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Zero Hora

Em Pauta ZH recebe Sérgio D’Àvila

pauta zhEditor da Folha de São Paulo, Sérgio D’Ávila. Foto de Moisés Machado

O projeto “Em Pauta ZH - Debates sobre o jornalismo”, realizado pelo jornal Zero Hora, trouxe seu quarto convidado na noite desta quarta-feira (28). Paulistano, jornalista e editor executivo de um dos principais jornais do país, a Folha de São Paulo, Sérgio D’Ávila respondeu a questões ligadas ao tema da noite: “O desafio da imparcialidade num país polarizado".

Embasado em pesquisas recentemente divulgadas, Sérgio iniciou apresentando dados sobre a Folha de São Paulo e seus leitores, traçando um paralelo com o eleitor brasileiro. O resultado aponta que os leitores da Folha são liberais, em relação aos costumes e, também, economicamente.

Uma pesquisa interna também indicou que a própria redação do jornal é liberal, bem mais que a sociedade brasileira que, na verdade, é vista como conservadora. Responsável pela decisão final do que será publicado, Sérgio destaca o caminho que garantirá a sobrevivência dos jornais e um lugar cativo entre seus leitores, mesmo com a concorrência acirrada das mídias sociais: separar o boato do fato.

Segundo D’Ávila, a pesquisa tem ajudado a equipe a entender melhor o que pensa o leitor. No entanto, mesmo com todas as ferramentas que dispõe nesse sentido, ainda tem enfrentado dificuldades para atingir o leitor mais jovem. “Uma das hipóteses é que nós sejamos muito diferentes desse leitor e estejamos escrevendo para outro tipo de leitor. Então, essa pesquisa nos ajuda, não a sermos pautados pelo leitor, mas, sim, levarmos em consideração o que ele pensa na hora de fazer uma crítica, uma análise, uma coluna, uma reportagem e até mesmo fazer uma pauta”, disse.

Saber quem é o leitor e o que ele pensa não implica que o jornal deva escrever apenas o que este quer ler, segundo D’Ávila. “Se nós fizermos isso, o nosso papel como jornalista será diminuído e a gente vai perder a relevância”, disse. E, ainda considerou, segundo sua opinião, que as redes sociais têm realizado um antijornalismo. “ No Facebook, por exemplo, você tem ali um algoritmo que te analisa e vai indicar opiniões semelhantes às tuas. E a missão quase cívica do jornalismo é oferecer opiniões contraditórias, opiniões que você nem sabia que existiam”, frisou.

 

Pluralismo e Redes sociais

O pluralismo da Folha de São Paulo foi outro ponto de destaque nas falas do jornalista Sérgio D’Ávila. “Nós temos 125 colunistas e 60 blogueiros pagos para dar sua opinião, livremente, sobre o que eles quiserem. Isso está no DNA do jornal, nós somos radicalmente pluralistas”. Questionado sobre o que pensava de os veículos publicarem seus conteúdos diretamente na plataforma das redes sociais, como no Facebook, por exemplo, Sérgio foi bem humorado ao responder: “nós enxergamos da mesma forma que os porcos espinhos fazem amor: com muito cuidado. De fato, isso é entregar o ouro para o bandido”, disse. E, completou: “a nossa diferença está na credibilidade. Quando o leitor clica e vai para o ambiente da Folha, ele reconhece, vê o logo, o site, sabe onde está. Se isso for eliminado e você tem o ambiente Facebook você perde o valor, que é o editorial. Pode ser até que você ganhe no clique, no anúncio, na comercialização, mas você perde na sua relevância”.

 

Ombudsman

Um ponto que despertou a curiosidade dos presentes, foi em relação ao Ombudsmann, uma função implantada pela Folha de forma pioneira no Brasil. Atualmente, o Ombudsmann do jornal é a jornalista Vera Guimarães, que tem como tarefa receber, investigar e encaminhar as queixas dos leitores; realizar a crítica interna do jornal e, uma vez por semana, aos domingos, produzir uma coluna de comentários críticos sobre os meios de comunicação.

Sérgio voltou a usar do humor para definir como é ter um Ombudsmann no dia a dia de trabalho. “É uma experiência penosa, um exercício diário de humilhação porque, além da crítica publicada aos domingos, ela faz uma crítica interna diária. A atual Ombudsmann, assim como os anteriores, não tem nenhuma trava na língua, se é o caso de criticar e humilhar, ela critica e humilha”. No entanto, ele lembra que, tanto a crítica, como ler o jornal da concorrência, vendo os erros cometidos e os ‘furos’ tomados, são exercícios diários de humildade.

Sérgio destaca, no entanto, que, do ponto de vista profissional, a Ombudsmann é uma função valiosíssima para Folha. “Eu recomendo para os outros jornais. Sou um evangelista da Ombudsmann. Ela te dá visões de uma cobertura que, de repente, você não está percebendo, aponta caminhos e mostra defeitos que você, por estar tão envolvido, acaba não percebendo”, disse.

 

A visão de quem se fez presente

O professor de Jornalismo do Centro Universitário Metodista IPA e editor-chefe do TVE Repórter, Léo Nuñez, entende que “ouvir o diretor de redação da Folha de São Paulo é sempre algo interessante pela importância que o jornal tem no país, tanto pela sua história como pelo trabalho que hoje realiza. A parte que mais me interessou foi o relato dele sobre o processo de produção da notícia na Folha, o retorno dos leitores e a função do Ombusdsmann no jornal. A pesquisa do perfil do leitor e eleitor também apontou informações curiosas e relevantes”, disse o professor.

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