acordo com o psiquiatra Guidolin, o contato com as substâncias tóxicas pode trazer problemas neurológicos que, aliados à pressão do trabalho e questões financeiras, podem resultar em suicídio.

 

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A dor de quem fica

screenshot_20161119-205401Cristiane perdeu a mãe aos 17 anos, vítima de suicídio

Para quem fica, a dor da perda é somada ao sentimento frustrante de não ter ajudado. Cristiane Santana, de 26 anos, viveu essa sensação traumática na adolescência. Quando tinha 17 anos, foi visitar a mãe em seu trabalho, ela era empregada doméstica, em um apartamento no décimo primeiro andar de um prédio, em Porto Alegre. Era um dia ensolarado, e a jovem foi admirar a vista em uma janela. De repente, sua mãe chegou por trás e tentou lhe empurrar. Assustada, gritou e conseguiu se soltar, fugindo do local. Naquele período, Cristiane já não suportava o comportamento estranho da mãe, que vivia com medo de tudo e afirmava ser perseguida por alguém. A jovem lembra que era difícil conviver com aquela situação, chegou inclusive a tentar dar um fim: “Minha mãe me pressionava com essa questão de perseguição. Um dia tomei produtos químicos e remédios. Não queria morrer, queria ter paz”, revela.

No dia seguinte à visita tumultuada, Cristiane foi informada que sua mãe havia se jogado pela janela, minutos após ela ter deixado o prédio, durante um surto psicótico. Ela sofria de esquizofrenia, mas a filha não sabia. A jovem precisou de acompanhamento psicológico por um tempo, sentia-se culpada. “Se não tivesse saído e fechado a porta. Fica uma dor de não ter conseguido fazer nada”, lamenta Cristiane. Hoje, ela entende a situação e não se pune, pois sabe que a mãe tinha uma doença séria e necessitava de um tratamento rigoroso. Seu interesse agora é acabar com o silêncio sobre o tema.

 

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