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Jornalismo

1º de junho: Será o dia D da imprensa?

dia imprensa dezoitoFoto: Divulgação

A comemoração do Dia Nacional da Imprensa, neste 1º de junho, mostra a síntese controversa da imprensa no Brasil, ora defensora dos interesses da população e das liberdades políticas e individuais, ora porta-voz do poder. A data marca a primeira publicação do Correio Braziliense, jornal editado pelo brasileiro Hipólito José da Costa em Londres, em 1808, lançado três meses antes do jornal A Gazeta, com o intuito de informar a população sem a censura da Coroa Portuguesa. A data antes era comemorada em setembro, pelo lançamento da publicação da imprensa régia, mas a mudança no calendário oficial, em função de duas publicações lançadas no mesmo ano, com linhas editoriais totalmente diferentes, não elimina a discussão sobre o papel que efetivamente os meios de comunicação brasileiros cumprem.

O dia da imprensa se comemora em uma semana de crise no País e entre as consequências da paralisia causada pela greve/locaute do sistema rodoviário está a própria cobertura dos fatos. Houve espetacularização? A imprensa tem dificuldades de cobrir temas complexos? A imprensa deve disputar versões com as narrativas que os próprios protagonistas do movimento fazem?

Essas questões são levantadas em um momento de encruzilhada para o modelo de comunicação de massa. É tal a desconfiança com as notícias que circulam e é tanto o fluxo de informações falsas, que a imprensa se vê diante de uma nova modalidade, em que é necessário checar todo o conteúdo publicado. Será este o momento mais difícil para o jornalismo?

Para aprofundar esta questão fundamental, o Multiverso entrevistou o Diretor da Pensamento.org, jornalista Tiago Lobo, com 11 anos de experiência em reportagem, edição e produção editorial multiplataforma, em jornais do Brasil e do exterior, revistas e portais de notícias. Tiago atua com foco na defesa dos Direitos Humanos, foi caça-talentos para jornalistas, edita a Revista Pensamento e atua na agência Filtro, uma iniciativa de checagens (fact-checking) da ONG Pensamento.org para verificação de fatos, dados e declarações públicas com foco no Rio Grande do Sul. 

filtro fact checkingFoto: Divulgação Filtro

“Nosso objetivo é desconstruir informações enganosas e buscar a verdade, pois acreditamos que ela realmente importa”, diz Tiago. Acompanhe a entrevista

 

Multiverso: Tiago, como avalias a cobertura da greve-locaute dos caminhoneiros? Houve espetacularização?

Tiago Lobo: Bem, aqui estou respondendo como diretor da Pensamento.org. Esta opinião é bastante pessoal e não posso afirmar que reflita o ponto de vista de toda a instituição ou da equipe do Filtro. Dito isso, eu não sei se houve espetacularização. Seria preciso estabelecermos um consenso sobre o que é o espetacular numa cobertura jornalística e talvez isso não nos levaria muito longe. Acho mais correto falar no choque das narrativas.

Dentro da minha subjetividade e da minha análise como crítico de mídia eu acredito que as próprias condições de trabalho existentes no jornalismo tradicional, ou seja, a lógica do mercado influenciando e pressionando as atividades laborais, dificultam e por vezes, impossibilitam as melhores práticas jornalísticas. Estou falando basicamente da ideia de Jeremy Bentham, depois elaborada por Michel Focault, do “Olhar Panóptico”. Aliás, penso que quando falamos de “coberturas”, já falamos de algo complexo.

Acho que para avaliarmos com honestidade as dificuldades das últimas grandes coberturas da imprensa dita tradicional, principalmente de redes de televisão que foram perdendo legitimidade perante a opinião pública, precisamos analisar o contexto em que estes profissionais estão inseridos. Pelo menos um pouquinho. As empresas adoram se valer do que eu convencionei chamar, no livro que estou escrevendo sobre a falência da instituição imprensa chamado “A Gênese da Divindade Obsoleta”, de "exploração econômica multimeios": um jornalista é contratado para produzir conteúdo para um veículo, e ser pago por isso. Mas este conteúdo será replicado, revendido e redistribuído para dezenas de outros veículos, na maioria das vezes, sem qualquer repasse para aquele jornalista que produziu o conteúdo e que gerou uma cadeia de lucros para a empresa. Além disso, os jornalistas são forçados a acreditar que o futuro é ser um profissional multimídia - nada mais do que uma forma de fazer o profissional produzir mais, de diferentes formas narrativas, deslocando o fardo da contratação de equipes de profissionais e barateando a produção do conteúdo que vai ser, novamente, explorado em lógicas de agências de notícias.

