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Jornalismo Ambiental

Riscos, processos e alternativas para o lixo eletroeletrônico

Até 2021, 52,2 milhões de toneladas métricas (Mt) de lixo eletroeletrônico serão geradas no mundo. O dado faz parte do relatório, divulgado em 2017, pela União Internacional de Telecomunicações da Organização das Nações Unidas (ONU) e ISWA – InternationalSolidWasteAssociation (Associação Internacional de Resíduos Sólidos). Se de um lado a produção cresce ano a ano, de outro, alternativas são criadas para frear os riscos que os equipamentos eletroeletrônicos oferecerem à saúde humana e ao meio ambiente. Um dos exemplos é o projeto Sustentare, do poder executivo do Rio Grande do Sul, através da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG).

Vinicius 1Assim como o lixo doméstico, os resíduos eletroeletrônicos são descartados de forma equivocada. Foto: Vinícius Domingues / Multiverso IPA

Conforme a ONU, em 2016, o volume deste tipo de lixo chegou a 44,7 milhões de toneladas, sendo que apenas 8,9 milhões (20%) foram recicladas. O projeto Sustentare, desde 2017, reciclou 180 toneladas de resíduos eletroeletrônicos oriundos de 76 órgãos públicos estaduais. Muito além de reciclar, a iniciativa gaúcha promove a inclusão social de jovens em vulnerabilidade e oportuniza a geração de trabalho e renda a mulheres do Sistema Prisional.

O coordenador do projeto, César da Silva Telles, que atua na Procergs, Unidade Executora do Programa (UEP), explica a origem. “Na realidade, a preocupação com a gestão ambiental não nasceu com o Sustentare. Ela é uma preocupação que veio a partir da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que acabou consolidando um decreto que estabelece as premissas para que todo o Brasil pudesse se adaptar a uma questão crucial, a preservação do meio ambiente”.

Vinicius 2César (esquerda) juntamente com os colegas que atuam na UEP. Foto: Vinícius Domingues / Multiverso IPA

No Rio Grande do Sul, ao longo dos últimos três governos, a partir de um conjunto de leis e projetos, chegou-se até o Sustentare, criado pelo Decreto nº 53.307/2016.O programa surgiu visando à regularização e normalização de todo o descarte de eletroeletrônicos de órgãos estaduais, impedindo que os materiais fossem descartados de forma inadequada no meio ambiente. A iniciativa conta com três trilhas, para as quais os equipamentos são encaminhados: doação (ociosos), recondicionamento (recuperáveis) e descaracterização (inservíveis).

Vinicius 3Foto: Ilustração / Vinícius Domingues / Multiverso IPA

O engenheiro químico Mário Rogério Kolberg Soares, que atua há 36 anos na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (FEPAM-RS), considera alternativas como o projeto gaúcho, de extrema importância. “Muito antes da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que impõe a responsabilidade à cadeia de distribuição, o compromisso pela destinação adequada do resíduo é de quem gera. Seja uma empresa privada ou pública. Então, o estado é responsável sim, por todos os eletroeletrônicos que descarta, como gerador de resíduos”, afirma.

Mário também pondera sobre pontos que dificultam a execução da logística reversa, instituída através da PNRS, Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, e seu regulamento, Decreto Nº 7.404 de 23 de dezembro de 2010. Ele destaca que a medida encontra barreiras em questões burocráticas.


Soares também acredita que a logística reversa deve principalmente atender os consumidores, que estão totalmente desprotegidos em relação à destinação correta dos resíduos. “Eu, como FEPAM, não consigo controlar o consumidor final. Uma empresa, eu posso licenciar, solicitar o plano de geração de resíduos e cobrar o encaminhando adequado. Mas como eu vou cobrar de pessoas privadas? É para eles que veio a logística e o acordo setorial”, pondera.

De acordo com a ISWA, o Brasil ocupa a segunda posição entre os países do continente americano, que mais geram lixo eletroeletrônico, com 1,5 milhões de toneladas, somente em 2016. O primeiro colocado do ranking é os Estados Unidos, que produziu 6,3 toneladas. Na contramão, o Sustentare em apenas um ano, capacitou aproximadamente 300 colaboradores, que auxiliam na baixa patrimonial dentro das repartições.

