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Cultura

Juremir Machado da Silva: “O livro é o papel ou é o texto?”

Se todo o conhecimento do mundo estivesse grafado em mil páginas de papel offset e, ao mesmo tempo, em um pendrive de três centímetros, qual você escolheria? É bem verdade que os hábitos de leitura evoluíram com a humanidade, mas há algo de curioso neste processo. O suporte do texto saiu das prateleiras e do papel impresso para voltar, vejam só, para a palma da mão. No Dia Mundial do Livro, o Multiverso conversou com Prof. Dr. Juremir Machado da Silva, jornalista e escritor, sobre os novos hábitos de leitura.

Apesar do livro ser parte fundamental de uma sociedade, o escritor e jornalista, Juremir Machado da silva, acredita que as redes sociais são o foco da geração Y, nascidos após 1980. “O que pega mesmo é Youtube. É onde há imagens e vídeos, mas desde que seja curto. Se for longo, não encanta. [Esta] não é uma sociedade da leitura. O livro é um sobrevivente, é quase um fóssil”. No mesmo raciocínio, entretanto, o escritor acrescenta: “Os youtubers estão fazendo livros e vendendo. Tudo que dá certo em algum lugar, é transferido para outros”.

Houve uma época em que o objetivo de escritores e artistas era fazer sucesso na posteridade, desinteressados na repercussão da obra em vida. Lima Barreto, visto como alcoólatra e pobre; Oswald de Andrade, o poeta incompreendido; e Vincent Van Gogh, que teve reconhecimento post mortem como expoente do pós-impressionismo, são apenas alguns exemplos. Atualmente, o enfoque é outro. O professor Juremir explica: “Há uma preocupação muito maior com o público. Aquela coisa de ‘eu quero escrever, mas não estou interessado se vão me ler’ desapareceu. As pessoas querem escrever e querem ser lidas”.

 

A ferramenta

Em ‘A Questão dos Livros: passado, presente e futuro’, Robert Darnton esmiúça o hábito da leitura e a relevância do livro enquanto objeto na era digital. A partir de uma análise sobre a questão, entende-se que a tal ‘morte do livro’ preconizada por muitos teóricos, trata-se, em suma, de algo impossível de se prever.

Para Juremir, a migração ao digital não é o ponto chave de uma possível “morte do livro”. “É inquietante, preocupante. Alguns se assustam porque os jornais [como exemplo] são ameaçados por essa nova realidade [digital]. É uma questão de custos. Os livros, talvez, tenham um pouco mais de resistência, na medida em que eles estão voltados para um público menor e com outra dinâmica de leitura”, afirma.

Em 2016, durante uma conferência da Associação Internacional de Mídia, o presidente do Grupo Abril, Walter Longo, defendeu a complementaridade do impresso ao digital, não a substituição de um por outro. No mesmo ano, a Folha de São Paulo, jornal do Grupo Abril, se tornou o primeiro jornal brasileiro a ter maior circulação digital do que impressa. Dos 316,5 mil exemplares de média diária mensal, 161,8 mil (51%) foram relativos à edição digital, contra 154,7 mil (49%) da impressa.

Custos de produção, impressão, diagramação, arte e envio. Assim como os jornais, livros físicos são caros em questões materiais, enquanto o digital se torna quase irrisório quando comparado. Apesar disso, é necessário considerar o interesse do leitor e a sua preferência, como aponta Juremir. “Tem um público que é do papel, são pessoas mais velhas e que leem minha a coluna no jornal [Correio do Povo]. E tem uma parte do público que lê as coisas que escrevo para o jornal na internet. É um público que espera que eu transfira o texto do jornal para o blog a fim de ler online”.

