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Comportamento

Profissionais da Comunicação vencem o preconceito racial e conquistam reconhecimento

negra

20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra. A data é uma homenagem ao líder da resistência negra, Zumbi dos Palmares, que defendeu a liberdade de seu povo frente à escravidão. O herói morreu em combate, em 1695.

Todavia, a escravidão continuou presente no Brasil por muito tempo, até que em 13 de maio de 1888, pela Lei Áurea, trouxe a liberdade para os afrodescentes. É uma história de luta e dor que ainda continua nos dias de hoje. Apesar das dificuldades, profissionais negros que atuam na Comunicação conquistam seu espaço. O Multiverso foi conhecer um pouco dessas histórias, verdadeiros exemplos a serem seguidos.

São 128 anos de liberdade, mas, o preconceito e a desigualdade social ainda permanecem. É uma árdua luta ao longo dos anos para que a geração atual pudesse ter uma vida melhor e mais digna. Uma dessas conquistas, mesmo que ainda sutil, pode ser percebida no mercado de trabalho, na área da Comunicação, uma das mais disputadas e difíceis de se constituir carreira. Muitos profissionais afrodescendentes conquistaram seu espaço e tiveram sucesso mesmo com a intolerância racial.

Para os estudantes que estão na busca de um estágio, é normal ter que participar de muitas entrevistas até se conseguir uma oportunidade. E, não foi diferente para a estudante de Publicidade e Propaganda, Janinne Guimarães, que hoje, trabalha como efetiva no marketing do Canal Você – TV Minuto, da emissora Bandeirantes.

  

PP Janinne Guimaraes arquivo pessoalA publicitária Janinne Guimaraes. Foto: arquivo pessoal

Janinne lembra uma ocasião em que não foi selecionada por causa da sua cor. Ela havia participado de uma entrevista primária, em que a recrutadora demonstrou muito interesse em contratá-la. Na segunda etapa, a situação foi totalmente diferente. “O entrevistador não estava satisfeito com o meu currículo e disse que o meu perfil não se encaixa com o da empresa”. Para Janinne, estava evidente a resistência da contração por ela ser negra. Sua tese é reforçada pelo fato da opinião da primeira entrevistadora, que também era negra, não ter sido considerada.

Segundo ela, quem sofre preconceito não se deve deixar abalar. “Não é a cor da sua pele que vai mudar você, que vai deixar você diferente dos outros”. Completa dizendo que o preconceito só vai acabar através de bons exemplos em casa, com os filhos. “Os pais precisam incentivar o convívio dos filhos com pessoas negras e mostrarem que não há diferença entre eles. Ninguém nasce sendo preconceito com os outros”, diz.

  

Jornalista Elivelto Correa foto Roberta CezarO jornalista Elivelto Corrêa. Foto de Roberta Cezar

O jornalista, Elivelto Corrêa, se sentia infeliz na profissão de técnico em eletrônica. Ele queria algo diferente para a sua vida. Ele gostava de escrever e também tinha vontade de saber como é fazer uma graduação. Então, aos 34 anos, ingressou na faculdade de Jornalismo.

Segundo ele, mesmo não havendo educação igualitária para introduzir pessoas negras na universidade, ingressar na faculdade ainda é a parte mais fácil de todo o processo de profissionalização. O problema, segundo ele, está em permanecer na faculdade. “Persistir estudando é complicado, há muitas despesas, algumas pessoas já moram sozinhas ou precisam sustentar a família”, relata. Elivelto acrescenta que uma pessoa negra tende a não conseguir uma vaga mesmo tendo as mesmas condições e experiências de uma pessoa branca. É mais comum ver pessoas em serviço braçais do que em atividades intelectuais.

Mas, Elivelto afirma que é preciso perseverança. “Cedo ou tarde se consegue alcançar qualquer objetivo independentemente dos contratempos”. Prova disso, é que Elivelto realizou seu sonho e atua hoje no setor de comunicação da Secretária de Cultura e Turismo de Guaíba. Ele também é escritor. Lançou dois livros, um deles é um romance “Nubá – Liberdades Possíveis”, que tem como um dos temas a escravidão.

 

RP Karina Limeira foto Bruna SiebertA RP Karina Limeira. Foto de Bruna Siebert

As histórias de discriminação e preconceito são muitas. “Foi muito difícil conseguir uma vaga no mercado, em Salvador, com 80% da população sendo negra, as agências são brancas”. A afirmação é da profissional de Relações Públicas, Karina Limeira. A baiana atua há 12 anos em Comunicação, tendo trabalhado em agências de publicidade, rádio e eventos em várias cidades do país. Mora em Porto Alegre há 6 anos, onde é uma das fundadoras da empresa Benditas Produções.

Segundo ela, mesmo como empreendedora, ainda tem sua capacidade técnica muito contestada, em função da sua cor. Em qualquer conversa informal com o cliente, é sempre necessário demonstrar o seu conhecimento. “Ainda enfrento alguns olhares de reprovação no meu dia a dia, mas como sou a dona da empresa, se me tratar mal, não atendo”, informa.

Karina explica que além dos negros terem suas capacidades muitos mais testadas do que pessoas não negras, não há representatividade real do negro nos meios de comunicação. Não obstante, Karina acredita que os movimentos realizados contra o racismo começam a mudar o cenário atual. “Acredito que as coisas melhorem muito nos próximos anos, mas ainda há muito a fazer”. Ela salienta que o profissional negro que deseja atuar na Comunicação precisa ter determinação para superar todos os impasses. “Resistência é a palavra de ordem para ocuparmos este espaço”, conclui.

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