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Semana Farroupilha

20 de setembro, os dois lados da história

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Em 20 de setembro de 1835, revoltosos contra o Império invadiam Porto Alegre e venciam o Combate da Ponte da Azenha, dando início a um conflito armado que duraria dez anos. Entre controvérsias e opiniões divergentes muita coisa se perpetuou outras tantas se perderam com o tempo.

De um lado, há os que acreditam que o período foi de glória e que tudo que o Rio Grande do Sul perdeu a oportunidade de transformar a Província em República e que, durante o conflito, formou-se muito do que, hoje, é o gaúcho. Do outro, há quem alegue ser esta uma revolta de quem detinha o poderio econômico à época e que dela nada restou nada além de mortes e polpudas indenizações aos líderes oligarcas, e que o conflito era constituído por uma minoria que não teve apoio popular. Nem mesmo o heroísmo atribuído aos heróis farroupilhas é verdadeiro, segundo historiadores.

O jornalista, historiador e professor de Universidade de Passo Fundo (UPF), Tau Golin, afirmou, em entrevista, que o movimento tradicionalista é “uma visão particular da história que pretende se converter no sentido existencial de um povo. [...] É quando os mais absurdos ditames são repetidos como sentenças históricas, como o de que o RS se levantou ‘como uma nação’ contra o Império. Na verdade, os farrapos constituíram uma minoria. A maioria do Rio Grande optou pelo Brasil e os combateram, as populações das principais cidades ergueram trincheiras para repeli-los, com muitos líderes populares, sem qualquer vinculação com a corte. [...] Estes tradicionalistas são imbecis, ignorantes, que assassinam a memória de seus antepassados. [...] A Semana Farroupilha não possui nenhuma conexão com a história. É apenas um evento que utiliza aspectos da história para especulações contemporâneas”, disse.

Em contrapartida o presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), Nairo Callegaro, diz não se considerar um idiota por ser tradicionalista. “Tenho professores, mestres em História, que frequentam o meio tradicionalista dando palestras. O MTG é um setor da sociedade, uma parcela. Não vamos em nenhum momento modificar a história. Cada historiador tem sua visão, que depende de quais foram suas fontes de pesquisa. Opiniões pessoais desconstrutivas, como esta, se expressa de forma agressiva, deselegante e pouco inteligente, não contribui com a sociedade gaúcha. Infelizmente, o desrespeito leva nossa sociedade a esta profunda crise que vivemos, até mesmo de identidade, que leva a estas análises raivosas feitas por algumas pessoas que não nos representam, e tenho que certeza tampouco nossa sociedade”, diz Callegari em resposta a Tau Golin.

E, realmente, o Estado, atualmente, vive uma crise econômica, política e de extrema violência. Buscando traçar linhas entre o passado e o presente e com o objetivo de entender mais estas duas linhas de pensamento sobre a Revolução Farroupilha e o sentimento que aflora nos gaúchos todo mês de setembro, o Multiverso, foi ouvir o historiador e professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Jorge Euzébio Assumpção e o presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), Nairo Callegaro.

 

Multiverso: Quais as semelhanças entre o período de crise que culminou com a Revolução Farroupilha e o atual momento de crise vivido pelo Rio Grande do Sul?

Prof. Jorge Euzébio: Temos que ter certo cuidado em fazer tais comparações. Todavia, podemos dizer que, em ambas as épocas, o Rio Grande do Sul, assim como outros estados da Federação hoje, províncias no passado, encontravam-se em sérias dificuldades financeiras devido à centralização tributária. No passado, as elites gaúchas reivindicavam uma maior autonomia política e administrativa, tendo em vista estar sua economia baseada na exportação para os mercados interno e externo, especialmente de produtos derivados das charqueadas. Nos dias de hoje, enfrentamos também sérios problemas econômicos, decorrentes da centralização econômica onde os estados padecem dependência econômica do poder central, no passado, localizado no Rio de Janeiro, nos dias atuais, em Brasília.

