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Jornalismo: “O interesse público permanece forte como norma, mas frágil como práxis”

basilio1Foto: Divulgação

No Dia do Jornalista, o Multiverso conversa com o Prof. Dr. Basilio Sartor. Ele faz uma reflexão sobre o momento desafiador que o Jornalismo vive atualmente e avalia o contexto sócio-político a partir das fake news, pós-verdades, democracia e tendências em comunicação.

 

Multiverso: Dia do Jornalista e vivenciamos uma época de mudanças no papel desse campo tão importante para as democracias e para a cidadania. Na tua avaliação, qual a principal transformação? É tecnológica (novos dispositivos, linguagens e plataformas) ou social (novo contrato social para exercer o papel de narrar o mundo)?

Sartor: A transformação é simultaneamente tecnológica e social. É até mesmo difícil separar o que é mudança tecnológica e o que é mudança social, pois elas estão imbricadas e se influenciam mutuamente. As novas mídias não apenas quebraram o monopólio do Jornalismo como instituição autorizada e capacitada para narrar e comentar os fatos publicamente relevantes da atualidade, como também afetaram de forma drástica a relação dos públicos com a informação e a opinião. Mas essas alterações não podem ser explicadas apenas pela emergência de novos dispositivos, plataformas e linguagens. Quando se pensa em fake news e pós-verdade, temas que impactam fortemente o jornalismo, o papel das novas tecnologias é central, mas outras questões que dizem respeito, por exemplo, ao campo da Política, são igualmente importantes. E todas elas estão inter-relacionadas.

Multiverso: Alguns valores e princípios do Jornalismo são inegociáveis, ou deveriam ser, como a verdade e o interesse público.  Isto pode se alterar?

Sartor: Estes grandes princípios e valores do Jornalismo devem permanecer. Afinal, se não houver compromisso com a verdade e o interesse público, não se trata mais de jornalismo, que, por definição, diferencia-se da ficção e das formas de comunicação orientadas por interesses privados. Mas é importante dizer que, quando falamos em princípios e valores, estamos no campo da ética. A ética se refere ao “dever ser”, ela não descreve o que “é”. Historicamente, existe um abismo entre o que o Jornalismo efetivamente faz e aquilo que deveria fazer. A dimensão normativa e a dimensão fática coincidem pouco. Em outras palavras: o compromisso com a verdade e o interesse público permanece forte como norma, mas frágil como práxis. As transformações atuais podem ou não aprofundar esse descompasso. Há movimentos e exemplos nos dois sentidos.  

 

Multiverso: Qual o principal desafio da profissão, considerando o ambiente de pós-verdade e as transformações nos modelos de negócio?

Sartor: Há dois desafios principais e, de certo modo, interdependentes. Um deles se refere à forma de financiamento do Jornalismo. O modelo de financiamento consagrado no século XX não funciona mais. Alternativas estão sendo testadas, mas a solução para este problema ainda não foi encontrada. O outro desafio tem a ver com a legitimidade do jornalismo como instância capaz de produzir um discurso sobre a realidade social do tempo presente e, consequentemente, como instituição necessária à democracia. Essa legitimidade tem sido corroída por razões diversas, complexas e relacionadas. Uma delas é o próprio descompasso histórico entre a ética do Jornalismo e a produção jornalística dos grandes meios de comunicação. Outra diz respeito ao que podemos chamar de “analfabetismo midiático”: de modo geral, o público não aprendeu a diferenciar fato de opinião, a identificar fontes credíveis de informação e a reconhecer métodos válidos de apuração. Isso sempre foi um problema, mas agora foi potencializado pelas novas mídias, que oferecem poderosos instrumentos de manipulação da opinião pública. As fake news disseminadas por whatsapp, por exemplo, produziriam baixo impacto se a sociedade tivesse um alto nível de letramento para o consumo de informações. Somam-se a isso os fenômenos da pós-verdade e do viés da confirmação, que levam as pessoas a ignorar ou a negar fatos objetivos quando eles contrariam suas crenças e opiniões. São desafios gigantescos para o jornalismo. Se a sociedade não reconhecer mais o jornalismo como fonte credível e como instituição básica da democracia, a profissão estará morta. Mas quero acreditar que não iremos tão longe, pois a morte do jornalismo significará também a morte da democracia.

Multiverso: Hoje, há uma tendência de combate ao papel dos meios de comunicação em geral e do jornalismo em particular na disputa de narrativas dos acontecimentos.  Como vencer essa nova tendência de privilegiar a circulação de informações por fora dos meios tradicionais?

Sartor: A resposta é um desdobramento do que eu disse na pergunta anterior. É preciso promover a alfabetização midiática, tanto na Educação formal quanto por meio de iniciativas da sociedade civil. O público pode continuar consumindo informação e opinião em fontes jornalísticas e não-jornalísticas, desde que seja capaz de fazer uma leitura inteligente dessas informações e opiniões. Ele precisa aprender a diferenciar relatos sobre fatos objetivos de textos (aqui entendidos em seu sentido amplo, discursivo) argumentativos que defendem determinada opinião acerca destes fatos. Precisa se perguntar: qual a fonte dessa notícia ou quem está defendendo essa opinião? Quais os possíveis interesses dessas fontes? No Jornalismo, aprendemos que toda fonte é interessada. E mais: qual o método utilizado para apurar essa informação? Existe método, e, se existe, o quão rigoroso ele é? Que aspectos ou dados da realidade estão sendo enfatizados ou apagados e por quê? Tudo isso faz parte dessa alfabetização midiática. Só vejo este caminho para garantir a existência do jornalismo no século XXI e, mais do que isso, a qualidade da sua produção.