No Brasil, a credibilidade da mídia é de 43%, segundo a pesquisa Edelman Trust Barometer de 2018, que analisou 28 países e identificou que pela primeira vez a mídia é a instituição menos confiável globalmente: em 22 países ela se encontra em descrença. Mas piora: 58% dos brasileiros não sabem diferenciar o que é verdade do que é mentira e 75% têm medo que as Fake News sejam usadas como armas. Isso reforça a ideia de que a pós-verdade, onde apelos as emoções possuem mais peso do que fatos comprováveis para moldar a opinião pública, é um fenômeno latente. Para acessar a pesquisa completa, clique aqui.

Justamente por tudo isso creio que disputar narrativas não seja o papel adequado do bom jornalismo. Nós não podemos tentar empurrar as nossas verdades, mesmo que enquanto conclusões baseadas em fatos, pois ao fazermos isso nos distanciamos do nosso público e nos colocamos em um patamar como se fôssemos privilegiados por verdades que apenas nós “jornalistas iluminados” compreendemos.

E, não cabe ao jornalista o poder e a tarefa de legitimar ou deslegitimar as narrativas alheias. Primeiro, precisamos tocar na consciência e entender que não estamos fazendo bom jornalismo, na maioria dos casos. Um exemplo disso é que os protagonistas do movimento da greve dos caminhoneiros são desconhecidos. As informações que temos sobre a prática de locaute, por exemplo, não partem de apuração jornalística, mas de reprodução de documentos oficiais. Eles deveriam ser, no máximo, ponto de partida para uma reportagem e não a reportagem em si. Quando um jornalista entra neste embate de disputar versões, ele está criando uma peça de comunicação com um objetivo ideológico claro. E não é essa a nossa função. Não é jornalismo. Jornalismo não se trata de disputar versões, mas de ouvi-las, respeitá-las e checá-las.

Multiverso: A apuração é uma das bases técnicas e éticas do jornalismo. Os veículos não conseguem cumprir a contento essa premissa e é necessário o trabalho das agências de checagem?

Tiago Lobo: Com certeza. A apuração é o que diferencia o jornalismo da literatura e do entretenimento. Sem apuração não há jornalismo. O espaço que possibilita o surgimento das agências de checagem é justamente a dificuldade da imprensa em se reinventar e se reposicionar após a criação da internet. Não acho que houve um esfacelamento do modelo de negócios, mas uma divisão natural e evolutiva inclusive da divisão do bolo publicitário e do volume de assinantes. A internet pulverizou o foco de empresas e audiência que antes se detinham nos veículos tradicionais. O mesmo argumento foi utilizado pelo jornalismo impresso quando o rádio chegou e pelo rádio quando a TV apareceu. É a velha lógica de uma imprensa conservadora de justificar um modelo econômico falho com bodes expiatórios. O problema não está, para mim, na nova mídia (ou novas mídias, com as redes sociais disputando terreno), mas no conservadorismo da própria imprensa enquanto instituição.

Defendo que hoje vivemos algo que achei justo chamar de a "gênese da divindade obsoleta". Quando o senso comum sobre uma profissão que deveria oferecer a verdade, dentro de toda a sua subjetividade, dado seu contrato social implícito, perde a crença na validade deste compromisso social (com a verdade), há uma ruptura nas estruturas clássicas da profissão, impulsionada por situações de mercado e linhas de produção de notícias que eu já comentei. Isso cria uma homogeneidade da produção jornalística que aborda os mesmos fatos da mesma forma, com os mesmos enfoques, e depõe, passivamente, contra a suposta credibilidade que já foi o principal ativo da imprensa. Se não há crença nesta credibilidade e compromisso com a verdade, que até então era o que uniformizava o entendimento acerca da profissão e servia de ponto de partida para a definição subjetiva e individual de valores-notícia, vemos a gênese de uma divindade obsoleta chamada imprensa.

Dentro desse processo impulsionado pela lógica do mercado e todos seus efeitos coercitivos, dentro de um cenário panóptico, há uma divisão do jornalista enquanto ser social da instituição imprensa. Eu os divido entre repórteres e produtores de conteúdo noticioso. Os repórteres contam histórias de não-ficção, sua matéria-prima é ‘gente’ e seu objetivo é a busca pela verdade. Os produtores de conteúdo noticioso reproduzem e divulgam informações, sua matéria-prima é o fato e o objetivo é a busca pelo fato provável.

Considero jornalismo/reportagem aquilo que pressupõe apuração, precisão, análise e profundidade. A fórmula “APAP”, segundo brinco, define para mim o que é reportagem. Por isso, acredito que estejamos entregando produtos ruins e homogêneos para leitores que hoje não precisam mais de gatekeepers, pois os operadores lógicos e algoritmos das redes já fazem este papel. A curadoria do conteúdo foi automatizada. Logo, ou investimos tempo e dinheiro em modelos de negócios alternativos que estimulem os leitores a pagar pelo que consomem, e voltamos a produzir conteúdo relevante, preciso, e cuidar das formas narrativas, pois o ser humano jamais deixará de se interessar pelo que se conta, bem contado, ou seremos esmagados pelo infotenimento e pela curadoria de bots.

