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Aluno destaque

A banca de Annanda: quando a inclusão e a acessibilidade se tornam uma realidade

annanda1Foto:Bruno Dornelles

A tarde do dia 29 de junho foi de chuva e frio, típica do inverno gaúcho. Mas, o estúdio do Laboratório de TV transbordava calor e emoção. Foi defendido o último Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da Comunicação neste semestre. Foi a defesa de uma aluna muito especial. Ananda Ayres, acadêmica de Publicidade e Propaganda, ultrapassou seus limites. Um momento gratificante para todos os presentes: amigos, familiares, professores, colaboradores da instituição e até a jornalista Larissa Roso, do Jornal Zero Hora. Ela veio acompanhar a história de superação da Annanda. E Multiverso? Claro, estava lá.

No artigo apresentado, a aluna pesquisou sobre os critérios considerados por surdos profundos para compra de produtos anunciados em comerciais da TV aberta. Um universo muito próximo a ela. Annanda nasceu surda. A apresentação para a banca estava marcada para às 17h30. Entretanto, os preparativos iniciam muito antes. Por volta das 13h, Annanda já estava pelo IPA para fazer os últimos ajustes, checar a apresentação e também para dar uma entrevista à jornalista Larissa Roso, do Grupo RBS/Zero Hora.

Quando o relógio marcou 14h30, a entrevista de Annanda, acompanhada de sua orientadora, a Profa. Dra. Valéria Deluca, com Larissa começou. Por todo contexto, a conversa necessitou da ajuda de uma interprete, Fernanda Santini Romero, que durante inúmeras aulas e eventos acompanhou a estudante. A conversa entre elas durou cerca de 2 horas. Quando o relógio bateu 16h, era hora dos registros fotográficos para a reportagem da Zero Hora. Depois, foi dado um tempo para Annanda respirar e se preparar para o momento da apresentação.

annanda2Foto:Bruno Dornelles

Nesse intervalo, o Multiverso conversou com a Larissa Roso. Queríamos conhecer o lado de quem conta histórias eregistra a emoção e a dedicação do outro. “Tomei conhecimento da história de Annanda a partir de uma colega jornalista que comentou comigo que tinha achado uma matéria que era a minha cara. Eu achei ótima. Eu estava prestes a começar outra matéria, e então eu falei para o meu editor: olha eu tenho uma melhor, o que tu achas? Ele aceitou e então, entrei em contato com a Valéria e ajeitamos tudo”. 

annanda3Foto:Bruno Dornelles

Ela explicou que contar a história de Annanda surgiu do interesse que tem em matérias que exaltam o viés humano, que contem histórias de vida, de superação. “Sabendo o pouco que eu sabia da história da Annanda e conversando com a Valéria, eu vi que ali já tinha uma bela história a ser contada. Uma pessoa que tem uma surdez profunda desde o nascimento já tem muita coisa pra contar, já viu muita coisa e já sofreu muita dificuldade. Eu acho que um componente muito importante é quando a gente pode acompanhar as coisas acontecendo. Por isso, estou aqui”, relata ela.

Um elemento que também chamou muito a atenção de Larissa foi o fato de uma pessoa surda-muda escolher um curso de Comunicação. “Esse estalo me deu logo quando iniciei a conversa com a Annanda. Eu achei muito curioso. Tem que ser uma pessoa corajosa para fazer essa escolha. Escolher um curso de Comunicação que é um dos pontos que mais afasta ela do mundo de onde ela está inserida. Deve ter sido uma jornada solitária para ela na faculdade, em razão da dificuldade de comunicação com os colegas”.

Questionada sobre como ela vê as questões de inclusão e acessibilidade no meio jornalístico na atualidade, ela contou que na redação da Zero Hora trabalham duas colegas cegas, uma cadeirante e um colega com uma má formação. “Uma dessas colegas cegas tem a visão, porém muito baixa. Hoje, ela é repórter de segurança. Ela faz matéria de crime, de violência, não sei te dar detalhes de como ela trabalha. O que me intriga é que falta para ela uma coisa que para mim é fundamental: a visão. No caso do cego que nunca enxergou por exemplo, fica difícil até da gente entender como ele interage com o mundo. Eles afloram e desenvolvem outros sentidos que nós não desenvolvemos. Acredito que a questão do olhar pessoal do jornalista,seja colocado de outra maneira. Agora fiquei curiosa, vou perguntar como ela faz”.