 

Multiverso: Na tua opinião, qual o perfil esperado dos profissionais de Jornalismo e qual o papel possível neste ambiente mais adverso para o conhecimento e a ciência?

Sartor: De um ponto de vista mais técnico e mercadológico, o perfil esperado é o do jornalista multitarefa e capaz de dominar diferentes suportes e linguagens. Não vejo como reverter essa exigência. Quanto mais apto a produzir para diferentes mídias e em diferentes linguagens, maior será seu valor no mercado de trabalho. Além disso, exige-se também que o jornalista seja criativo e tenha competências de empreendedor, mesmo que atue como funcionário numa empresa de comunicação. De um ponto de vista mais social, segue sendo fundamental que o profissional tenha uma sólida formação humanística (política, economia, cultura, artes), acrescida de conhecimentos sobre tecnologia – um campo emergente é o do jornalismo de dados, que demanda noções de informática e até de estatística. O papel nesse novo cenário redimensiona aquelas funções já consagradas da profissão: identificar e fornecer um relato com valor de verdade sobre os acontecimentos atuais e socialmente relevantes, monitorar as instâncias de poder, contribuir para o esclarecimento do público e suprir seus interesses de informação. Tudo isso permanece, mas o modo de se cumprir essas funções é que é redimensionado. As iniciativas de checagem dos discursos públicos, a emergência do jornalismo de dados, o retorno às grandes reportagens, a transparência quanto aos métodos de apuração são novas formas (ou, em alguns casos, são uma ênfase em formas consagradas que estavam um pouco adormecidas) de o jornalismo cumprir este papel.

Multiverso: O professor Wilson Gomes tem chamado de epistemologia tribal da direita essa tendência em recusar os fatos e o contraditório, características inescapáveis do jornalismo. Como contornar essas frações expressivas que inclusive atacam muito profissionais e meios?

Sartor: Minha resposta para esta pergunta é a mesma resposta da pergunta 4. Não vejo como contornar esse problema a longo prazo sem iniciativas educativas que promovam uma leitura crítica dos conteúdos produzidos por (e em) todas as mídias. A curto prazo, em todos os espaços possíveis, é preciso fazer uma defesa intransigente da verdade, do jornalismo e da democracia. Essa luta – que é política – tem que ser imediata.

Multiverso: Vale a pena investir no jornalismo?

Sartor: O jornalismo é uma instituição vital para a sociedade e para a democracia. Então, mais do que valer a pena, investir no jornalismo é um imperativo social. De um ponto de vista estritamente econômico ou financeiro, eu não sei se, hoje, está valendo a pena. Investidores são pragmáticos e falam a linguagem dos números. Lucro é uma questão quantitativa, verdade e interesse público são questões qualitativas. Mas, se dependermos apenas de acionistas para garantir a viabilidade do jornalismo, podemos nos dar por vencidos. É a sociedade como um todo que precisa entender o jornalismo como necessário. Se ela atribuir importância ao jornalismo, de preferência ao jornalismo eticamente compromissado, este jornalismo terá como financiar sua produção, porque terá consumidores para essa produção. E, se o jornalismo tiver consumidores, também terá investidores.

 

Multiverso: Qual o recado você deixa para os estudantes de Jornalismo?

Sartor: Vocês, futuros jornalistas, têm a missão quase épica de vencer esses desafios todos e dar materialidade a esse papel social do jornalismo. A dificuldade de se fazer isso é diretamente proporcional à importância de vocês. É claro que as condições objetivas são muito difíceis e, individualmente, talvez vocês consigam fazer muito pouco. Não importa. O que importa é terem consciência deste papel e, na medida do possível, darem sua pequena contribuição, mas de forma articulada com seus pares (em grupo) e em diálogo permanente com a sociedade. Durante o século XX, os jornalistas éticos enfrentaram dificuldades terríveis em todo mundo, e, ainda assim, conseguiram, em alguns momentos, produzir grandes e positivas mudanças. Apesar das dificuldades, não parecia tão necessário convencer as pessoas da importância do seu papel, como agora parece ser. Por isso, é importante atuarem coletivamente e defenderem, em todos os ambientes possíveis – dos grupos de whatsapp às manifestações públicas – o jornalismo alinhado à verdade e ao interesse público. Fortaleçam-se como coletivo e dialoguem com as pessoas, sem arrogância, mas de forma receptiva e pedagógica. Vocês têm um conhecimento que falta a muitas pessoas e, por isso, também têm muito a ensinar.                          

Quem é Basilio Sartor

Ele é jornalista, doutor em Comunicação pela UFRGS e professor na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), no curso de Jornalismo. Basilio foi um dos convidados do 2º Seminário de Comunicação Integrada, promovido pelos cursos de Comunicação do IPA em 2017. Ele é membro do Observatório de Comunicação Pública e integrante dos grupos de pesquisa FCCOP (Comunicação Organizacional, Cultura e Poder) e NUPEJOR (Núcleo de Pesquisa em Jornalismo).  Além disso, é pesquisador nas áreas de Jornalismo, Assessoria de Imprensa e Comunicação Pública.

07 de abril: Dia do Jornalista

A data foi criada em 1931, pela Associação Brasileira de Imprensa, em homenagem João Batista Líbero Badaró, médico e jornalista, executado por seus inimigos políticos em 1830. Líbero Badaró, como era conhecido, era um opositor ao reinado de D. Pedro I e lutava pelo fim da monarquia e pela liberdade de imprensa.

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