Multiverso: O Fact-Cheking seria esse modelo alternativo?

Tiago Lobo: O Fact-Checking nasce ali por 1991/1992, com o jornalista Brooks Jackson, na CNN. Mas, ele começa a ganhar o mundo (hoje temos iniciativas espalhadas por todos os continentes) utilizando o boom digital. A possibilidade de hiperlinkar planilhas, documentos e bases de dados e oferecer tudo isso aberto e de forma transparente para o leitor confere ao Fact-Checking uma certa legitimidade no que tange a retomada desta credibilidade em ruínas por dizer para o leitor o seguinte: “Veja só, não somos os donos da verdade e podemos errar, por isso checamos e mostramos para você como checamos para que você possa conferir todo o caminho da apuração e, inclusive, questionar o nosso trabalho com base em dados e fatos confiáveis”.

O surgimento do Fact-Checking não é um fenômeno que vai salvar o jornalismo ou que faça melhor jornalismo do que os veículos tradicionais. É um movimento paliativo, crítico, que, identificando toda uma situação que não é nova, diga-se, busca somar com o jornalismo tradicional visto que existem inúmeros fatores que impossibilitam que o próprio jornalismo complete o seu ciclo produtivo de forma plena. Mas sim, nós jornalistas estamos fazendo mal o nosso trabalho e é por isso que surge espaço (e isso é saudável) para iniciativas como agências de checagem e sites que desbancam boatos (debunking) como o E-farsas e o Boatos.org, que já faziam isso bem antes dos jornalistas se organizarem enquanto checadores.

Multiverso: Qual a diferença, na tua visão jornalística, entre verdade e mentira e manipulação e enquadramento tendencioso?

Tiago Lobo: É interessante a pergunta pois eu me dei conta que quando somos convidados para falar em alguma universidade a pauta é normalmente como combater mentiras. Temos falado tanto sobre mentiras e fake News que acho que nos falta o exercício, de caráter filosófico mesmo, de tentar compreender a verdade dentro das suas subjetividades e definições. E não conheço uma universidade no RS que aborde o tema do ponto de vista da filosofia, que dá muita substância para o jornalismo.

Para o jornalismo, parece simples dizer que a verdade é o que pode ser comprovada por meio de fatos e dados confiáveis. Mas, acredite, temos oito etiquetas no Filtro para tentar englobar toda a complexidade da verdade, e é a parte mais difícil do processo. Há um grau de subjetividade. Por isso, é importante que a checagem seja transparente sobre sua construção.

Ao mesmo tempo, e aqui falo apenas por mim, a pós-modernidade retomou o relativismo dos sofistas como Protágoras que dizia que “o homem é a medida de todas as coisas” e radicalizou com o extremismo de que “toda a verdade é relativa”. Não acredito nisso. Creio que o pós-modernismo foi a esteira da pós-verdade.

Os pós-modernos são anticosmovisão (contra verdades universais) e antidogmáticos. Logo, “toda a verdade é relativa” não poderia ser um dogma. Portanto, se toda a verdade é relativa, é relativo que toda a verdade é relativa. Entramos em um ciclo sem fim que carece de encadeamento lógico.  Na Filosofia, temos inúmeros pensadores que propuseram conceitos sobre a verdade. Por exemplo:

A verdade por consenso, que vem da tradição hebraica (Emunah); a verdade dos escolásticos medievais (Veritas) que era a correspondência da coisa com o intelecto; A verdade pragmática em que é útil o que é verdadeiro, e é verdadeiro o que é útil; a verdade por coerência que é dedutiva e parte das ideias; a Aletheia aristotélica que foi estudada e definida por Heidegger como um descobrimento; a verdade de Emanuel Kant que dá origem ao ceticismo e inúmeras outras.

Acho que os pontos onde há algum consenso é que a verdade deve ser perseguida, mesmo que talvez não possamos alcançá-la e que ela busca construir referências, contrapor dogmas e apresentar respostas para as nossas perguntas. E, que por mais que desejemos, as nossas crenças não mudam a verdade, pois verdades não se inventam: se descobrem.

Com a cristalização da narrativa pós-moderna de que toda verdade seria relativa, dentro de uma ideia de que as minhas verdades enquanto indivíduo diferem das suas, chegamos a um cenário de pós-verdades onde a verdade (e desculpe pelas repetições necessárias) se torna o efeito gerado no indivíduo pela sobreposição da retórica alheia. Ou seja: o meu argumento vence o seu, logo é verdade, pois tudo é relativo.