Os treinamentos não contribuem somente na destinação para uma das trilhas, mas também na conscientização e educação ambiental. “O nosso objetivo também é inspirar as pessoas! Recentemente, participei do primeiro Congresso Sul-americano de Responsabilidade Ambiental, que aconteceu em Gramado. Lá, apresentamos o programa e eu conheci outras experiências. Cada vez mais, esse intercâmbio gera um consciente coletivo, que está baseado na importância de ter um cuidado maior com o meio ambiente, pois já começamos a sentir na pele as consequências disso”, afirma César.

Para o engenheiro químico, a mudança do atual cenário está diretamente ligada ao caminho de educar a população. “Eu quero devolver, mas aonde eu levo? Por isso, precisamos dos ecos pontos, que a princípio poderiam estar nas redes de lojas que comercializam esses equipamentos, que estão na cadeia de distribuição. Precisamos de um grande trabalho de conscientização sobre o descarte do lixo. As pessoas precisam ter o conhecimento que o lixo eletroeletrônico não pode ser descartado em qualquer lugar, porque ela também coloca em risco a própria saúde. Se o primeiro elo, que é o consumidor, for quebrado, o restante não anda”, explica.

Vinicius 4Mário Soares. Foto: Vinícius Domingues / Multiverso IPA


Os vilões invisíveis no lixo eletroeletrônico

“O eletroeletrônico hoje é considerado um dos lixos mais tóxicos, porque muito metal pesado é utilizado na produção. É importante evitar que isso chegue ao solo e lençóis freáticos”, explica Telles ao lembrar que os equipamentos vão muito além do plástico, vidro, ferro, fios e outros elementos que fazem parte da montagem.

O engenheiro químico da FEPAM, explica porque os metais pesados como chumbo, cádmio, níquel e berílio, encontrados nos circuitos eletrônicos, trazem riscos quando descartados de maneira irregular. “Se tudo isso for descartado no meio ambiente, ali vai ficar. Os metais não têm como se decompor, então irão contaminar o solo, as águas superficiais e subterrâneas. Será preciso então, uma investigação no solo para descobrir a extensão de toda a contaminação, para depois, promover a atividade de remediação ambiental”, explica.

Vinicius 5Os metais pesados e preciosos estão concentrados nas placas que ficam na parte interna dos aparelhos. Foto: Vinícius Domingues / Multiverso IPA

É comum encontrar espaços que se tornam depósitos de resíduos, principalmente em localidades retiradas de áreas urbanas. Soares considera que esse tipo de atitude põe a saúde humana em risco e torna evidente a falta de conhecimento sobre o assunto. “Muitas vezes, alguns metais são metilados por bactérias e dessa forma, são absorvidos pelas raízes de vegetais e migram até mesmo para dentro do vegetal. Eles ficam depositados na raiz, no caule, nas folhas e às vezes em gramíneas, dependendo do capim existente na área. Vamos supor, que os animais acabem ingerindo a vegetação, esse metal irá voltar para ao ciclo de vida do animal contaminando a carne, o leite, enfim”, explicou.

Vinicius 6Segundo o relatório da ONU, os eletroeletrônicos são divididos em seis categorias. Foto: Ilustração / Vinícius Domingues / Multiverso IPA

O coordenador do Sustentare, César Telles, destaca que uma das funções do programa é evitar que esses danos sejam causados à natureza. “Eu diria que, um dos objetivos desta ação é não permitir a contaminação do solo e dos lençóis, por descarte irregular de eletroeletrônicos de órgãos públicos estaduais. Ela visa senão eliminar, minimizar ao extremo esses riscos. No momento em que eu tenho controle e dou a destinação correta de tudo, eu estou garantido isso”, afirma.