O papel só começou a ser usado no décimo século depois de Cristo. Antes disso, eram usados blocos e tijolos de barro, papiros e pergaminhos. Todos foram plataformas para a escrita e comunicação humana. Silva acredita que o papel é um material vitorioso, mas que, assim como os demais, pode ser substituído. “São cinco séculos de papel, mas agora surgiu um suporte inacreditavelmente mais econômico e mais performante (sic) do que ele. Talvez [o papel] possa servir como uma espécie de lastro. Se acontecer uma hecatombe que não tenha mais energia, é importante ter uma biblioteca física que guarde todo o conhecimento. Mas as formas de armazenamento digital são cada vez mais sofisticadas e dificilmente isso acontecerá”.

É possível encontrar aplicativos, telas e arquivos para facilitar a leitura on e offline. A indústria literária brasileira não parece querer abrir mão do livro impresso, mas também se introduz, aos poucos, no mundo digital. “Do ponto de vista do mercado editorial, o que continua dominante no Brasil é o livro impresso. Tanto que, quando publicamos um impresso com uma versão eletrônica, esta vende muito pouco. Os livros eletrônicos são caros em relação ao impresso, talvez por serem os mesmos editores. Eles não querem concorrer, sabem que seu negócio é o impresso”, avalia Juremir.

À Folha de São Paulo, o presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Marcos Veiga afirmou que não há dados oficiais sobre a venda de livros digitais no Brasil. Entretanto, ainda para A Folha, a empresa de pesquisa e consultoria Euromonitor revelou alguns dados sobre a aquisição de e-readers no país. As vendas aumentaram de US$ 2,3 milhões em 2014 para US$ 2,4 milhões em 2015. Contudo, a previsão da Euromonitor é que as vendas retornem ao patamar de US$ 1,1 milhão em 2020.

 

O conceito

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco) caracteriza o livro como: “Publicação não-periódica impressa de no mínimo 49 páginas, além da capa, publicada no país e disponibilizada ao público”. Será mesmo? Os e-books, e-readers e versões em PDF seriam menos livro? A partir disso, o professor Juremir questiona: “O livro é o papel, ou é o texto? Será que o papel é tão importante assim?”. Ao encontro do que questiona Juremir, Robert Darnton, em A Questão dos Livros: passado, presente e futuro, indaga: “Que terreno em comum existe entre os velhos livros e os e-books? Que vantagens mútuas ligam as bibliotecas à internet?”.

É possível contextualizar estas questões de acordo com a época cultural e tecnológica de determinada civilização. Ignorar a força das novas mídias e formas de comunicação, cada vez mais simbólicas e codificadas, seria negligenciar o processo evolutivo do próprio livro. “Estamos vivendo uma grande revolução tecnológica. A gente, às vezes, não atenta para a dimensão, mas é enorme. É uma revolução tecnológica tão ou mais radical quanto a que aconteceu quando Gutemberg inventou a prensa”, declara Juremir Machado da Silva.

Lúcia Santaella, em Linguagens Líquidas da Modernidade, afirma que: “O livro não desapareceu com a explosão do jornal, nem deverão ambos – livro e jornal – desaparecer com o surgimento das redes teleinformáticas. Poderão, no máximo, mudar de suporte, tal como o livro já saltou do couro para o papiro e deste para o papel”. Silva considera que o livro não passa da união de três elementos: um suporte, uma história ou argumento e um imaginário. “Não passa de algo que se conta, que precisa de um suporte e que representa uma visão de mundo. Mais do que aquilo que se conta, ele é uma visão de cultura, de civilização, uma relação cognitiva. Uma maneira de entender e produzir cultura”.

Em Dicionário do Livro, Isabel Faria e Maria da Graça Pericão o definem como “transcrição do pensamento por meio de uma técnica de escrita em qualquer suporte com quaisquer processos de inscrição”.

No presente momento, a mudança se dá por uma necessidade de adaptação às novas plataformas tecnológicas, com a finalidade de atualizar este suporte literário. Assim como a prensa de Gutemberg inaugurou a idade moderna, a revolução tecnológica citada por Silva pode ser o pontapé inicial de uma nova era na contemporaneidade.

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