Aí um presidente como Donald Trump lança a expressão ‘Fatos Alternativos’, o que é contraditório dentro da própria construção etimológica e cultural das duas palavras. O que isso nos mostra? Que bem... se toda a verdade for relativa, não há o que questionar pois não existem mentiras, mas sim ‘fatos alternativos’ e aí a avenida para a desinformação é pavimentada como uma autoestrada alemã onde você pode dirigir tranquilamente a mais de 100km/h.

Eu não nego a subjetividade da verdade, de forma alguma. Mas verdades são, historicamente, contrapostas por verdades. O mundo era plano e isso já foi verdade. Hoje é redondo. Terras-planistas fazem conferências e tentam provar o contrário, mas até conseguirem a verdade é que a terra é redonda e não é pelo consenso da crença, mas pelas evidências científicas que descobriram isso.

A mentira desconsidera o sujeito e o conhecimento, tradicionalmente. No entanto, a própria era em que vivemos já faz isso ao construir convicções baseadas em sentimentos e não em fatos. Estamos mentindo mais pois talvez estejamos mais primitivos e menos racionais.

No fundo, a manipulação e o enquadramento tendencioso são mentiras. Você pode usar dados falsos ou ‘interpretar’ metodologias de pesquisas para provar um ponto, afirmar uma ideologia. Mas continua sendo tudo mentira.

Multiverso: No teu entendimento existe reconhecimento e uso pelos veículos do material das agências de checagem?

Tiago Lobo: Sim, a plataforma Aos Fatos já foi publicada em alguns grandes veículos de imprensa. Inclusive eles checaram os boatos sobre a vereadora Marielle Franco, assassinada no RJ, e essa checagem, além de muito completa e competente, teve ótima repercussão. A Agência Lupa vende suas checagens para veículos como O Globo e Folha de São Paulo. As checagens vêm sendo utilizadas pela grande imprensa. O Truco, da Agência Pública, também tem republicadores.

No caso do Filtro, estamos para publicar nossas primeiras checagens feitas por alunos de jornalismo da UFRGS que passaram por uma oficina oferecida pelo Filtro e pelo Troco Dados. E todo nosso conteúdo é licenciado sob Creative Commons 4.0, o que significa que qualquer pessoa ou veículo pode nos republicar sem problemas, desde que mantenha o conteúdo inalterado e credite o Filtro.

Temos planos para oferecer conteúdo multimídia para veículos de comunicação, principalmente do interior que possuem dificuldades operacionais para cobertura eleitoral, mas isso ainda está se encaminhando.  

Multiverso: Por que grupos mais conservadores e de orientação ideológica à direita estão combatendo as agências e identificando-as como de esquerda?

Tiago Lobo: Estes grupos lançaram um documento, anônimo, com 300 páginas expondo e difamando colegas da Lupa, Aos Fatos e Truco da Agência Pública. Os acusam de censores ‘esquerdistas’, pois duas destas agências fazem parte da iniciativa do Facebook para limitar o alcance de notícias fraudulentas. E eles acreditam que o Facebook é ‘de esquerda’...

Para mim, o motivo é bem simples: não tem nada a ver com esquerda e direita. O ataque não é motivado por uma ideologia liberal que defende a liberdade de expressão, os ataques contra as agências de Fact-checking são mais elaborados dentro das suas militâncias reacionárias. Eles buscam garantir que o seu conteúdo não tenha o alcance orgânico diminuído e que possa ser impulsionado (patrocinado) para atingir o maior número de pessoas iletradas para a mídia.

Mas qual a conexão com as agências de checagem? Elas vão verificar conteúdo potencialmente falso para o Facebook e ao identificá-los, eles não serão removidos da rede, mas chegarão a menos gente, não poderão ser patrocinados e qualquer pessoa que queira compartilhá-lo receberá um aviso de conteúdo falso.

O resultado é o esfacelamento econômico de sites mantidos por grupos radicais como o MBL, que funcionam como usinas de produção de notícias falsas sustentadas por cliques.

Multiverso: O que esperar do jornalismo neste momento?

Tiago Lobo: Ousadia, mais ousadia e ainda ousadia!

equipe filtroFoto: Tânia Meinerz - A equipe Filtro é formada por Naira Hofmeister, Taís Seibt e Tiago Lobo.

AGÊNCIA FILTRO

A Filtro vai acompanhar discursos, entrevistas, programas eleitorais, perfis públicos dos candidatos gaúchos e verificar se o que eles dizem têm fundamento em dados confiáveis e fatos comprováveis, seguindo o código de princípios da International Fact-checking Network

Temos uma vaquinha no ar para arrecadar R$13 mil para realizarmos esta cobertura.

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