Responsabilidade ambiental que transforma realidades sociais

Além da preservação do meio ambiente, a iniciativa criada no Rio Grande do Sul, desempenha importante papel social. Dentro das três trilhas de destinação dos materiais, duas contribuem na geração de oportunidades de trabalho, renda e aprendizados. No bairro Rubem Berta, na Zona Norte de Porto Alegre, é realizado o processo de recondicionamento dos equipamentos eletroeletrônicos oriundos de repartições do Estado. De acordo com Telles, o trabalho é desenvolvido em uma planta dentro do Polo Marista, beneficiando 270 jovens por ano. Durante esse período, eles recebem conhecimento sobre área de computadores e colocam em prática tudo que aprenderam.

Vinicius 7Jovens acompanhando uma das oficinas. Foto Divulgação / Marista

Para Telles, a medida é essencial na criação de um novo ciclo. “O bairro Rubem Berta tem um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano do Rio Grande do Sul. Através dos equipamentos que chegam por nós, o Estado funciona como um fornecedor de insumo para a teoria e prática deste processo. Movimenta-se uma roda, gerando conhecimento, oferecendo uma condição de emprego e renda para essas pessoas”, comenta.

Na trilha de recondicionamento, a cada três computadores que vão para o bairro Rubem Berta, um é reconstituído. Esse equipamento volta ao programa e então, fica à disposição para doação. Quando doados, a entidade beneficiada assina um documento garantido que é responsável pelo uso e destinação correta do material. Segundo Telles, isso faz parte do processo de controle. “Caso esse equipamento seja encontrado em um bingo ou é jogado fora, eu tenho o controle pelo número de série. Ou seja, sabemos de onde veio e para onde ele vai”, afirma.

Considerada o fundo do poço dos eletroeletrônicos, a trilha de descaracterização também é responsável por abrir portas. Os equipamentos que não podem ser aproveitados nas duas primeiras trilhas (doação e recondicionamento) são encaminhados ao Presídio Estadual Feminino Madre Pelletier, em Porto Alegre, para que ocorra o processo de desmonte das peças de cada ativo. Ao todo, são separados 12 elementos: ferro, alumínio, cobre, latão, parafusos de liga, placas separadas por cor, plásticos, chapas tipo raio X, silicone, pilhas, baterias e vidro.

Vinicius 8Apenadas atuando no desmonte dos equipamentos. Foto: Divulgação / Sofia Wolff/Palácio Piratini

O trabalho é realizado por dez apenadas, que receberam treinamento de uma empresa contratada pela Superintendência dos Serviços Penitenciários (SUSEPE). Posteriormente, cada elemento é enviado ao local adequado. A iniciativa gera renda às presas, através do valor arrecadado com a venda dos materiais. E claro, redução na pena pelos dias trabalhados. De acordo com Telles, o projeto é modelo e pode ser ampliado para receber até 40 mulheres.

Com o benefício social, Telles ressalta mais uma vez a responsabilidade ambiental em todo o trajeto dos aparelhos. “O diferencial do programa é esse. Eu mando os elementos para os lugares certos. Não é só a destinação adequada, mas principalmente com a finalização dele. A nossa equipe controla tudo. Temos essas licenças operacionais e ambientais para a empresa que irá fazer o trabalho. Fazemos o controle até o final do trabalho”, salienta.

É preciso destacar que os componentes com metais pesados recebem a destinação correta. Atualmente, no Brasil, não existem empresas com tecnologia capaz de fazer a reciclagem para este tipo de material. De acordo com engenheiro Mário Soares, o máximo que ocorre é a trituração das placas, que formam a espécie de um pó, que em seguida é enviado para fora do país. “São poucas plantas no mundo que conseguem retirar esses componentes. Na América Latina não contamos com essa tecnologia, então hoje, basicamente aqui no Rio Grande do Sul, as placas são vendidas e encaminhadas para Bélgica, na Europa”, explica ele.

Vinicius 9Após o processo na Bélgica, a empresa responsável encaminha ao estado documentos que comprovam a destinação adequada das placas. Foto: Ilustração / Vinícius Domingues / Multiverso IPA

Hoje, o Sustentare é modelo para empresas privadas, públicas e municípios, que chegam até à Procergs com o intuito de conhecer mais sobre o projeto. De acordo com César Telles, o Governo Estadual não investiu nada para criação da iniciativa. “O Estado não nos deu nada para investir, o que nos deu foi a necessidade de pensar, agir e resolver”, conclui.

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