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Zero Hora

Adriana Carranca e a cobertura internacional

zh pauta adrianaAdriana divide seus conhecimentos com alunos e professores. Foto deLuigi Bitencourt

Adriana Carranca, colunista dos jornais O Globo e Estadão, foi a convidada, no dia 30 de dezembro, do Projeto Em Pauta ZH. Ela falou sobre os desafios de coberturas internacionais, para profissionais da área e alunos de jornalismo de diversas faculdades.

Um dos pontos que a jornalista fez questão de destacar foi em relação ao trabalho de campo. Para Adriana, é fundamental buscar outro olhar sobre o assunto que está sendo trabalhado. Sempre que viaja a outros países a trabalho, prefere ficar em casas de moradores da região ao invés de hotéis, pois lembra que desta forma é muito mais fácil imergir e conhecer a fundo a cultura e costumes da região. Segundo ela, “quando você acompanha o dia a dia das pessoas é quando as máscaras vão caindo”. Essa também é uma forma de mergulhar na sociedade que está sendo retratada. A jornalista lembrou que o seu foco, em qualquer cobertura que faça, está relacionado aos direitos humanos, em especial a assuntos voltados à criança e à mulher.

A primeira cobertura internacional que fez foi no Irã, em 2007. Já no aeroporto, caíram os estereótipos, pois foi recebida por uma tradutora que vestia calça jeans, tênis All Star rosa e ouvia uma espécie de funk iraniano. A surpresa ocorreu devido ao fato de pensar que encontraria um país demolido e com forte rejeição às mulheres. Dessa visita surgiu o primeiro livro ‘O Irã sob o Chador’.

Para que consiga fazer as coberturas, Adriana Carranca conta com a ajuda de pessoas que moram nos locais que visita. Segunda ela, sempre “procuro falar com pessoas que já foram nos países que eu pretendo viajar, ou pessoas que eu confio. Assim você acaba criando uma rede de contatos, caso precise de dicas”.

No caso de lugares onda há conflitos, é necessário que haja muito cuidado em preservar esses informantes, pois não pode, em hipótese alguma, arriscar a vida de quem a está ajudando. É por isso que, segundo ela, ficar hospedada em casa de família também ajuda nesse aspecto. Consegue fazer as entrevistas nas residências das fontes. Outro aspecto que destacou está relacionado à sua segurança. Em situações de riscos ou quando se tem dúvidas do que fazer, o melhor é não arriscar, garante ela. E aconselha, “ caso não tenha certeza de qual decisão tomar, siga sua intuição”.

Depois da primeira cobertura, já esteve no Paquistão e no Afeganistão, para onde retornou oito vezes. Foi lá que pesquisou a vida de Malala, uma menina afegã que sofreu um atentado por defender a educação para as mulheres. Dessa imersão na vida da menina, surgiu o livro infantil Malala, a menina que queria ir para a escola.

As últimas viagens que fez foram para a Síria e para o Iraque, entre setembro e outubro deste ano. Nessa viagem, contou a triste realidade das mulheres yazidis, que conseguiram escapar da escravidão sexual imposta por soldados do Estado Islâmico.

Sobre a importância de ir para lugares perigosos e arriscados para realizar suas matérias ou reportagens internacionais, Adriana disse que a encanta poder mostrar uma realidade diferente, que geralmente não é destacado pelos grandes veículos. Salienta, por outro lado, que prefere mostrar fatos positivos que unem as pessoas, ao invés de somente mostrar tragédias ou itens negativos daquele país. Adriana entende que um de seus objetivos é mostrar que, mesmo as pessoas longe e de nacionalidades diferentes podem conviver juntas, de forma pacífica.

Adriana Carranca encerrou terminou o encontro, falando sobre a atual situação do jornalismo. Ela acredita que, no começo da transição do jornal impresso para os meios on-line, o leitor tinha dificuldade de identificar onde encontrar informações verídicas e confiáveis, devido a uma vasta variedade de conteúdos. Porém, hoje, acredita que “o leitor já está chegando à conclusão que verificar as informações em veículos confiáveis é uma boa opção para verificar se a informação é verídica”. Para Adriana, o jornalismo não está em crise, o que pode estar em crise é o veiculo jornal em si, devido à transição tecnológica que o mundo esta sofrendo. Entende que o negócio é escrever reportagens de qualidades.

Para os estudantes de jornalismo, Adriana Carranca deu um conselho. Disse que devem, sempre, escrever e escrever, pois o segredo está em fazer, já que a história está tanto lá na Síria quanto dentro da sua casa, no seu quarteirão”.

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