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8M: a contínua luta das mulheres por respeito e igualdade

foto ebc protesto mulheresFoto: Google Imagens

Nas últimas semanas, dois casos envolvendo ataques a jornalistas, repercutiram na mídia e nas redes sociais. Patrícia Campos Mello, repórter da Folha de São Paulo, responsável por investigar a disseminação de fake news durante as eleições de 2018, foi alvo de uma acusação falsa durante a CPI das Fake News e, depois, insultada pelo presidente Jair Bolsonaro. Vera Magalhães, colunista do jornal O Estado de São Paulo e âncora do programa Roda Viva, foi atacada por apoiadores do presidente após informar que Bolsonaro estava divulgando, pelo celular, vídeos de convocação para manifestações contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Segundo a Folha, o caso de Patrícia aparece em terceiro lugar na lista da organização internacional One Free Press Coalition, que elenca os 10 ataques mais graves feitos a jornalistas. 

Os episódios suscitaram inúmeras reações de colegas, internautas e entidades que manifestaram apoio às jornalistas. Além de reacender as discussões sobre o machismo, os casos mostram que ainda é muito difícil uma mulher exercer sua profissão sem ser atacada, subestimada e diminuída. Nesse dia 08 de março, data em que se reafirmam os anos de lutas das mulheres por respeito e igualdade de direitos, esses acontecimentos ilustram o quanto ainda é preciso avançar na desconstrução de uma sociedade machista e patriarcal.

Os desafios das mulheres no âmbito profissional

Uma das pautas que permeiam o movimento feminista é a busca por igualdade de direitos. No aspecto profissional, as mulheres ainda batalham para receberem salários iguais aos dos homens, quando ocupam o mesmo cargo ou desempenham a mesma função. Também lutam para combater o assédio e o machismo nos locais de trabalho.

A jornalista e Profa. Dra. Sandra Bitencourt, aponta que, no Brasil, quase três de cada 10 mulheres haviam sofrido algum tipo de violência ou agressão nos últimos 12 meses, e quase quatro de cada 10, algum tipo de assédio. Segundo ela, a realidade das jornalistas é a mesma de outras profissionais. “Somos maioria nas redações, temos maior escolaridade, mas também padecemos de desigualdade salarial, preconceitos e assédios de toda ordem. Ter ciência dessas questões, de como devemos nos manter vigilantes na linguagem que adotamos e nos modos como cobrimos essas realidades é fundamental também para a nossa integridade profissional”.

A jornalista Alexandra Zanela concorda que as mulheres têm as mesmas dificuldades profissionais. Para ela, a diferença entre as jornalistas é a sobrecarga de trabalho. “Nós precisamos sempre abraçar tudo, estar disponíveis, para poder ser legítimo o lugar que estamos ocupando. Para ter nosso espaço, precisamos fazer muito mais”, afirma. A jornalista também destaca a questão do assédio. “As jornalistas que cobrem esporte têm jogado luz a esse assunto, porque são em lugares públicos e abertos, onde é fácil enxergar. Mas, uma profissional jornalista passa o tempo inteiro por pequenas provações e piadas. A gente tem desde a qualidade do nosso trabalho questionada até a normalização do assédio sexual, o assédio moral, às vezes de chefe, de pares, muitas vezes de fontes. Nós, mulheres jornalistas, precisamos estar o tempo inteiro gritando também”, salienta. 

Para a turismóloga e Profa. Me. Elenara Viera, uma questão fundamental em qualquer profissão é a salarial. “O reconhecimento de igualdade salarial com o homem é um dos principais desafios. As mulheres ainda acabam recebendo menos e desempenhando a mesma função que os eles. Têm exceções, mas na maioria das vezes, é a regra”, alega.

Sobre os ataques sofridos pelas jornalistas Patrícia Campos Mello e Vera Magalhães, Sandra entende que é uma forma de desmerecer não só a mulher, mas como a profissão de jornalista. “Percebo esses ataques como algo incompatível com a civilidade, a democracia, a humanidade mesmo. É odioso e perverso. No entanto, me parece que o viés machista e misógino, além de ser perturbador e nojento, não é o mais grave. O ataque é direcionado ao jornalismo como um todo e a seus profissionais e, portanto, dirigido à própria instituição democrática, porque não existe democracia sem um jornalismo livre e plural”, destaca. Para Alexandra, é um comportamento repudiável, que objetifica as mulheres. “É incabível para qualquer pessoa ter esse tipo de comportamento sexista e sexualizar o profissional. Ela foi sexualizada, ofendida dessa maneira porque é mulher. Esse machismo entende as mulheres como objeto e a objetificação do corpo das mulheres se reflete nessas atitudes”, afirma.

