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Jornalismo Ambiental

Bicicleta: uma alternativa sustentável para a mobilidade brasileira

O número de veículos circulando no Brasil já ultrapassa a marca de 43,4 milhões - cerca de um veículo para cada quatro pessoas, segundo o relatório da Sindipeças feito em 2017. O resultado são congestionamentos presentes nas cidades e que dificultam a circulação das pessoas. E essa é uma realidade que já existia há 7 anos. Conforme dados apresentados em 2011 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), quase metade dos motoristas já enfrentava essa situação diariamente. Uma solução seriam as bicicletas, que poderiam amenizar os problemas de mobilidade urbana, além de serem econômica e sustentáveis.

t1Ciclista pedala na faixa de ônibus durante engarrafamento em Jacarta, Indonésia. Créditos: TotallyCoolPix

O monóxido de carbono (CO) e o dióxido de carbono (CO2), gases comumente liberados pelos veículos, são as substâncias tóxicas mais comuns presentes na atmosfera. Além de oferecer riscos para a saúde dos seres humanos, essa poluição também é prejudicial ao meio ambiente, intensificando o efeito estufa e o aquecimento global.

O efeito estufa é um fenômeno natural que garante a temperatura ideal para que o planeta Terra seja habitável. Os gases que são lançados na atmosfera formam uma camada que retém parte do calor emanado pelo sol, refletindo-o de volta para a terra antes que voltem ao espaço. Sem esse processo, a temperatura da Terra seria extremamente baixa e não haveria condições de sobrevivência. No entanto, quando a quantidade de gases liberados é excessiva, o calor que é refletido também aumenta, resultando em um superaquecimento. Atualmente, as temperaturas médias globais são as maiores dos últimos cinco séculos, pelo menos. O aquecimento global pode trazer muitos prejuízos ao planeta, com o descongelamento de calotas polares, inundações e outros desastres naturais em função da elevação do nível dos oceanos, aumento da insolação e radiação solar e extinção de espécies.

De acordo com o relatório anual State of the Global Air Report, produzido pela Health Effects Institute (HEI), 95% da população global respira um ar poluído. Estima-se que a exposição à poluição do ar contribua para a morte de 7 milhões de pessoas por ano, com casos registrados de derrames, doenças pulmonares e ataques cardíacos. Só a América Latina é responsável por 10% das emissões globais desses gases - o Brasil ocupa a sétima posição do ranking.

Amsterdã, cidade holandesa, é conhecida como a capital mundial da bicicleta. Em 20 anos, houve um crescimento de 40% nas viagens feitas com bicicleta, o que representa, hoje, 32% de todas as viagens dentro do município. Em contrapartida, os carros somam 22%. Apesar de a Holanda ainda ter problemas com a poluição atmosférica, mesmo com o número elevado de ciclista, existem constantes esforços em ampliar o uso de meios de transporte sustentáveis e de buscar novas tecnologias para melhorar a qualidade do ar. Há uma cultura de conscientização e sustentabilidade. Uma curiosidade. A prefeitura da capital holandesa enfrenta um problema por conta de tanta bicicleta em circulação na cidade. Não há estacionamento suficiente para todas, o que está obrigando na busca de soluções para o excesso de bicicletas. O plano, agora, é ampliar ainda mais o acesso, por meio da construção de 40 mil estacionamentos até 2040 e 15 km de conexões entre ciclovias nos cruzamentos mais perigosos.

t2Estacionamento de bicicletas em Amsterdam. Créditos: Alex RK/Flickr

O relatório sobre Emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) no Brasil, elaborado pelo Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), mostra que desde 2009, quando foi aprovada a Política Nacional sobre Mudança do Clima, as emissões de energia aumentaram 23%, especialmente devido ao aumento do consumo de gasolina e diesel. A meta do país era chegar, em 2020, com 2,395 bilhões de toneladas de CO2e, o que, de acordo com a pesquisa, não será possível se as emissões brutas permanecerem no patamar verificado entre 2010 e 2016. Além disso, em 2016, o governo brasileiro assinou o Acordo de Paris, se comprometendo a reduzir as emissões de gases de efeito estufa, até 2025, em 37% abaixo dos níveis de 2005, objetivo também distante da realidade do país.

Nesse cenário, incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte é uma das alternativas para um sistema mais sustentável. A Associação Nacional de Transportes Públicos, em parceria com a World Wide Fund for Nature Brasil ( WWF) Fundo Mundial para a Natureza em português, desenvolveu uma ferramenta que calcula qual seria o impacto de transferir as viagens de um meio de transporte para outro, em cidades com mais de 60 mil habitantes.

Em Porto Alegre, se apenas 10% das viagens de carro fossem substituídas por bicicletas, já haveria uma redução de 7% na emissão de CO² e 7% na emissão de poluentes locais, como monóxido de carbono, hidrocarbonetos, óxidos de nitrogênio e material particulado.