Nairo Callegaro: Ao longo da história, a sociedade busca sempre um equilíbrio econômico e do bem-estar social (garantia de direitos coletivos e individuais). Quando há um descordo nestes dois parâmetros entram em conflitos interesses dos mais variados, econômicos principalmente. Não atender às mínimas necessidades do povo, como organismo social construtor e balizador dos norteadores de uma sociedade justa, nos remete a conflitos sociais, que dependendo do contexto podem levar a revoltas mais contundentes, como foi o caso da Revolução Farroupilha, em que armas foram usadas para dar um basta a estes desmandos. Hoje não seria da mesma forma. Existem mecanismos diferentes para mudanças exigidas pela sociedade.

 

Multiverso: E as maiores diferenças entre esses dois períodos, quais são?

Prof. Jorge Euzébio: Podemos dizer que, no passado, devido a uma necessidade que o Império possuía de ter um forte sistema de controle sobre as fronteiras, ainda não bem definidas, precisava dos caudilhos gaúchos, com seus exércitos particulares, para conter invasões inimigas e ajudar na manutenção das fronteiras, o que obrigava o governo central a fazer concessões aos latifundiários detentores do poder local. Já nos dias de hoje, a dependência do governo central não é a mesma, do que resulta um desprestígio nacional para a elite gaúcha, que não consegue se impor perante a Federação. Daí, decorre o desprestígio político e econômico do Rio Grande do Sul. Ou seja, em ambos os casos, tanto no século XIX quanto no XXI, o Rio Grande do Sul continua marginalizado perante o governo central.

Nairo Callegaro: O modelo de organização social e a constituição de leis e normas estabelecem uma relação muito clara em nossa sociedade. Os poderes constituídos, quando usados corretamente, são legítimos representantes da vontade do povo. Esta é a grande diferença. Naquela época, vivíamos uma monarquia.

 

Multiverso: Entre tudo o que se perdeu e o que se ganhou com o conflito que perdurou por dez anos, quais traços foram forjados nesse período e podem ser vistos na identidade atual do gaúcho?

Prof. Jorge Euzébio: Em primeiro lugar, temos que desmistificar alguns fatos. Nunca houve uma revolução. Houve, sim, uma guerra civil (1835-1845), onde a economia sulina foi desestruturada nos 10 anos de conflito. As relações entre o Império e a Província ficaram levemente abaladas nos anos de subversão. Porém, temos que ter o cuidado de não generalizar tais fatos, pois o movimento de 1835 não pode ser atribuído ao povo gaúcho, mas, sim, a uma parcela da elite sulina que, descontente com a centralização econômica, sentindo-se prejudicada, pegou em armas contra o império. A maioria dos habitantes da província jamais esteve ao lado dos farroupilhas, apoiava o Império, haja vista que grandes centros urbanos, entre os quais a própria capital da província, Porto Alegre, expulsaram os farrapos, não permitindo seu regresso, debalde várias tentativas por parte dos rebeldes, Em que pese a impopularidade dos revoltosos, o conflito passou a ser usado politicamente por certos ideólogos gaúchos e, em cima dele, forjou-se um lendário gauchesco que jamais existiu e que chegou até os dias de hoje, com o apoio da grande mídia, dos CTGs e de parte de uma elite fracassada, que ora tenta forjar um passado heroico, glorioso, que nunca existiu, em que os grandes vultos, os heróis e as grandes batalhas compõem um imaginário que se tenta preservar e perpetuar como se fosse verdadeiro. E, o Rio Grande do Sul continua marginalizado, sem força política e econômica.

Nairo Callegaro: Não podemos resumir a identidade do gaúcho somente àquele período, mas sim desde a formação de nosso território, as disputas, o sentimento de conquista, de proteção a sua terra e sua gente. Foi um período extremamente importante, onde podemos salientar o desejo de liberdade, soberania e orgulho por este território.

 

Multiverso: O que o Rio Grande do Sul ganhou com a revolução? E o que perdeu?