O fato dos ataques serem reproduzidos pelo presidente da República tornam o ato mais agravante. “A maior autoridade da República faz isso de modo vil, com o adicional pervertido de utilizar insultos de cunho sexual, o que aliás denota a tara e a violência que são características do machismo mais primitivo”, observa Sandra. “É bastante delicado esse assunto, mas é inacreditável o que tem acontecido. Parece uma piada de péssimo gosto, um presidente ter um comportamento estúpido, machista, misógino e sexista, como ele teve”, critica Alexandra.

 Um dia de reflexão e luta

A data de 08 de março como o Dia Internacional da Mulher, foi oficializada em 1975 pela Organização das Nações Unidas (ONU). Foi escolhida para homenagear a luta das mulheres ao longo dos séculos, na busca por equidade de direitos. 

Sandra entende que essa é uma data para lembrar o quanto ainda se precisa avançar. “Em 1857, centenas de operárias morreram queimadas por policiais em uma fábrica têxtil de Nova York (EUA), porque reivindicaram a redução da jornada de trabalho e o direito à licença-maternidade. Pouco mais de um século depois essa brutalidade foi superada? Não”, explica. “A violência, a opressão e a desigualdade seguem avassaladoras. 90% da população mundial ainda tem preconceito contra as mulheres, segundo pesquisa feita pela ONU, mostrando que os preconceitos incluem a ideia de que os homens são melhores políticos e líderes de negócios ou que ir à universidade é mais importante para eles”, esclarece.

Para a professora Elenara, é uma época de reflexão.  “É um dia para lembrar dos direitos adquiridos pelas mulheres ao longo de todos esses anos. Mas também, para lembrar que ainda é inconcebível em pleno século 21 ter esse número exacerbado de feminicídios e de estupros por causa de roupas. Enfim... cada 08 de março me faz refletir muito sobre isso”, pondera. Alexandra também entende com um momento para pensar. “O 8M é um dia de luta. É preciso olhar para trás e entender a história para compreender de fato o que significa esse 8M. Um dia de luta, de reflexão grande sobre sexismo, sobre esse mundo tão machista, sobre essa cultura patriarcal que a gente é submetida, que nos compromete tanto a vida. A vida como um todo, tanto o trabalho ou os direitos mais básicos e até os pequenos desrespeitos que passam batidos”, reflete.

Conforme evidencia a professora Sandra, no Rio Grande do Sul, as mulheres representavam em 2019, 51,3% da população, mas apenas 46,2% da força de trabalho, um pequeno avanço em relação ao ano anterior (45,6%). “Mesmo sendo minoria, o contingente feminino tem a maior participação do quadro de desempregados (56,5%), percentual mais elevado quando comparado à média nacional, que fechou 2019 em 53,1%, de acordo com o IBGE. Ou seja, sempre somos mais frágeis, nossos direitos estão mais a perigo, precisamos provar incessantemente nossa competência”, destaca. Elenara afirma que as mulheres precisam continuar essa luta por reconhecimento profissional. “Continuem a estudar, aprimorar seus conhecimentos, para que possamos nos impor pela competência, não pela aparência ou por outras coisas que sempre acabamos sendo julgadas”, declara a turismóloga. Sandra concorda que é necessário compreender que as mulheres ainda têm muito a dizer. “De um modo geral e para as jornalistas em particular, precisamos ser levadas a sério e mostrar valor para além da estética, por exemplo. Por isso, penso que a consciência de nosso discurso, da linguagem usada, das abordagens propostas é fundamental. Para avançar precisamos ser promotoras do avanço”, conclui.

Alexandra destaca que é preciso que as mulheres saibam que têm apoio. “O que tento ao máximo fazer é contar, expor e dar voz às histórias, para que as outras mulheres enxerguem que elas não estão sozinhas”. Para a jornalista, é dessa forma que será possível criar um círculo de força. “Não podemos ter medo. Mesmo que em 100% dos casos a gente tenha medo, porque é assediada e calada ou vai sofrer retaliação. A gente precisa ter força para denunciar.  É preciso achar caminhos, discursos e narrativas para sermos ouvidas. O que não se pode é calar, porque o silêncio legitima a violência”, afirma.

Enquanto as mulheres forem agredidas, insultadas, atacadas e mortas, o 08 de março continuará a ser sinônimo de luta e força. Uma data para lembrar que muito já foi alcançado, mas que ainda há muito para conquistar. Todos os dias, as mulheres vencem pequenas batalhas, com coragem e sororidade, mas sem esquecer que é preciso lutar para seguirem livres e continuarem vivas.

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