De acordo com a Arquiteta e Urbanista, Mestre e doutoranda em Planejamento Urbano e Regional, Laura Machado, a bicicleta é uma boa opção para percursos médios de até 5 km realizados por jovens e adultos. Esse também é o modelo descrito pela Pesquisa Perfil do Ciclista 2018, realizada pela Transporte Ativo e pelo LABMOB-UFRJ. O estudo mostra que a maior parte das pessoas que utilizam a bicicleta como transporte diário têm entre 15 e 34 anos e realizam trajetos de 10 a 30 minutos. Apenas 3,9% dos ciclistas brasileiros afirmam utilizar esse meio por ser ambientalmente correto. Em Porto Alegre, o número sobe para 7%, mostrando um grande potencial de conscientização, mas poucas iniciativas que busquem isso.

A estudante de Direito Vitória Battisti, de 22 anos, relata que a autonomia e economia foram as questões que a motivaram a substituir o ônibus pela bicicleta em seu trajeto para o trabalho. Mas mesmo antes dessa decisão, ela já recusava a ideia de ter um carro, devido à poluição e ao gasto elevado. Vitória evidencia a realidade da maioria dos ciclistas no Brasil: falta de estrutura e desrespeito diário dos motoristas de automóveis. De acordo com ela, não existe nenhuma ciclovia em seu trajeto, o que torna o caminho bastante perigoso, pela proximidade com os carros. “Até as ciclofaixas que eu ando eventualmente estão muito mal conservadas, é tudo muito mal sinalizado. Já furei vários pneus e rasguei várias câmaras de ar por causa dos buracos”, relata.

t3Ciclovia inacabada na Av. Ipiranga, em Porto Alegre. Créditos: Guilherme Santos / Detran-RS

t4Ação do Detran/RS em Porto Alegre buscou conscientizar motoristas sobre o respeito às bicicletas no trânsito. Créditos: Douglas Mafra/Detran-RS

Além disso, Vitória ainda percebe uma resistência dos motoristas, que não respeitam o limite de 1,5 m de distância das bicicletas. “A gente leva buzinada, os carros passam muito perto, quem anda de bike sempre passa medo. Mesmo usando capacete, luzinha, sinalizando quando vai dobrar, a galera não tem muita paciência. É uma competição bem desleal, mas existe bastante por parte dos motoristas”, ela conta. São justamente essas questões que muitas vezes afastam as pessoas das bicicletas e as levam a optar por meios mais nocivos ao meio ambiente, como os carros. A Pesquisa Perfil do Ciclista 2018 mostra que 54,6% dos entrevistados utilizariam mais a bicicleta se houvesse mais e melhores infraestruturas adequadas e 25,7% pedalariam mais se percebessem mais segurança e educação.

t5Inauguração de uma estação do BikePOA, sistema de compartilhamento de bicicletas de Porto Alegre. Créditos: BRAYAN MARTINS/PMPA/JC

O Plano Diretor Cicloviário de Porto Alegre, projetado em 2009, prevê a construção de uma malha cicloviária de 495km. Dez anos depois, a cidade ainda apresenta menos de 50km de ciclovias. Em 2003, quando menos de 1% das viagens diárias dos porto alegrenses era com bicicleta, estudos realizados pela prefeitura mostraram que uma rede completa de ciclovias e bicicletários, que permitissem circular e estacionar com conforto e segurança, poderia fazer com que 10% das viagens fossem substituídas por bicicleta, chegando a cerca de 300 mil viagens por dia no ano de 2022.

A arquiteta Laura Machado explica que “as maiores dificuldades no planejamento da mobilidade são as operacionais, principalmente devido à falta dos meios financeiros, humanos e tecnológicos para sua elaboração”, destacando a falta de investimento em pesquisas que levantem os problemas e busquem soluções. Quanto a implementação, ela percebe a ausência de uma integração entre as três esferas do governo (municipal, metropolitana e federal) para executar políticas que realmente causem impacto em toda a mobilidade regional. Segundo ela, “é necessário determinação política para o enfrentamento do lobby das empresas de ônibus”.

Com o aumento das ciclovias e a implementação do sistema de empréstimo de bicicletas, o número de ciclistas aumentou bastante - em agosto, o BikePOA, que realiza o compartilhamento de bicicletas, bateu o recorde de 342.184 mil viagens em seis meses. No entanto, Porto Alegre ainda está longe de alcançar as metas propostas anos atrás e de se tornar uma cidade verdadeiramente sustentável.

A Arquiteta e Urbanista Laura Machado afirma que, para incentivar o uso da bicicleta, seria necessário não apenas melhorar e aumentar o número de ciclovias, mas também “oferecer incentivos para abertura de oficinas de manutenção da bicicleta, reduzir os impostos da bicicleta, instalar terminais de bicicletas compartilhadas em toda a cidade, não apenas na área central e, ainda, ampliar o horário de uso”.

Ela destaca, também, que, embora a substituição dos automóveis pela bicicleta seja uma iniciativa importante, com impactos positivos para a saúde da população e para o meio ambiente, só isso não resolveria o problema da mobilidade urbana sustentável. “É preciso implementar um conjunto de medidas combinadas ao uso da bicicleta”, afirma, citando políticas de restrição ao uso do carro e ao estacionamento. Entre essas políticas estariam reduzir a velocidade nas vias; prover todas as ruas com o espaço próprio para as bicicletas (retirando espaço do automóvel); melhorar a integração do transporte público (modal e tarifária); qualificar os espaços públicos com vegetação e mobiliário urbano; implementar e fiscalizar índices mínimos de áreas verdes na cidade.

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