Prof. Jorge Euzébio: A antiga província de São Pedro, atual Rio Grande do Sul, só perdeu neste conflito. Quando digo Rio Grande do Sul, estou falando do povo gaúcho, pois temos que ver qual é a nossa concepção de povo. As elites que fizeram o movimento em nada perderam, pois os seus líderes foram indenizados financeiramente, saíram tão ricos ou mais, em sua maioria, do que quando entraram. Cabe lembrar que eles só pediram anistia ao Império e selarem a paz mediante polpudas indenizações financeiras. Já o povo, este sofreu as amarguras da guerra. Entre eles, a população pobre branca e negra que foi aos campos de batalha. Estes saíram sem nada do conflito, continuando na mesma situação de penúria e servidão.

Nairo Callegaro: Um sentimento de pertencimento ao regional, ideias de República, que mais tarde o Brasil tornou-se. Somos um povo que sabe opinar, se posicionar, contra ou a favor, toma posições. Perdeu, além de vidas, a chance de se tornar uma nação independente.

 

Multiverso: As comemorações da revolução fazem sentido? Temos o que comemorar?

Prof. Jorge Euzébio: Os rio-grandenses comemoram a vitória do Império como se os rebeldes do passado fossem os vitoriosos. Os farrapos perderam a guerra. No entanto, é passado, ano após ano, que os mesmos saíram deste conflito de uma maneira honrosa. Mentira! Nada teve de honroso para os farrapos, que, não tendo condições de enfrentar o poder militar do Império, foram obrigados a pedir anistia ao imperador. Os líderes, todos, assinaram anistia. Foi uma derrota inesquecível, mas que é tratada erroneamente como se obtida uma paz honrosa. O acordo de Ponche Verde, tão propagado pelos folcloristas, não passa de uma farsa, de uma invenção histórica. O que houve em Ponche Verde foi a consumação da derrota dos farroupilhas. Foi a rendição dos que ainda estavam em armas.

Nairo Callegaro: Com certeza, comemoramos uma tomada de posição, comemoramos os ideais de homens que um dia, por todas e quaisquer posições, sejam pessoais ou coletivas, ousaram em sonhar por uma sociedade livre, autônoma, com direitos individuais garantidos e justiça social.

 

Multiverso: Como todo acontecimento histórico, tem o fato e o relato. O que é fato, o que é relato e o que é boato na história da Revolução Farroupilha?

Prof. Jorge Euzébio: O fato: o movimento. Boato: a vitória dos farrapos e a paz honrosa. Relato: a capitulação dos rebeldes para o Império mediante seus pedidos de anistia. Os fatos não deixam margens a dúvidas. A documentação está à disposição. Os farroupilhas foram derrotados, ou melhor, a elite farroupilha foi derrotada. E, para safar seus interesses, não titubearam em massacrar sua infantaria negra.

Nairo Callegaro: O fato é o momento histórico, é o acontecimento do social, político e econômico na época. O relato é uma consequência do fato de como ele é contado, interpretado por indivíduos ou grupos sociais. O boato são as ‘fofocas’ da história.

 

Multiverso: Qual o papel do Movimento Tradicionalista Gaúcho para a historiografia do Rio Grande do Sul?

Prof. Jorge Euzébio: O Movimento Tradicionalista, tentando exaltar as ‘tradições gauchescas’, distorce maliciosamente a história do Rio Grande do Sul. Transformam assassinos em heróis, haja vista as exaltações e proselitismos feitos a David Canabarro, quando o mesmo de forma vil atraiçoou os negros que combatiam no exército dos farrapos, na chamada traição de Porongos. Heróis? Não! Assassinos de negros, que jamais desejaram a abolição da escravidão. O que fizeram pelos pobres? Nada! Jamais pensaram em fazer uma reforma agrária para beneficiar os sem-terra, pois o movimento foi feito pelos grandes latifundiários rurais. Por esse motivo, consciente de minha posição social e racial, não festejo esta farsa que é comemorada no dia 20 de setembro. Movimento das elites sul rio-grandenses, jamais do povo gaúcho.

Nairo Callegaro: O Movimento Tradicionalista Gaúcho não é um órgão com dedicação exclusiva, que tenha como principal função, a pesquisa histórica. É uma entidade que busca sobretudo colocar em prática valores e aspectos regionais que identificam de forma clara e contundente nossa identidade regional.

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