Larissa acredita que a realização e divulgação deste trabalho pode motivar outros PCD’s a estudar e cursar uma faculdade. “A Annanda é inspiradora. Com certeza foi uma jornada e tanto. Ela contou sobre a solidão dela. Ela foi muito valente! Mesmo ela tendo uma guardiã, uma intérprete do lado, é uma experiência diferente. Ela não viveu a faculdade como a maioria vive, fazendo grupos, festas, interagindo, loquiando. Talvez então, tenha faltado um componente que é bem caraterístico do período universitário. Eu estou vendo com meus olhos, comparando a minha vida com a dela. Mas talvez, para ela, não tenha sido tão dramático. Mas ainda acho que ela é inspiradora!”.

Quando questionada sobre qual seria o maior legado que esse trabalho poderia deixar, Larissa destacouque as pessoas podem fazer o que quiserem. “As limitações apenas limitam, mas, não impedem! Annanda mostra que dá para fazer, que há dificuldades e que é preciso arrumar saídas e caminhos. Acho que todo caminho tem barreiras, a gente tem fases na vida com mais obstáculos do que outras, têm pessoas que enfrentam mais problemas do que outras, mas acredito que tudo é movido pela vontade. Se tu tem um objetivo e aquilo é fundamental para a tua vida, tu vais dar um jeito e não desistirá tão facilmente. No mínimo, é uma reflexão que devemos fazer”.

Chega a hora. São 17h. Hora da defesa de Annanda. Todos apreensivos, nervosos, mas, gratificados por estar ali. Annanda apresenta, a banca faz suas considerações e se retira para deliberar a nota. É a hora de relaxar e aguardar. O tempo passa mais devagar. Os professores retornam.

A orientadora toma a palavra, agradece aos presentes e destaca o apoio incondicional recebido da coordenação do curso de Publicidade e Propaganda, na figura da Profa. Me. Nancy Vianna, dos professores da Comunicação, das intérpretes e do trabalho desenvolvido pela Sala de Recursos e pelo Núcleo Discente, Docente e de Funcionários do IPA; da família e amigos; e dos técnicos do Laboratório de TV e Áudio que participaram da gravação e edição do TCC de Annanda em Libras.

Em conversa com o Multiverso, Valéria destacou: “Não vivemos um mundo de iguais. Embora, na maioria das vezes, achamos que sim. Somente quando percebemos o outro de verdade e entendemos que todos temos limitações, aprendemos algo novo. Falar em inclusão, parece algo simples. Mas, não é. Na prática, temos rever todos os nossos conceitos e aceitar a diferença como uma coisa inerente ao ser humano”.

A professora disse que tem certeza que Annanda rompeu todos os seus limites. “E, eu também. Precisei me colocar no lugar dela, pensar como ela, me expressar como ela. Cresci em um ano, durante este projeto, mais do que posso imaginar. O resultado é um trabalho emocionante. Quem assiste o TCC da Annanda não tem dimensão do que foi fazê-lo, tanto para mim quanto para ela. Saímos mais fortes e certas de que a acessibilidade é o único caminho para encontrarmos uma sociedade mais justa e fraterna”.

Nancy Vianna, coordenadora do curso de PP, também destacou o apoio recebido do IPA. Explicou que o curso trabalha de forma integrada. “Desde a chegada da Annanda ao curso, nos mobilizamos para oferecer a ela um ensino inclusivo e de qualidade”, lembrou a professora. Ela fez questão de destacar a importância da família, amigos, intérpretes, colegas de aula, professores e os colaboradores que tiveram contato com Annanda. “Precisamos de mais empatia e sensibilidade. Não podemos deixar de acreditar no amor e manter firme a dedicação na luta por um ensino capaz de melhorar a sociedade que vivemos, tornando-a mais justa e inclusiva”, disse ela, emocionada.

Quer saber a nota de Annanda? Sim, foi um 10 com todo o destaque que merece. Com certeza foi uma tarde de muito prazer e orgulho para todos que estiveram presentes naquela solenidade. A equipe do Multiverso felicita e parabeniza a Annanda pela sua graduação e fica na torcida para que sua carreira seja repleta de alegrias e realizações. #vaiterformatura

annanda4Foto:Bruno Dornelles

Confira:

A matéria publicada em GaúchaZH

https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2018/07/como-uma-aluna-com-surdez-profunda-e-sua-orientadora-de-tcc-romperam-barreiras-cjj7gfaat0m0o01qoxtwmp5fb.html

O TCC defendido por Annanda Ayres

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