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Multicultura

Jane Austen Day | Julho: o mês do bicentenário

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Jane Austen morreu há 200 anos. Porém, sua obra permanece viva e atualizada. A autora tratava, de forma crítica e com toques de ironia, assuntos como o matrimônio, que, na sua época, era algo central na estruturação da cultura inglesa. Com isso, Austen é chamada por estudiosos de Protofeminista, por que, ao abordar este tema, ela também questionava o papel da mulher na sociedade e a hierarquização das classes sociais. Tais assuntos são, ainda, pertinentes no século XXI. O Multiverso preparou um paralelo entre a vida e a obra de Jane para entendermos a importância de seu legado.

 

Jane Austen nasceu em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, na Inglaterra. Ela teve uma educação formal em escolas de Oxford e Reading. Mas seu pai tinha uma ampla biblioteca e, desde cedo, incentivou a filha a ler e a escrever de forma crítica. Aos 12 anos, Jane escrevia poemas e histórias. A partir de 1789, passou a se dedicar, exclusivamente, a literatura.

 

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Dez anos depois, concluiu os escritos First Impressions, que deram origem a Orgulho e Preconceito. As primeiras linhas dele são, também, a frase mais celebre da autora. “É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa”. Ninguém - nem estudiosos nem leitores - discordam que esta é a obra-prima da autora. Toda a subjugação das mulheres fica evidenciada. A história do livro acompanha a vida de Elizabeth Bennet, que tem uma visão contrária às expectativas da sociedade em torno do casamento. Austen utiliza sua personagem para fazer diversas críticas à dependência das mulheres tanto em questões financeiras, tendo o casamento como única fonte de riqueza, quanto à tomada de decisões. Algo que a autora sofreu quando seu pai fez inúmeros esforços para publicar seu trabalho, pois mulheres escritoras, naquela época, não eram bem vistas pela sociedade.

Apenas em 1811, após ter escrito vários livros, o irmão da autora, Henry, conseguiu publicar Razão e Sensibilidade sob o pseudônimo by a Lady. Nele, Jane deixa clara sua desaprovação ao sistema patriarcal, que define como herdeiro apenas os filhos homens. Isto, por que, na época da publicação do livro, Jane havia perdido o pai e seu irmão mais velho se tornou o herdeiro de tudo. A escritora, junto com a mãe e as irmãs, passou a ser sustentada por ele. No livro, as personagens Elinor e Marianne Dashwood, com personalidades distintas, também sofrem com a morte do pai, do qual não podem herdar nada. O livro teve grande aceitação do público e da crítica e esgotou a primeira edição rapidamente. O mesmo editor, dois anos depois, publicou o primeiro livro escrito, Orgulho e Preconceito (1813).

 

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Com o sucesso dos dois primeiros livros, os outros também foram publicados com o mesmo pseudônimo. Mansfield Park foi o próximo, publicado em 1814, e conta a história de Fanny Price, uma garota criada pelos tios ricos desde os dez anos de idade. Com um tom diferente das obras que a antecederam, o livro reflete a maturidade de Jane, assim como a de seus personagens. Em Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito há uma idealização moral dos personagens, mas que não tiram o tom crítico. Porém, na história de Fanny, a escritora criou personalidades completas, tanto em qualidades quanto em defeitos. Pois, sua heroína é introspectiva. Ou seja, ao acompanha-la, se tem a impressão de que ela é o oposto de Lizzy Bennet e Elinor Dashwood, mas, ao serem expostos os seus sentimentos e pensamentos, fica claro que ela é vítima da sociedade e que se obriga à resignação. Sem dúvida, é a história em que Jane Austen desenha a personalidade das moças desafortunadas da época, que se obrigavam a viver submissas.

No ano seguinte, em 1815, foi publicado Emma, o livro mais cômico da autora. Como dito, Orgulho e Preconceito é a sua obra-prima, mas é em Emma que fica clara a genialidade de Jane Austen. Após um livro mais sombrio, a escritora traz para o público uma personagem, que dá nome a obra, que reflete o lado da classe média. “Emma Woodhouse, bonita, astuta e rica, com um lar confortável e um temperamento feliz, parecia unir algumas das melhores bênçãos da experiência; e tinha vivido quase 21 anos no mundo com bem poucas coisas que a perturbassem ou aborrecessem”. Assim, Jane a define. Mesmo parecendo uma personalidade fútil, Austen dá à Emma a independência que as suas outras heroínas tanto almejam. Desta forma, expõem a diferença que a classe social provoca nas intenções e preocupações das moças.

Infelizmente, a partir de 1816, a escritora já dava sinais de saúde debilitada. Em 18 de julho de 1817, na cidade de Winchester, Jane Austen faleceu, deixando vários títulos inacabados. Após sua morte, seus irmãos, Henry e Cassandra, em dezembro de 1817, publicaram A abadia de Northanger e Persuasão, como uma homenagem à irmã. Foi a primeira vez que o nome de Jane Austen constou como autora. Mesmo publicados juntos, os livros eram opostos no tom das suas histórias. Em A abadia de Northanger, a personagem Catherine Morland é uma jovem ingênua, desatenta e atrapalhada, que vive procurando na sua realidade coincidências com as histórias que lê. Histórias repletas de desventuras e romances trágicos. Claramente, Austen satiriza os romances góticos. Já em Persuasão, mais parecido com Mansfield Park, a escritora crítica, mais uma vez, a diferença entre as classes sociais e o impacto que ela tem. A protagonista Anne Elliot é vítima da desigualdade social e sofre por anos a perda de seu grande amor. Tudo, por que Frederick Wentwork não é digno de tê-la como esposa.

Ao longo destes dois séculos, outros escritos da autora foram publicados pelos seus descendentes. Todos dentro da linha crítica da autora com relação à sociedade em que estava inserida. Austen se mantém como ícone da literatura mundial e como defensora do feminismo, porque sua obra traz discussões atuais. Se você deseja ler os livros da autora, para compreender melhor a sua grandiosidade, siga a sugestão de ordem para leitura.

 

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Inicie a leitura por Orgulho e Preconceito e depois leia Emma. Ambas são as obras máximas da escritora e possuem uma linguagem clara e divertida. Mantendo a leitura neste tom engraçado, leia Razão e Sensibilidade. Estes três primeiros são perfeitos para iniciantes. Todos têm sua cota de crítica, ao mesmo tempo em que são alegres e têm a dose de romantismo ideal. Também introduzem o leitor aos livros mais densos de Jane, tanto na linguagem como na intensidade da trama que se encontrará nas obras seguintes. Por isso, siga lendo A abadia de Northanger. Este permanece com um tom divertido, mas requer mais atenção à linguagem. Na sequência, estará pronto para mergulhar nos dois livros mais densos da autora, Persuasão e Mansfield Park, respectivamente.

jane 05Depois de ler os seis principais romances de Jane Austen, você poderá ler os escritos Lady Susan, Amor e Amizade & outras histórias, Os Watson e Sanditon. Todos são datados da adolescência da escritora. E são os retratos mais fieis tanto das pessoas que conviviam com Austen, como a descrição de diálogos da época, principalmente, através de cartas.

Para finalizar sua trajetória austeniana, sugere-se O Clube de Leitura de Jane Austen, de Karen Joy Fowler. O livro foi publicado em 2017, pela editora Rocco. Com o livro é possível compreender que cada um que lê Jane Austen tem uma visão em relação à autora. E que não há um livro preferido ou melhor que o outro. Jane Austen sempre será reconhecida pela totalidade de sua obra.

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